domingo, 29 de janeiro de 2012

(In)Consciência Ambiental

Retrato da nossa (in)consciência ambiental traída ou revelada na linguagem ordinária pouco refletida e muito reproduzida: quando algo já não nos serve mais, usamos (já usamos mais) a expressão "joga no mato"..

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Diagnóstico

Mas o que é o analítico diagnóstico?
É um rótulo de pretensa verdade.
É apenas um rótulo pernóstico
Que denucia, do autor, a vaidade. 

Dicionário de arquétipos

“Doutor, meu marido chama-me de histérica”.
“Deve ser a irrupção de um arquétipo.
Nervosismo e alucinações feéricas
Indicam “A fúria de Medéia” e não a ‘Desolação de Édipo’”.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Exame de sangue ou tatuagem: o que incomoda mais?


Hoje cedo, eu e Sheilinha fomos a um laboratório para que ela fizesse alguns exames de rotina. Antes que a profissional responsável pelo procedimento de coleta de sangue fizesse qualquer coisa, minha companheira a advertiu de que se sentia bastante incomodada com uma agulha enfiada em sua veia. Além disso, Sheilinha solicitou que o material a ser utilizado no exame fosse o mesmo comumente empregado para colher sangue em crianças, pois esta agulha, mais fina, dificilmente escapa da veia e mais raramente deixa aquelas marcas roxas no braço. A técnica em enfermagem não se negou a atendê-la, mas tampouco deixou de fazer um comentário que Sheilinha já ouviu outras tantas vezes em situações semelhantes: "você tem medo de agulhas mesmo tendo tantas tatuagens e usando piercing?"

No caminho de volta para casa, conversamos a respeito desse pequeno fato. E foi aí que me ocorreu um pensamento que é mais ou menos o seguinte: com efeito, uma tatuagem dói demais. A dor que senti quando me tatuei me pareceu incomparavelmente maior do que a dor da picadinha no braço feita pela agulha de uma seringa. No entanto, o desconforto que - assim como Sheila - sinto ao me submeter a exames de sangue é imenso. Certa feita, furaram meus braços seis vezes até que conseguissem coletar o sangue para o exame. Não é raro acharem a veia e o sangue simplesmente não sair. Já tiveram que tirar sangue da minha mão, porque no braço não tinha jeito. Noutra ocasião, quase cheguei a desmaiar. Minha pressão arterial sempre cai e eu sempre acho o exame uma tortura. Mas em termos de dor, realmente, nem sem compara a uma tatuagem. Estranho?

Na tatuagem que fiz no braço a agulha da maquininha tirou-me sangue por aproximadamente uma hora. Vi estrelas, mas aguentei firmemente a sessão excruciante. Segurei a onda sem chegar na beira do desmaio. Ao relatar essas impressões para Sheilinha, ela me disse que compartilhava tais sensações. Foi aí que me dei conta de que deve haver um componente de ordem simbólica no ato de tirar sangue que amplifica o desconforto sentido durante o procedimento. A dor da agulha é irrisória, mas algo inconsciente perturba meu espírito, o de Sheilinha e, imagino, de muitas outras pessoas.

Sheilinha concordou comigo e ressaltou a necessidade de haver na formação dos profissionais de saúde elementos antropológicos, humanísticos. Realmente, sem uma reflexão prévia sobre os significados de um ato trivial como o de fazer um exame de sangue, o profissional da saúde tem muito mais chance de se tornar insensível ao desconforto/sofrimento dos seus pacientes. Alguns, mais do que insensíveis, tendem a ser sádicos.

Decerto que conhecimentos fisiológicos são condição necessária para um profissional da saúde, mas não são condição suficiente. É preciso um mínimo de conhecimento sobre o imaginário das pessoas no que concerne às próprias instituições da área da saúde. Queremos - falo por mim e por Sheilinha, mas creio que muitas pessoas subscreveriam o nosso desejo - profissionais de saúde que não nos vejam apenas pelo prisma reducionista do fisiológico. Queremos um olhar mais profundo, mais cuidadoso, e tal olhar é impossível se se desconsideram as angústias típicas de qualquer paciente.

Acredito que a conclusão exposta no parágrafo anterior continua válida mesmo que existam muitíssimas pessoas que não se incomodem absolutamente com um "tolo" exame de sangue. As pessoas são diferentes e cada uma delas têm uma expetiência singular com laboratórios, clínicas, hospitais, médicos etc. Mas desejo que todas sejam acolhidas e tratadas dignamente a partir de suas particularidades.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Natal

Só nos natalícios
Do menino deus
todos os vícios
dizem adeus?

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Uma objeção à astrologia



A Revista de História da Biblioteca Nacional publicou na edição de dezembro de 2011 um dossiê dedicado à astrologia. Além de muito instrutivo, pois mostra o lugar da astrologia em diversos momentos da história, o dossiê apresenta alguns conceitos fundamentais e pressupostos desta área do conhecimento. A partir de tais conceitos, por exemplo, é possível compreender de maneira definitiva as diferenças entre astrologia e astronomia. Recomendo a leitura para todos, embora a maior parte dos textos tenham teor crítico para com a astrologia e se empenhem em destitui-la de status científico (pela capa da publicação já é possível perceber isso), o que me parece justo.

De fato, tenho muita dificuldade em aceitar o que para os astrólogos é evidente: a interferência dos astros na construção da personalidade humana. É bem verdade que poucos astrólogos defendem atualmente uma determinação do comportamento dos indivíduos a partir da posição dos astros, mas não há nenhum que negue a influência dos corpos celestes sobre o nosso temperamento. Há uma série de objeções a este axioma  (e eles estão presentes na revista indicada), mas depois de ler e refletir sobre o dossiê, ocorreu-me uma dúvida que gostaria de compartilhar com todos que se interessam por este tema. Naturalmente, minha dúvida questiona a veracidade das (hipó)teses astrológicas. 

Se um dos pontos de partida da astrologia é o de que os astros influenciam o comportamento humano, então tenho de admitir que existe entre os seres humanos e os corpos celestes uma relação. Até onde minha reflexão pôde ir, percebi que onde quer que haja relação entre dois entes diferentes, há uma predisposição de cada um dos seres em questão para causar influência sobre o outro, mas também de sofrer influência do outro. Porém, acredito que até hoje a astrologia tem descrito apenas a suposta influência dos astros sobre os seres humanos, não dando qualquer relevância à situação inversa. Pergunto, então, às pessoas versadas no assunto: é isto mesmo ou se sou eu que tenho conhecimentos insuficientes sobre a questão e deste modo não consegui perceber que nós também influenciamos os astros? Por favor, me ajudem.

Contudo, se minha dúvida for pertinente e os astros efetivamente forem imunes à influência humana, então a astrologia trabalha com uma ideia muito esquisita de "relação". O modo como a relação pretensamente funcionaria na astrologia contrariaria todas as outras relações que podemos identificar na natureza e no universo simbólico.

Se, por outro lado, nós temos a capacidade de influenciar os astros, então o ônus da prova cabe aos astrólogos, os quais terão de convencer os astrônomos, por exemplo, que um eclipse lunar, o curso de um cometa ou mesmo a órbita de um planeta têm que ver também com o modo pelo qual pensamos e agimos aqui na terra. Sinceramente, não creio nisto. Se isso for verdade, outro pressuposto da astrologia rui imediatamente, a saber, o de que o "Céu" é mais perfeito do que a Terra, o que justificaria a influência daquele sobre esta. Mas se o que se passa na Terra, ou melhor, se o que alguns dos seres que vivem na Terra fazem influencia outros planetas, então a Terra não é menos perfeita do que o Céu. Logo, a Terra é menos sujeita à influência dos outros astros do que se imagina.

Enfim, essas são algumas reflexões quase que em estado puro. Conto com a ajuda e a objeção dos amigos para burilá-la e instruir-me.