segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Uma objeção à astrologia



A Revista de História da Biblioteca Nacional publicou na edição de dezembro de 2011 um dossiê dedicado à astrologia. Além de muito instrutivo, pois mostra o lugar da astrologia em diversos momentos da história, o dossiê apresenta alguns conceitos fundamentais e pressupostos desta área do conhecimento. A partir de tais conceitos, por exemplo, é possível compreender de maneira definitiva as diferenças entre astrologia e astronomia. Recomendo a leitura para todos, embora a maior parte dos textos tenham teor crítico para com a astrologia e se empenhem em destitui-la de status científico (pela capa da publicação já é possível perceber isso), o que me parece justo.

De fato, tenho muita dificuldade em aceitar o que para os astrólogos é evidente: a interferência dos astros na construção da personalidade humana. É bem verdade que poucos astrólogos defendem atualmente uma determinação do comportamento dos indivíduos a partir da posição dos astros, mas não há nenhum que negue a influência dos corpos celestes sobre o nosso temperamento. Há uma série de objeções a este axioma  (e eles estão presentes na revista indicada), mas depois de ler e refletir sobre o dossiê, ocorreu-me uma dúvida que gostaria de compartilhar com todos que se interessam por este tema. Naturalmente, minha dúvida questiona a veracidade das (hipó)teses astrológicas. 

Se um dos pontos de partida da astrologia é o de que os astros influenciam o comportamento humano, então tenho de admitir que existe entre os seres humanos e os corpos celestes uma relação. Até onde minha reflexão pôde ir, percebi que onde quer que haja relação entre dois entes diferentes, há uma predisposição de cada um dos seres em questão para causar influência sobre o outro, mas também de sofrer influência do outro. Porém, acredito que até hoje a astrologia tem descrito apenas a suposta influência dos astros sobre os seres humanos, não dando qualquer relevância à situação inversa. Pergunto, então, às pessoas versadas no assunto: é isto mesmo ou se sou eu que tenho conhecimentos insuficientes sobre a questão e deste modo não consegui perceber que nós também influenciamos os astros? Por favor, me ajudem.

Contudo, se minha dúvida for pertinente e os astros efetivamente forem imunes à influência humana, então a astrologia trabalha com uma ideia muito esquisita de "relação". O modo como a relação pretensamente funcionaria na astrologia contrariaria todas as outras relações que podemos identificar na natureza e no universo simbólico.

Se, por outro lado, nós temos a capacidade de influenciar os astros, então o ônus da prova cabe aos astrólogos, os quais terão de convencer os astrônomos, por exemplo, que um eclipse lunar, o curso de um cometa ou mesmo a órbita de um planeta têm que ver também com o modo pelo qual pensamos e agimos aqui na terra. Sinceramente, não creio nisto. Se isso for verdade, outro pressuposto da astrologia rui imediatamente, a saber, o de que o "Céu" é mais perfeito do que a Terra, o que justificaria a influência daquele sobre esta. Mas se o que se passa na Terra, ou melhor, se o que alguns dos seres que vivem na Terra fazem influencia outros planetas, então a Terra não é menos perfeita do que o Céu. Logo, a Terra é menos sujeita à influência dos outros astros do que se imagina.

Enfim, essas são algumas reflexões quase que em estado puro. Conto com a ajuda e a objeção dos amigos para burilá-la e instruir-me.








Um comentário:

Miradouro Cinematográfico disse...

Ora ora, deixando de lado nossa breve e polêmica conversa sobre o tema no final da festa de Mariri Fidelis, há algo de fundamental importância posto por vc: a possibilidade de condicionamento recíproco; isso me remeteu a necessidade dum estudo acerca das origens da astrologia, pois parece bastante provável que muito do que é feito sob este nome de astrologia consiste numa simplificação ou deturpação; acredito neste condicionamento recíproco não só entre humanos e astros, mas entre tudo no mundo (estarei sendo demasiado hegeliano?).

Quanto a questão de ser ela ou não ciência, parece-me inteiramente irrelevante; poesia não é ciência e pode ser uma forma de conhecimento muito mais significativa que esta. Não se trata aqui duma defesa incondicional da astrologia, mas antes duma problematização anti-positivista; não li a revista, mas da forma que vc colocou me lembrou a ridicularização do círulo de Viena em relação à metafísica.