quarta-feira, 25 de maio de 2011

Quantidade de páginas de dissertações / teses

Tenho ouvido recentemente de amigos que estudam em pós-graduções que estas cada vez mais fixam um número mínimo de páginas (às vezes, palavras) que um trabalho acadêmico deve conter. Isto me assusta.

Como é que se determina um número de páginas para um trabalho sem conhecer ainda suas especificidades? Que critério é esse que obriga qualquer aluno da pós-graduação X, independentemente do objeto que pesquise, a escrever ao menos 200 páginas? De onde vem este número? É algo cabalístico? Que tipo de esoterismo é este?

Conheço alguns colegas que me confidenciaram que, para chegar até este patamar fixado previamente, tiveram de "encher linguiça", ou seja, escrever trivialidades, tergiversar... Um deles disse-me: "dei o meu recado em 120 páginas, mas fui obrigado a chegar até 200". Ressalto que o trabalho foi elogiadíssimo pelos papas da área que compuseram a banca de avaliação.

Acho irracional essa prática. Ora, se for possível dizer em 10 páginas e sem prejuízos o que foi dito em 20, por que não dizê-lo então? Mérito de quem possui esta habilidade, pois num mundo em que somos bombardeados por informações e que ainda exige que cuidemos da nossa formação continuamente é importante que não sejamos obrigados a ler dezenas de páginas escritas apenas para cumprir a regra, isto é, para "encher linguiça". Para piorar, este mau hábito ainda é antiecológico.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Música e qualidade de vida

Podemos eleger uma série de indicadores de qualidade de vida. Julgo interessante acrescentar a qualquer conjunto desses critérios o do tempo que dedicamos a ouvir música. Mas não deve ser contabilizado o tempo de escuta de música que outras pessoas - como vizinhos indesejados - nos impõem.

domingo, 15 de maio de 2011

Esquizofrenia: um relato e uma proposta

Ontem à noite, na Livraria Cultura e no Paço Alfândega, vi um jovem com idade próxima aos trinta anos vociferar reiteradamente contra os psiquiatras, acusando-os, dentre outras coisas, de serem abusadores de seus pacientes. Não sou psi (cólogo, quiatra, canalista...), mas identifiquei (e quem não o fez?) um quê de desequilíbrio naquele discurso. Mesmo não sendo psi, supus tratar-se de um esquizofrênico em surto, embora não estivesse totalmente seguro disto.

Percebi sua indignação contra toda sorte de psiquiatra, mas fui cuidar da minha vida observando as sempre sedutoras estantes da Livraria Cultura. Vez ou outra sua voz atingia-me novamente, aliás suas voz ia e vinha como o seu próprio corpo excitado que não quedava num canto um instante. Sendo franco, antes de lançar-lhe o rótulo de "esquizofrênico", e enquanto ainda não era capaz de distinguir o que dizia, pensei que o jovem fosse um cliente indignado, pois as primeiras palavras que entendi foram: "isso precisava ser dito". Mas ele se afastou de mim, após ter formulado esta frase. Então considerei a possibilidade de ele estar fazendo algum protesto de cunho político ou ainda uma performance artística...

Mas a insistência do estribilho contra psiquiatras e congêneres não podia ser a de um mero militante. Trinta, quarenta minutos (não sei ao certo) reproduzindo um discurso indignado, que por bem me esforcei para evitá-lo. Porém, o que não pude foi fingir que não ouvia a acusação tantas vezes repetidas (fruto de um delírio ou um abuso?).

Na livraria, as pessoas estavam como que suspensas numa nuvem densa de espanto e galhofa, medo e pilhéria, preocupação e afetação... Vez ou outra mirava-as, e via tudo isto. Via também que várias se comportavam como os seguranças da loja, isto é, acompanhando de longe, mas dissimulando a visão. 

O desfecho (ou o clímax, segundo alguns) foi quando o jovem derrubou uma estante daquelas de livros de bolso. Não vi, mas ouvi. E tendo ouvido, assustei-me muito com o estrondo. A primeira ideia que me veio à mente (e desejei que ela não correspondesse ao real) foi a de que ele estivesse machucado porque chocou-se contra aquelas portas de vidro (eu sei que se abrem quando delas nos aproximamos). Fiquei nervoso ao imaginá-lo ensanguentado.

Quando me aproximei da entrada da loja (era pra lá que as pessoas se dirigiam), não vi o rapaz novamente. Disseram-me que os seguranças o dominaram e o retiraram do local depois que ele lançou ao chão a estante de livros. Disseram-me também que ele já era conhecido por ali e que, embora sempre se comportasse de maneira estranha, jamais havia feito o que fez. Mas ele estava prestes a explodir. Dois ou três minutos antes de surpreender-me com o forte barulho, eu escutei (quando numa de suas tantas idas e vindas se reaproximou de mim) qualquer coisa como: "ninguém precisa se preocupar; eu não vou fazer nada...".

Um detalhe que talvez seja importante é o de que enquanto o jovem demonstrava um discurso raivoso contra psiquiatras no térreo da livraria, no primeiro andar ocorria uma noite de autógrafos com o famosíssimo psicanalista Contardo Calligaris. Sei que psicanalista é algo diferente de psiquiatra, mas não sei se o rapaz sabia disto... Tampouco sei se este mesmo rapaz sabia da presença de Contardo Calligaris e se Contardo Calligaris notou a presença do rapaz.

Mas, até onde me lembro, não vi o rapaz subir uma vez sequer ao primeiro andar.  


Depois de tudo isso e de ter trocado meia dúzia de palavras com Sheila (minha companheira) e duas amigas que encontrei (encontramos), paguei o que escolhi comprar e fui (fomos) embora.

Mesmo longe, continuei com a cabeça ligada ao episódio. Sheila lembrava-me das dificuldades que devem enfrentar os pais daquele jovem. Eu lembrava-me do poeta Ferreira Gullar, que teve dois filhos com esquizofrenia. Imaginei-me sendo pai de alguém com esta doença e pensei em como esta situação seria realmente uma "barra". Pensei que ficaria muito angustiado cada vez que meu filho saísse de casa:  "e se ele tiver um surto?";  "e se ele cometer algum ato de violência contra os outros?"; "e se ele se machucar ou machucarem-no?"; "e se ele não souber ou não puder voltar para casa?".

Fiquei pensando num mecanismo de monitoramento físico das pessoas com doenças mentais sérias. Sei que faz parte do delírio de muitos desses pacientes a ideia de que lhes colocaram um chip. Mas e se isso fosse real? Por que não colocaríamos um dispositivo eletrônico para localizarmos nossos parentes quando, em surto, não voltassem para casa? (por que me incluo na ação? será que é porque falo em nome da razão, da antípoda da loucura?) Ou será que essa ideia não passa de um delírio fascista da minha parte?

Apresento essa proposta e sei o quanto ela é controversa. Mesmo assim, acho que num diálogo respeitoso teremos o que aprender discutindo a respeito dela.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Alguns dados biográficos de Gadamer

Hans-Georg Gadamer (1900-2002)


Pensador de origem alemã, Hans-Georg Gadamer é conhecido, sobretudo, devido às suas pesquisas na área da filosofia hermenêutica. Doutorou-se em filosofia aos 22 anos com a tese intitulada “A essência do prazer e do diálogo em Platão”. Porém, aproximou-se dos estudos hermenêuticos apenas após seu doutoramento: acometido pela poliomielite, isolou-se por um ano e, durante este período, entrou em contato com a fenomenologia de Edmund Husserl e o pensamento de Martin Heidegger, de quem foi aluno na Universidade de Freiburg. Sob a orientação de Heidegger obteve a segunda tese de doutorado em 1928 (trabalho que lhe permitiu ingressar na carreira acadêmica).
A influência do pensamento de Heidegger é facilmente identificada nas ideias de Gadamer. Aliás, o próprio Gadamer nunca a omitiu. Todavia, no campo político, havia dissonância entre ambos. Diferentemente do seu mestre que travou relações com o Nazismo, Gadamer manteve-se sempre afastado desta ideologia, bem como também foi crítico do modelo socialista implantado na Alemanha Oriental após a 2ª Guerra Mundial.
Sua trajetória acadêmica inclui a passagem por universidades alemãs como Marburg, Leipzig, Frankfurt e Heidelberg. Mas foi nesta última onde atuou por mais tempo: desde 1949 - ano em que substituiu Karl Jaspers - até sua aposentadoria em 1968. Porém, como professor emérito, continuou ministrando cursos quase todos os verões até o ano do seu falecimento (2002).
Sua obra mais importante, Verdade e método, foi publicada em1960, isto é, após uma longa e sólida carreira acadêmica. Este, porém, não foi o título que Gadamer planejou dar ao seu livro originalmente. Em vez dele, pensou num título que contivesse a expressão "hermenêutica", mas foi convencido por seu editor a optar por um título menos obscuro.
Verdade e método fez de Gadamer um filósofo reconhecido internacionalmente e, em consequência disto, outros filósofos importantes do século XX como Jurgen Habermas e Jacques Derrida tornaram-se seus interlocutores em discussões filosóficas valiosíssimas acerca da hermenêutica.
Embora o título do livro mais importante de Gadamer - Verdade e método - possa sugerir que a obra seja um compêndio ou um manual de procedimentos e técnicas para exercer a hermenêutica, não se trata disto. O próprio pensador esclarece no 2º prefácio que escreveu para o livro:


O fato de eu ter-me servido da expressão ‘hermenêutica’, pesando-lhe às costas uma velha tradição, conduziu certamente a mal-entendidos. Não foi minha intenção desenvolver uma ‘doutrina da arte’ do compreender, como pretendia ser a hermenêutica mais antiga. Não pretendia desenvolver um sistema de regras artificiais, que conseguissem descrever o procedimento metodológico das ciências do espírito, a fim de transformar o conhecimento usual em conhecimento prático. Se se dá uma consequência prática das investigações apresentadas aqui, isso não ocorre, em todo caso, para um ‘engajamento’ não científico, mas para a probidade ‘científica’ de reconhecer, em todo compreender, um engajamento real e efetivo. Minha intenção verdadeira, porém, foi e é uma intenção filosófica: O que está em questão não é o que nós fazemos, o que nós deveríamos fazer, mas o que, ultrapassando nosso querer e fazer, nos sobrevém, ou nos acontece. (1997, p. 14)


O trabalho de Gadamer que lhe deu notoriedade é, portanto, um conjunto de reflexões em torno do ato compreensivo, da natureza compreensiva do ser humano. Ele mesmo classifica seu filosofar como uma ontologia da experiência da compreensão, isto é, o pensar sobre o ser ou a essência da experiência compreensiva. Assim, entre outras teses contidas em Verdade e método, encontra-se uma, de origem heideggeriana, que afirma que o ato compreensivo originário não ocorre apenas na relação do conhecimento que implica simultaneamente sujeito e objeto. Esta relação seria derivada de uma abertura ou clareira ontológica do ser humano através da qual todo e qualquer sentido vem a se manifestar. Essa manifestação incalculável de sentidos no ser humano se dá por meio da linguagem. É a linguagem que permite o ser se mostrar.
As reflexões de Gadamer voltam-se, por conseguinte, para as condições de possibilidade da compreensão, como o horizonte histórico e as prenoções do hermeneuta.  Neste sentido, o viés ontológico do seu pensamento impede que os aspectos epistemológicos da sua filosofia limitem-se à análise estrita da ciência. Na experiência estética, por exemplo, também ocorre o ato compreensivo e não de modo tão diverso do que ocorre em outros campos da atividade humana. Ciente disso, Gadamer dedicou bastante tempo nos últimos anos da sua vida ao estudo obras de arte, em especial a poesia do romeno Paul Celan (1920-1970).

BIBLIOGRAFIA


DOSTAL, Robert. J. Gadamer: the man and his work. In: The Cambridge Companion to Gadamer. Disponível em:  http://www.4shared.com/get/VMcWsqhe/The_Cambridge_Companion_to_Gad.html

GADAMER, Hans-Geog. Verdade e método. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.







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Morto o dia
Vivo a noite
Levo açoite
Em agonia