sexta-feira, 4 de maio de 2012

Praça dos Três Poderes





Não é novidade para ninguém que um dos objetivos da construção de Brasília era o de isolar – ao menos por um tempo – as principais instituições políticas das influências das pessoas. Hoje, Brasília e sua região metropolitana formam um conglomerado expressivo cuja população não é composta apenas por servidores públicos. O povo está lá. Mesmo assim, as peculiaridades da geografia e da arquitetura da Capital Federal parecem diluir quaisquer eventuais aglomerações. Brasília é a urbe avessa à concentração de indivíduos. Quem por ela já andou (refiro-me agora especificamente à Brasília e não às cidades satélites) sabe que é ruim até de andar, pois as distâncias são colossais.

Na mais recente edição da Carta Capital (02 de maio de 2012), há uma entrevista com Presidente do Supremo Tribunal, o ministro Carlos Ayres Britto. Na foto de abertura da entrevista, o simpático juiz está de costas para a Praça dos Três Poderes, que podemos lobrigar através das janelas transparentes do seu gabinete. A respeito do conjunto arquitetônico projetado por Oscar Niemeyer para abrigar as sedes do Executivo, Legislativo e Judiciário, o magistrado diz: “Eu gosto muito, porque embora seja bonito, é simples, não tem luxo”. De fato, achei a imagem lindíssima.


Estive na Praça dos Três Poderes há uns 20 anos, aproximadamente. Faz tempo, eu sei, mas mesmo assim guardo vívidas recordações. A ágora pareceu-me inóspita. É um lugar de passagem, para turista tirar foto. Muito bela a partir da perspectiva de quem vê do gabinete, mas insuportável desde o ponto de observação de quem se planta nalguma parte da mesma. A praça quase é um imenso vazio. Na verdade, a praça parece ser um domínio do Sol, que não é tão favorável à presença de estranhos: sua tolerância esgota-se depois de alguns cliques. A regra básica imposta aos visitantes (que a aceitam tacitamente) é: fotografe e caia fora.

A disposição arquitetônica tem um efeito no humor do sujeito. Tal configuração também tem implicações simbólicas. Receio que as pessoas que olham para os prédios públicos a partir da praça sintam-se pouco afeitas às instituições em si e ao que elas representam devido ao sol a castigar-lhes impiedosamente a moleira. Temo que os burocratas, ao contemplarem pelos janelões a Praça dos Três Poderes, teçam devaneios e se sintam perpetuados em seus postos pelo motivo de serem, de fato, os únicos frequentadores assíduos daquele pátio sem fim.  


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