sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

João da Costa

João da Costa,

Tu ages na calada da noite
E na surdina tu te revelas.
Tua gestão foi um açoite
Nossa desprezo é o que levas.

Tristeza e Alegria

Tristeza e Alegria
São velhas vizinhas.
Tão velhas que tem dia
Que as pobres velhinhas
Confundem-se de moradia.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Terno puído

O meu fato roto
Está todo moído 
É traje de morto
É terno puído

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Felicidade?

Condicionar a felicidade à realização dos sonhos é aposta de alto risco para a vida. Viver com ânimo a despeito das incompletudes e das reticências talvez seja o verdadeiro desafio. Sonho realizado é um capricho para quem tem o hábito de resignificar, incondicionalmente, o presente como dádiva.

MEDITAÇÃO

MEDITO, medito, me di to, me deito zzzzzzzzz

Any wave brings the whole sea

Any wave brings the whole sea
Each shore reveals all the oceans
My eyes show places never seen
My tears melt in all existent emotions

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Real

O real não é fotografia
Tampouco é um show
Num átimo vida havia
Noutro a vida murchou

sábado, 8 de dezembro de 2012

Feixe de possibilidades

Se a vida é um feixe de possibilidades, desfrutá-la-ei comendo peixe e falando amenidades.

Franqueza

É lamentável quando a franqueza é confundida com uma forma de fraqueza.

Primeiro passo

Para quem se acomodou, o hiato entre o manter-se quedado e o primeiro passo é infinitamente maior do que o abismo a separar o primeiro do milésimo passo.

Bibliômano

Indaga-se o bibliômano:

- Mas se eu só comprar e-books como vou fazer para acharem que sou culto?

Responde seu colega que durante muito tempo foi considerado o maior alfarrabista da cidade:

- Compre vários dispositivos de leitura eletrônica e espelhe-os pela casa. Alegue que a memória de cada um é insuficiente para comportar todos os seus livros. E o legal é que você nem precisa comprar mesmo. Basta deixar a bateria descarregada.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

SPORT

Hoje as lágrimas 
São de tristeza
Mas essas lástimas
Vão-se com certeza

O amor

O amor é o soberano do tempo, pois chega e vai embora na sua hora, que nem sempre é a nossa. Mas não rara é a sensação de que ele chega tarde e esvai-se cedo.

O cínico



Eu desfilo minhas crenças
Fantasiadas de verdade.
Tomo críticas como ofensas
Que tolhem minha liberdade.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Moralismo

O moralismo só convence quem já é convencido (ou convertido)

* Acepção nº 2 do conceito de moralismo contida no dicionário de filosofia de Nicola Abbagnano: “Na linguagem comum e cada vez mais na filosófica, esse termo designa a atitude de quem se compraz em moralizar sobre todas as coisas, sem tentar compreender as situações sobre as quais expressa o juízo moral. Nesse sentido, o M. é um formalismo ou conformismo moral que tem pouca substância humana”.

 **Apostei no uso do verbo "ser" em vez do verbo "estar" porque algumas pessoas SÃO convencidas, nunca ESTÃO convencidas. Estar concencido(a) de algo é ainda deixar um brecha aberta para futuras discussões e reposicionamentos. Ser convencido(a) de algo é fechar qualquer forma de diálogo.

Nem toda casa é lar

Nem toda casa é lar
Nor every house is home
Lar é mais que um lugar pra deitar
É muito mais do que um canto onde se come.

Lar é onde se é junto, mesmo intrigado.
Lá, privacidade e intimidade são compatíveis
Lar é onde se é aguardado e se é guardado
De todos os riscos e males possíveis.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

O sóbrio e o ébrio

Há uma linha muito diáfana
Entre todo ébrio e todo sóbrio
Porém sempre pesa a má-fama
Sobre qualquer bêbado notório.

Medo

O medo não constrói castelos,
Mas é mestre em projetar masmorras:
Vivo a gritar e arrancar cabelos.
- Não viverei, ó medo, até que morras.

Raça e racismo

Pouco importa que raça não seja um fato biológico enquanto o racismo continuar sendo um fato social.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

...

Um fala o que bem quer
Outro entende o que pode
Um mal-entendido qualquer
E o mundo todo se explode

Doutrinas salvacionistas

Meu entusiasmo por doutrinas salvacionistas é equivalente ao furor que tenho quando um novo sabonete antibacteriano é anunciado na tv.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Compaixão

Só a compaixão nos redime da covardia.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Cacoete

Teus cacoetes te caguetam.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Leso

O caminho flui para os espertos
E eu me atraso sendo leso.
Com riso largo e olhos bem abertos
Lesam-me amigos que prezo.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Refúgio

Meu refúgio é a incerteza

Educadores

Algumas pessoas se educam apesar dos seus educadores.

Passional

Racional ou passional? A racionalizar paixões prefiro passionalizar razões.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Especialista

Não consigo me tornar especialista em nada: tudo me parece tão especial. Pode ser preguiça também.

Ciclo

Como sair deste ciclo?

Quando falo, não importa o que diga, digo quem sou. Ao dizer quem sou, condeno quem não sou.

Basta

Se um sacerdote subir ao púlpito para condenar a homossexualidade, não logrará senão aumentar o ódio. Com seu discurso, ele não fará calar o desejo – que é o que define a orientação sexual de uma pessoa – mas acalentará o ódio dos ignorantes. E mesmo que não diga, é este seu propósito, pois assim se verá à frente de uma massa raivosa que se crê santa. Para aumentar seu poder, isto basta.

O crítico

Talvez o crítico, do alto de sua pretensa altivez, rejeite com o mesmo prazer que um burocrata quando este escreve “INDEFERIDO” num documento qualquer. Por suposto, tem mais estilo que o funcionário público. Com alguns rapapés justifica-se ao leitor e sua rejeição desdobra-se em desdém filigranado.

Rios

Nem tudo que reluz é Douro.
Cintila mais, sem pejo, o Tejo.
Aqui, na civilização do couro,
Brilha todo riacho que sai do brejo.

Movimentos sociais

As circunstâncias sociais praticamente obrigam os movimentos sociais a existir. Mas cada militante de um desses movimentos deveria desejar, no seu mais íntimo, que um dia o movimento pelo qual ele/ela levanta faixas, bandeiras e a própria voz deixe de existir.

Eu falo

Não me calo:
Eu falo
Até fazer calo
Nas cordas. Fui claro?

Divã nordestino

Se Freud fosse nordestino, o divã de seu consultório poderia ter sido uma rede.

Pranto

Em cada esquina
Em todo canto
Há uma mina, 
Pólvora e pranto.

Insônia

Que ideia vaga a informação da idade da Terra! 5 bilhões de anos? Nada que se compare com a sensação de uma noite insone: esta sim de uma duração sem fim.

Maturidade

A maturidade é uma tecelã que, vagarosa e silenciosamente, fia a mortalha da ingenuidade.

Arte

Cura e fere
Simultaneamente.
Interfere,
Muda, na mente.

Arte

Uma das possibilidades da filosofia é a de questionar estruturas de pensamento e de organização social. O mesmo vale para as ciências sociais. Mas me parece que as artes podem ser, neste quesito, ainda mais eficientes, já que tocam no "calcanhar de aquiles" dos seres humanos, ou seja, fustigam as emoções e os sentimentos. É difícil não nos dobrarmos e não reavaliarmos posicionamentos quando o conteúdo das ideias são postos sob mil formas sublimes em que se revelam nas obras de arte.

o argumento se deita na cama preparada pela emoção.

Gana

Tudo ou nada
É mero detalhe.
A gana danada
Ignora achincalhe.

Utopia

Viver além das dicotomias
É um sonho, uma utopia.
Ai, como eu muito queria
Lograr isto um belo dia.

Corrupção

Não é necessária uma consulta à etimologia da palavra para termos uma noção do significado de corrupção, até mesmo porque raro seria aquele que deixaria de praticar um ato desta natureza depois de saber que, em latim, corruptus tinha o sentido de algo quebrado em pedaços e o verbo corromper indicava o processo de putrefação. Ainda assim, quem recorre a essas metáforas originais põe um verniz fino de erudição em sua figura enquanto transmite a impressão de ser incorruptível.

Reação

Mas o que te aflige?
Arre, que fastio!
Ao menos finge 
E mostra algum brio.

No espírito de Parmênides

Sigo e me reinvento
Mas não é suficiente
Eu tento, tento e tento
E sou sempre o mesmo ente.

Memória

A memória não é um baú. Está mais para demiurgo que, com a plasticidade das emoções, reinventa sem parar o passado.

domingo, 2 de setembro de 2012

encruzilhada

... porque meu desejo é encruzilhada e minhas pernas insistem em caminhar juntas

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Café

Tomar um café é um réquiem para a sede e para o sono.

Machismo

Fala o machista: "Mulher, tua essência é parir e viver do recato. Tua fala é um desacato".

Generalização

Há casos em que a generalização nasce da preguiça da razão.

Fundamentalismo

Pior que o de ordem religiosa, se é que se pode fazer escalas desta natureza, é o fundamentalismo travestido de cientificismo.

Ciência

Que ciência não nasce de algum tipo de carência?

Máximas

Prefiro as máximas minimalistas: são mais fáceis de memorizar.

Poliglota?

Há vezes em que falar várias línguas significa apenas multiplicar os modos de dizer asneiras.

sábado, 26 de maio de 2012

UNIVERSAL

 

Todos almejamos o idílio do etéreo, do universal. Mas o calo dói, a barriga ronca, a palavra humilha, o olhar despe e a mão enforca. Aqui, no rés da vida, catamos migalhas ainda.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Doença

Tendo em conta os admiráveis avanços da medicina, haverá um tempo em que a única doença capaz de nos tirar a vida será a doença da vontade de viver.

Umbigo

Como é difícil falar sem que a imaginação não se presenteie com um púlpito, um microfone e um séquito. Mais difícil ainda é ouvir sem que a fantasia não se arvore em tribunal da razão, em guardiã do bom senso e da verdade.

Sinais


Entregava-me a toda sorte de logogrifos. Compunha palíndromos, decifrava anagramas, porém não me apercebia que, a contrapelo dos meus delírios, os sinais mais me enredavam do que me desatavam das teias da incompreensão. 

terça-feira, 15 de maio de 2012

Etimologia e poesia

À etimologia cabe o dever de dizer de onde viemos. À poesia cabe o direito de anunciar para onde vamos.

Citações

Minhas desorientações
Vão me levar à morte
Então faço citações
Que são como um norte

Popular e erudito

Popular ou erudito?
Que me importa?
Não há dito nem desdito
Com arte a vida se suporta

Questiúncula: não há dissenso
Tanto faz e tenho dito
Só quero e só penso
No popular e no erudito

sábado, 12 de maio de 2012

DEstaque e descarte

Destaque agora. Descarte já já.

Fast Food

Na cultura do fast food, encomende seus valores descartáveis que o delivery é grátis.

Virtudes

No meu set list de virtudes
Destaca-se a coragem virtual
Eu curto e compartilho amiúde
O mouse é meu punhal

Porto Seguro

Um porto seguro
Para afogar
Um quarto escuro
Para enxergar

Preconceito e verdade

 
Quando meu preconceito tropeça numa frase de efeito ele rejubila-se por imaginar que descobriu a verdade das verdades.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Dormir

Eu não durmo: perco-me de mim em mim mesmo. Não acordo: surpreendo-me desperto.
"... e socorrei-me de todos que querem me socorrer à revelia do meu querer"

Detalhes

De longe, os detalhes se perdem. De longe, tudo é só um detalhe.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Liberdade de expressão

Cada um diz o que quer
Ninguém tem que ouvir.
Patrulhamento de Mané
Em barroquismos mimimi.

Itamaraty

O ITAmaraty é o Ita do povo de humanas.

Velhas metáforas

Eu não durmo: perco-me de mim mesmo. Não acordo: surpreendo-me desperto.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Praça dos Três Poderes





Não é novidade para ninguém que um dos objetivos da construção de Brasília era o de isolar – ao menos por um tempo – as principais instituições políticas das influências das pessoas. Hoje, Brasília e sua região metropolitana formam um conglomerado expressivo cuja população não é composta apenas por servidores públicos. O povo está lá. Mesmo assim, as peculiaridades da geografia e da arquitetura da Capital Federal parecem diluir quaisquer eventuais aglomerações. Brasília é a urbe avessa à concentração de indivíduos. Quem por ela já andou (refiro-me agora especificamente à Brasília e não às cidades satélites) sabe que é ruim até de andar, pois as distâncias são colossais.

Na mais recente edição da Carta Capital (02 de maio de 2012), há uma entrevista com Presidente do Supremo Tribunal, o ministro Carlos Ayres Britto. Na foto de abertura da entrevista, o simpático juiz está de costas para a Praça dos Três Poderes, que podemos lobrigar através das janelas transparentes do seu gabinete. A respeito do conjunto arquitetônico projetado por Oscar Niemeyer para abrigar as sedes do Executivo, Legislativo e Judiciário, o magistrado diz: “Eu gosto muito, porque embora seja bonito, é simples, não tem luxo”. De fato, achei a imagem lindíssima.


Estive na Praça dos Três Poderes há uns 20 anos, aproximadamente. Faz tempo, eu sei, mas mesmo assim guardo vívidas recordações. A ágora pareceu-me inóspita. É um lugar de passagem, para turista tirar foto. Muito bela a partir da perspectiva de quem vê do gabinete, mas insuportável desde o ponto de observação de quem se planta nalguma parte da mesma. A praça quase é um imenso vazio. Na verdade, a praça parece ser um domínio do Sol, que não é tão favorável à presença de estranhos: sua tolerância esgota-se depois de alguns cliques. A regra básica imposta aos visitantes (que a aceitam tacitamente) é: fotografe e caia fora.

A disposição arquitetônica tem um efeito no humor do sujeito. Tal configuração também tem implicações simbólicas. Receio que as pessoas que olham para os prédios públicos a partir da praça sintam-se pouco afeitas às instituições em si e ao que elas representam devido ao sol a castigar-lhes impiedosamente a moleira. Temo que os burocratas, ao contemplarem pelos janelões a Praça dos Três Poderes, teçam devaneios e se sintam perpetuados em seus postos pelo motivo de serem, de fato, os únicos frequentadores assíduos daquele pátio sem fim.  


quinta-feira, 3 de maio de 2012

Pesadelo

O pesadelo é a frustração ruminada.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Morte

Justo por consumares o meu tempo, Morte, és um terrível contratempo.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Absurdo

O absurdo finge-se de surdo. Não adianta interrogá-lo.

Caosa

Uma causa resgata-nos do caos...

Causa

Quem não se devota à uma causa, sente-se perdido no caos...

Mal humor

Para curar o mal humor crônico, doses elevadas do cômico...

Pressa

A pressa é amiga da imperfeição... E irmã do improviso.

O (des)dizer

Parece-me a mim
Que dizer e desdizer
Constitui o fim
Do nosso sisífico ser.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Ritos

E se há gritos
Rasgando o ar
Haverá ritos
Para purificar

Healthy breath

And when I need
A new kind of
Healthy breath
I can’t find enough…

Narradores

Somos, por excelência, narradores. Animais que contam história é o que somos. Nem o nada está ausente dos nossos relatos. Mesmo dormindo não nos damos trégua e embalamos nosso sono com tramas fantásticas.
Sobre esta questão, recomendo o belo filme Narradores de Javé.

Contradição

Quando a palavra
Contradiz a ação
O homem apalavra
Mas apunhala o irmão

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Mestre

Lastimo mas te digo
Que o mestre veraz
É o precioso amigo
Que raramente verás.

morrendo de medo

Desde muito cedo
Que eu já vivia
Morrendo de medo
E queimando de azia.

Ai que agonia,
Eu só queria a poesia....

Beleza

Pega a certeza
E a desacerta
Deus é a beleza
O santo é o esteta

Oi

Meu oi é um grito:
É um apelo pueril.
É invasivo, é atrito,
É suave, é gentil

Verdade

Na verdade minha
Você se orienta
Altivo caminha
E jamais se arrebenta

Sabedoria

Nem tudo ocorre
Como escutei um dia:
“Quando o tempo corre
Avança a sabedoria.”

terça-feira, 10 de abril de 2012

Saudade

Nunca soube se a saudade é o prefácio ou o posfácio da felicidade.

Eterno Retorno do Tema

O tempo flui
E a vida vai
Quem eu fui
Não sou mais

Seu Lunga

Na falta de pinça, serve peixeira.

Rotina

Nas intermitências dos sonhos
Segue a impiedosa rotina
Pedros, Marias e Antônios
Não fogem de fatídica sina

domingo, 8 de abril de 2012

Música Clássica

A única música clássica que escuto é o hino do Sport

Masculinidade

Masculinidade tem sido até aqui sinônimo de maiusculinidade.

Insignificante

Ele era tão insignificante que fingi que o vi

Poesia do chato

Mais uma vez?
Esse ritual de novo?
À minha tez
Não agrada esse ovo.

Não quero esse mimo.
Da tradição hoje zombo.
Pode ser que não tenha tino
Mas vou golar o ovo de Colombo.

Necessário

Carro rua roda
Pedestre pé perambula
Sede suor soda
Garçon mata gula

Ideologia

A ideologia é a forma
Que no silêncio molda
A voz irritante e morna
Do intelectual da moda

Que, patético, pretende ser
Isento, coisa que não é.
Tenciona estar acima do morrer
E salva ideias na sua Arca de Noé.

Refém

Não, não quero ser nem serei refém
Das imagens que outros criam de mim
Eu não sou, no berço, um neném
Sou diferente e isso não é bom nem ruim

quinta-feira, 5 de abril de 2012

vaidade

Ah,a velha vaidade
que te dá a verdade
e nem mesmo a idade
te livra dessa veleidade

Autoconhecimento

Nem sempre é, mas nunca um processo de aquisição de conhecimento deveria deixar de ser, simultaneamente, uma oportunidade para desenvolver autoconhecimento.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Millôr

Nada é mais forte
Nada dói mais
Que tua morte
Sem um “até mais”.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

brief time

Hello, my name is joy
I live just a few time
And I will die as a little boy
But this brief time, it’s mine

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Deambulações Pessoanoas


Em clima carnavalesco, isto é, de rebeldia, reviravolta e iconoclastia, proponho algumas variações a partir do cânone mor da poesia em língua portuguesa. Aos ortodoxos, lembro que

Nada vale a pena
Se a alma se apequena

De fato, é preciso navegar e seguir adiante. Aos que se agarram demasiadamente à autoridade das tradições, lembro que

Leve feito pena
É a alma não pequena

E isso é valido mesmo para aquele sobre cujos ombros pesa o remorso, pois é melhor que não pare de navegar, a despeito do passado. Insto-lhe:

Cumpre a tua pena
Que a culpa se apequena

E assim a vida segue num vaivém sem volta. Nem pior nem melhor, cada um segue sua sina nessa arca peregrina. Mas te aviso que

Se dos outros não tens pena
Tua alma é pequena

É o que tenho a dizer, mas se de mim discordas

Escreve, usa a tua pena
Se a minha é pequena

domingo, 29 de janeiro de 2012

(In)Consciência Ambiental

Retrato da nossa (in)consciência ambiental traída ou revelada na linguagem ordinária pouco refletida e muito reproduzida: quando algo já não nos serve mais, usamos (já usamos mais) a expressão "joga no mato"..

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Diagnóstico

Mas o que é o analítico diagnóstico?
É um rótulo de pretensa verdade.
É apenas um rótulo pernóstico
Que denucia, do autor, a vaidade. 

Dicionário de arquétipos

“Doutor, meu marido chama-me de histérica”.
“Deve ser a irrupção de um arquétipo.
Nervosismo e alucinações feéricas
Indicam “A fúria de Medéia” e não a ‘Desolação de Édipo’”.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Exame de sangue ou tatuagem: o que incomoda mais?


Hoje cedo, eu e Sheilinha fomos a um laboratório para que ela fizesse alguns exames de rotina. Antes que a profissional responsável pelo procedimento de coleta de sangue fizesse qualquer coisa, minha companheira a advertiu de que se sentia bastante incomodada com uma agulha enfiada em sua veia. Além disso, Sheilinha solicitou que o material a ser utilizado no exame fosse o mesmo comumente empregado para colher sangue em crianças, pois esta agulha, mais fina, dificilmente escapa da veia e mais raramente deixa aquelas marcas roxas no braço. A técnica em enfermagem não se negou a atendê-la, mas tampouco deixou de fazer um comentário que Sheilinha já ouviu outras tantas vezes em situações semelhantes: "você tem medo de agulhas mesmo tendo tantas tatuagens e usando piercing?"

No caminho de volta para casa, conversamos a respeito desse pequeno fato. E foi aí que me ocorreu um pensamento que é mais ou menos o seguinte: com efeito, uma tatuagem dói demais. A dor que senti quando me tatuei me pareceu incomparavelmente maior do que a dor da picadinha no braço feita pela agulha de uma seringa. No entanto, o desconforto que - assim como Sheila - sinto ao me submeter a exames de sangue é imenso. Certa feita, furaram meus braços seis vezes até que conseguissem coletar o sangue para o exame. Não é raro acharem a veia e o sangue simplesmente não sair. Já tiveram que tirar sangue da minha mão, porque no braço não tinha jeito. Noutra ocasião, quase cheguei a desmaiar. Minha pressão arterial sempre cai e eu sempre acho o exame uma tortura. Mas em termos de dor, realmente, nem sem compara a uma tatuagem. Estranho?

Na tatuagem que fiz no braço a agulha da maquininha tirou-me sangue por aproximadamente uma hora. Vi estrelas, mas aguentei firmemente a sessão excruciante. Segurei a onda sem chegar na beira do desmaio. Ao relatar essas impressões para Sheilinha, ela me disse que compartilhava tais sensações. Foi aí que me dei conta de que deve haver um componente de ordem simbólica no ato de tirar sangue que amplifica o desconforto sentido durante o procedimento. A dor da agulha é irrisória, mas algo inconsciente perturba meu espírito, o de Sheilinha e, imagino, de muitas outras pessoas.

Sheilinha concordou comigo e ressaltou a necessidade de haver na formação dos profissionais de saúde elementos antropológicos, humanísticos. Realmente, sem uma reflexão prévia sobre os significados de um ato trivial como o de fazer um exame de sangue, o profissional da saúde tem muito mais chance de se tornar insensível ao desconforto/sofrimento dos seus pacientes. Alguns, mais do que insensíveis, tendem a ser sádicos.

Decerto que conhecimentos fisiológicos são condição necessária para um profissional da saúde, mas não são condição suficiente. É preciso um mínimo de conhecimento sobre o imaginário das pessoas no que concerne às próprias instituições da área da saúde. Queremos - falo por mim e por Sheilinha, mas creio que muitas pessoas subscreveriam o nosso desejo - profissionais de saúde que não nos vejam apenas pelo prisma reducionista do fisiológico. Queremos um olhar mais profundo, mais cuidadoso, e tal olhar é impossível se se desconsideram as angústias típicas de qualquer paciente.

Acredito que a conclusão exposta no parágrafo anterior continua válida mesmo que existam muitíssimas pessoas que não se incomodem absolutamente com um "tolo" exame de sangue. As pessoas são diferentes e cada uma delas têm uma expetiência singular com laboratórios, clínicas, hospitais, médicos etc. Mas desejo que todas sejam acolhidas e tratadas dignamente a partir de suas particularidades.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Natal

Só nos natalícios
Do menino deus
todos os vícios
dizem adeus?

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Uma objeção à astrologia



A Revista de História da Biblioteca Nacional publicou na edição de dezembro de 2011 um dossiê dedicado à astrologia. Além de muito instrutivo, pois mostra o lugar da astrologia em diversos momentos da história, o dossiê apresenta alguns conceitos fundamentais e pressupostos desta área do conhecimento. A partir de tais conceitos, por exemplo, é possível compreender de maneira definitiva as diferenças entre astrologia e astronomia. Recomendo a leitura para todos, embora a maior parte dos textos tenham teor crítico para com a astrologia e se empenhem em destitui-la de status científico (pela capa da publicação já é possível perceber isso), o que me parece justo.

De fato, tenho muita dificuldade em aceitar o que para os astrólogos é evidente: a interferência dos astros na construção da personalidade humana. É bem verdade que poucos astrólogos defendem atualmente uma determinação do comportamento dos indivíduos a partir da posição dos astros, mas não há nenhum que negue a influência dos corpos celestes sobre o nosso temperamento. Há uma série de objeções a este axioma  (e eles estão presentes na revista indicada), mas depois de ler e refletir sobre o dossiê, ocorreu-me uma dúvida que gostaria de compartilhar com todos que se interessam por este tema. Naturalmente, minha dúvida questiona a veracidade das (hipó)teses astrológicas. 

Se um dos pontos de partida da astrologia é o de que os astros influenciam o comportamento humano, então tenho de admitir que existe entre os seres humanos e os corpos celestes uma relação. Até onde minha reflexão pôde ir, percebi que onde quer que haja relação entre dois entes diferentes, há uma predisposição de cada um dos seres em questão para causar influência sobre o outro, mas também de sofrer influência do outro. Porém, acredito que até hoje a astrologia tem descrito apenas a suposta influência dos astros sobre os seres humanos, não dando qualquer relevância à situação inversa. Pergunto, então, às pessoas versadas no assunto: é isto mesmo ou se sou eu que tenho conhecimentos insuficientes sobre a questão e deste modo não consegui perceber que nós também influenciamos os astros? Por favor, me ajudem.

Contudo, se minha dúvida for pertinente e os astros efetivamente forem imunes à influência humana, então a astrologia trabalha com uma ideia muito esquisita de "relação". O modo como a relação pretensamente funcionaria na astrologia contrariaria todas as outras relações que podemos identificar na natureza e no universo simbólico.

Se, por outro lado, nós temos a capacidade de influenciar os astros, então o ônus da prova cabe aos astrólogos, os quais terão de convencer os astrônomos, por exemplo, que um eclipse lunar, o curso de um cometa ou mesmo a órbita de um planeta têm que ver também com o modo pelo qual pensamos e agimos aqui na terra. Sinceramente, não creio nisto. Se isso for verdade, outro pressuposto da astrologia rui imediatamente, a saber, o de que o "Céu" é mais perfeito do que a Terra, o que justificaria a influência daquele sobre esta. Mas se o que se passa na Terra, ou melhor, se o que alguns dos seres que vivem na Terra fazem influencia outros planetas, então a Terra não é menos perfeita do que o Céu. Logo, a Terra é menos sujeita à influência dos outros astros do que se imagina.

Enfim, essas são algumas reflexões quase que em estado puro. Conto com a ajuda e a objeção dos amigos para burilá-la e instruir-me.