sábado, 26 de maio de 2012

UNIVERSAL

 

Todos almejamos o idílio do etéreo, do universal. Mas o calo dói, a barriga ronca, a palavra humilha, o olhar despe e a mão enforca. Aqui, no rés da vida, catamos migalhas ainda.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Doença

Tendo em conta os admiráveis avanços da medicina, haverá um tempo em que a única doença capaz de nos tirar a vida será a doença da vontade de viver.

Umbigo

Como é difícil falar sem que a imaginação não se presenteie com um púlpito, um microfone e um séquito. Mais difícil ainda é ouvir sem que a fantasia não se arvore em tribunal da razão, em guardiã do bom senso e da verdade.

Sinais


Entregava-me a toda sorte de logogrifos. Compunha palíndromos, decifrava anagramas, porém não me apercebia que, a contrapelo dos meus delírios, os sinais mais me enredavam do que me desatavam das teias da incompreensão. 

terça-feira, 15 de maio de 2012

Etimologia e poesia

À etimologia cabe o dever de dizer de onde viemos. À poesia cabe o direito de anunciar para onde vamos.

Citações

Minhas desorientações
Vão me levar à morte
Então faço citações
Que são como um norte

Popular e erudito

Popular ou erudito?
Que me importa?
Não há dito nem desdito
Com arte a vida se suporta

Questiúncula: não há dissenso
Tanto faz e tenho dito
Só quero e só penso
No popular e no erudito

sábado, 12 de maio de 2012

DEstaque e descarte

Destaque agora. Descarte já já.

Fast Food

Na cultura do fast food, encomende seus valores descartáveis que o delivery é grátis.

Virtudes

No meu set list de virtudes
Destaca-se a coragem virtual
Eu curto e compartilho amiúde
O mouse é meu punhal

Porto Seguro

Um porto seguro
Para afogar
Um quarto escuro
Para enxergar

Preconceito e verdade

 
Quando meu preconceito tropeça numa frase de efeito ele rejubila-se por imaginar que descobriu a verdade das verdades.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Dormir

Eu não durmo: perco-me de mim em mim mesmo. Não acordo: surpreendo-me desperto.
"... e socorrei-me de todos que querem me socorrer à revelia do meu querer"

Detalhes

De longe, os detalhes se perdem. De longe, tudo é só um detalhe.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Liberdade de expressão

Cada um diz o que quer
Ninguém tem que ouvir.
Patrulhamento de Mané
Em barroquismos mimimi.

Itamaraty

O ITAmaraty é o Ita do povo de humanas.

Velhas metáforas

Eu não durmo: perco-me de mim mesmo. Não acordo: surpreendo-me desperto.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Praça dos Três Poderes





Não é novidade para ninguém que um dos objetivos da construção de Brasília era o de isolar – ao menos por um tempo – as principais instituições políticas das influências das pessoas. Hoje, Brasília e sua região metropolitana formam um conglomerado expressivo cuja população não é composta apenas por servidores públicos. O povo está lá. Mesmo assim, as peculiaridades da geografia e da arquitetura da Capital Federal parecem diluir quaisquer eventuais aglomerações. Brasília é a urbe avessa à concentração de indivíduos. Quem por ela já andou (refiro-me agora especificamente à Brasília e não às cidades satélites) sabe que é ruim até de andar, pois as distâncias são colossais.

Na mais recente edição da Carta Capital (02 de maio de 2012), há uma entrevista com Presidente do Supremo Tribunal, o ministro Carlos Ayres Britto. Na foto de abertura da entrevista, o simpático juiz está de costas para a Praça dos Três Poderes, que podemos lobrigar através das janelas transparentes do seu gabinete. A respeito do conjunto arquitetônico projetado por Oscar Niemeyer para abrigar as sedes do Executivo, Legislativo e Judiciário, o magistrado diz: “Eu gosto muito, porque embora seja bonito, é simples, não tem luxo”. De fato, achei a imagem lindíssima.


Estive na Praça dos Três Poderes há uns 20 anos, aproximadamente. Faz tempo, eu sei, mas mesmo assim guardo vívidas recordações. A ágora pareceu-me inóspita. É um lugar de passagem, para turista tirar foto. Muito bela a partir da perspectiva de quem vê do gabinete, mas insuportável desde o ponto de observação de quem se planta nalguma parte da mesma. A praça quase é um imenso vazio. Na verdade, a praça parece ser um domínio do Sol, que não é tão favorável à presença de estranhos: sua tolerância esgota-se depois de alguns cliques. A regra básica imposta aos visitantes (que a aceitam tacitamente) é: fotografe e caia fora.

A disposição arquitetônica tem um efeito no humor do sujeito. Tal configuração também tem implicações simbólicas. Receio que as pessoas que olham para os prédios públicos a partir da praça sintam-se pouco afeitas às instituições em si e ao que elas representam devido ao sol a castigar-lhes impiedosamente a moleira. Temo que os burocratas, ao contemplarem pelos janelões a Praça dos Três Poderes, teçam devaneios e se sintam perpetuados em seus postos pelo motivo de serem, de fato, os únicos frequentadores assíduos daquele pátio sem fim.  


quinta-feira, 3 de maio de 2012

Pesadelo

O pesadelo é a frustração ruminada.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Morte

Justo por consumares o meu tempo, Morte, és um terrível contratempo.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Absurdo

O absurdo finge-se de surdo. Não adianta interrogá-lo.

Caosa

Uma causa resgata-nos do caos...

Causa

Quem não se devota à uma causa, sente-se perdido no caos...

Mal humor

Para curar o mal humor crônico, doses elevadas do cômico...

Pressa

A pressa é amiga da imperfeição... E irmã do improviso.

O (des)dizer

Parece-me a mim
Que dizer e desdizer
Constitui o fim
Do nosso sisífico ser.