terça-feira, 29 de março de 2011

Distante

Andei por todo canto
E nada de tudo que vi
Ou não vi marcou-me tanto
Quanto ficar distante de ti.

sábado, 26 de março de 2011

Fraldários

Conversando com minha companheira Sheila, há alguns dias, ela me interpelou com uma questão: "você já viu algum frandário em banheiro masculino de restaurante?" Diante da minha cara de abestalhamento ela me fez outra pergunta: "você sabe o que é um fraldário?"

Refletimos um bocadinho sobre esta questão verdadeiramente relevante. Pensamos que se eu tivesse um pimpolho e desejasse levá-lo comigo a um restaurante haveria uma série de transtornos caso ele resolvesse presentear-me com a sua arte. Não poderia trocar sua fralda sobre uma das mesas do restaurante, os outros clientes talvez perdessem o interesse na comida; tampouco poderia ir ao banheiro feminino, por razões óbvias.

A pergunta que Sheila me fez sobre se eu ao menos sabia o que era um fraldário repeti-a a alguns dos meus alunos, dos quais todas as meninas sabiam o que era fraldário e apenas poquíssimos meninos sabiam. Eis um retrato da nossa cultura que destina às mulheres a função de cuidar das crianças. Se eu for pai um dia, não sei se serei, planejarei tardes na companhia exclusiva do meu bebê nas quais flanaremos pela cidade. Mas já antevejo, graças à Sheila que me chamou a atenção para isto, uma penca de problemas.

sexta-feira, 25 de março de 2011

A gota

O copo d'água fica cheio
Gotinha por gotinha.
E quando ainda vai no meio
O transbordar já se avizinha.

Não é a última gota
Que faz o copo jorrar.
Cada gota quase lota
O copo que vai derramar.

terça-feira, 22 de março de 2011

Algumas diferenças entre religião, filosofia e ciência: uma perspectiva epistemológica

Tentarei da maneira mais breve possível traçar algumas diferenças entre o conhecimento religioso, o científico e o filosófico. Sei da dificuldade da tarefa, afinal o conceito de cada uma dessas três manifestações do pensamento humano é extremamente polêmico. Mesmo assim, ouso o desafio.

O conhecimento religioso baseia-se na fé, na convicção. Não consigo provar que Deus é três e ao mesmo tempo é um ou que ele fez o mundo em sete dias. Aliás, não consigo provar sequer que ele existe (pessoalmente, acredito em Sua existência). Parece-me que os argumentos em favor destas ideias apenas convencem quem já está convencido (aliás, essa forma de pensar não é minha, mas do Professor Jesus Vasquez, que se referia as cinco provas da existência de Deus apresentadas por São Tomás de Aquino).

Ou seja, o conhecimento religioso fundamenta-se na convicção subjetiva e tem algum grau de objetividade apenas numa comunidade de crentes. O acesso a esse conhecimento se dá através de uma experiência forte, porém subjetiva que é a conversão. Penso que a conversão nos captura, nos sequestra, isto é, não depende de um ato consciente, deliberado. Assistimos passivos e maravilhados à nossa própria conversão.

Já o conhecimento cienttífico fundamenta-se, na minha opinião, na necessidade constante dos cientistas convencerem a si mesmos e aos seus pares acerca das suas hipóteses por meio de demonstrações simultaneamente empíricas e lógicas. Uma hipótese ou mesmo uma tese científica permite-se ser devassada recorrentemente por novas cabeças que farão recortes da realidade para realizar experiências (modelos empíricos controlados), analisirão as informações obtidas e reformularão sínteses ad infinitum... Se algo não se presta a este tipo de escrutínio, de análise, não pode ser científico. Imagino que essa breve ideia do conhecimento científico não exclua nenhuma modalidade de ciência.

Finalmente, escrevo sobre como compreendo a filosofia. Vejo a filosofia como um conhecimento que, sem poder recorrer aos modelos empíricos controlados, questiona o que há de essencial em todos os campos da atividade humana: experiências estética, ética, política, lógica, religiosa, linguística etc. O conhecimento filosófico surgiria justamente no exercício de refletir e tentar formular respostas coerentes aos problemas nas áreas citadas como, por exemplo, "o que é o belo?", "como saber o que é o certo e o errado na hora de agir?", "como os indivíduos deveriam se comportar na política?", "o que é a corrupção?", "o que é a verdade?", "e a ciência, o que é?" etc.

domingo, 13 de março de 2011

Guerra

A guerra faz coisas baratas como água, eletricidade e comida tornarem-se caríssimas. Ao mesmo tempo, transforma o que é inestimável, como a vida humana, em nada.

sábado, 12 de março de 2011

Liberdade


O fato de não sermos absolutamente livres não implica o contrário, isto é, que não sejamos livres em nenhum grau. Tenho me deparado recentemente com pessoas que negam a existência de qualquer gradação de liberdade simplesmente porque algumas (ou muitas) restrições as impedem de fazer tudo que querem (me pergunto se fazer tudo que queremos não seria outra forma de servidão: servidão à vontade, ao desejo).

Nossa liberdade não é irrestrita, mas não é tampouco inexistente. Diante de qualquer situação vivida, restam-nos sempre duas opções ao menos. Se não tenho liberdade para fazer tudo, tenho liberdade para fazer algo.

Essa deixa de ser uma discussão abstrata quando nossas pequenas liberdades - que muitas vezes nem as reparamos mais - são ameaçadas. Uma afronta à liberdade de votar ou não dos jovens brasileiros de 16 e com menos de 18 anos provavelmente causaria uma forte reação. Imagino que muitos desses adolescente que nem fazem questão de votar, ficariam revoltados se a legislação lhes dissesse: É PROIBIDO VOTAR ANTES DOS 18 ANOS DE IDADE.

Esse caso é apenas para ilustrar a existência de pequenas liberdades em nossas vidas, as quais muitas vezes nem são percebidas.

PS: sei que a liberdade de votar ou não não é condição suficiente para a democracia, mas é condição necessária.

Alteridade




Outro dia eu disse a um querido amigo (professor e pesquisador na área de filosofia) o que estava dizendo naquela semana em quase todas as salas de aula pelas quais havia passado:

- Não existe bicho mais estranho do que o próprio homem.

A conversação prosseguiu, aliás, não estávamos sozinhos. Ia um tópico, chegava outro e eu nem me lembrava mais do que havia dito sobre a nossa estranheza. De repente, o meu amigo retomou o tema. Disse algo do tipo:

- Já estamos inclinados a buscar a alteridade nos animais, então não nos surpreendemos tanto com eles. Por outro lado, nosso olhar não está tão inclinado a perceber a alteridade nos outros seres humanos. Por isso nos surpreendemos tanto uns com os outros.

Sua análise, além de brilhante, é um sinal claríssimo das habilidades filosóficas do meu amigo. Depois de uma hora conversando sobre a China e a Conchinchina, ele foi capaz de retomar um tema já deixado de lado com uma análise valiosíssima. Eu me orgulho dos amigos que tenho.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Aula de Sociologia - Fatos Sociais



Objetivo:

Mostrar para os alunos que boa parte dos sentimentos e pensamentos mais caros que cultivamos na verdade não são apenas nossos enquanto indivíduos únicos, mas são coletivos, isto é, compartilhados por quase todas as outras pessoas.

Alunos:

Jovens de aproximadamente 15 anos cursando o 1º ano do ensino médio numa escola particular do Recife.

Atividade:

Escrevi no quadro algumas perguntas, que são as seguintes: I - Você pretende ter filhos? Se sim, quantos? II - Que nomes você provavelmente usaria para chamar seu(s) filho(s)? III - Vindo a ter uma filha e condição financeira confortável, que presente você dará a ela no aniversário de 15 anos? IV - Você pretende se casar numa cerimônia religiosa? V - Na sua opinião, qual o livro mais importante do mundo?

Cada aluno registrou suas resposta no próprio caderno. Não foi preciso destacar a folha para contabilizarmos as respostas e analisá-las conjuntamente. Fiz mais algumas perguntas para a turma após as perguntas iniciais.

Para verificar as respostas da primeira questão, eu perguntei para a turma: quem não quer ter filhos? Em 5 turmas, cada uma com 50 alunos aproximadamente, no máximo 5 alunos responderam afirmativamente. Registrei a resposta no quadro. Em nenhuma turma havia mais de 10 alunos interessados em ter três ou mais filhos.

Com relação à segunda questão, perguntei: Alguém daria para o seu filho (a) um nome de origem estrangeira? Mais uma vez apenas 5 alunos (numa turma) responderam que sim. Perguntava ainda se alguém colocaria no filho algum nome que considera incomum, raro. Dois ou três alunos responderam afirmativamente em cada turma.

A respeito da terceira questão, eu já iniciava a nova pergunta assim: alguém não respondeu "festa" (baile) ou "viagem"? Quase ninguém levantou o braço.

Sobre a quarta questão, aproximadamente 25 % dos alunos não queriam se casar em cerimônia religiosa (chamo a atenção que a maioria dos quais eram meninos).

Acerca da última questão, quase unanimidade: a Bíblia foi o livro mais citado, embora a maioria não o tivesse lido (fiz questão de lembrar aos alunos a diferença entre o livro mais importante e o livro que eles mais gostaram de ter lido; isso talvez tenha induzido algumas respostas).

Terminada esta etapa, fiz algumas reflexões com os alunos. Perguntei-lhes, por exemplo, se eles achavam que as respostas seriam parecidas se eu tivesse feito as mesmas perguntas para jovens que frequentaram aquela mesma sala há cinquenta anos. Claro que responderam "não", o que me deixou feliz. Questionei também o porquê de mais meninos do que meninas não fazerem tanta questão de ter uma cerimônia religiosa para se casarem. Respostas muito boas foram surgindo. Fiz mais algumas observações, como a de que o livro mais importante talvez não fosse considerado a Bíblia caso estivéssemos no Oriente. Encerrei a atividade defendendo - a partir da nossa experiência e de mais alguns exemplos - a ideia de que somos muito parecidos.

Era o que eu precisava para introduzir a apresentação do conceito de Fato Social de Durkheim. Apostei que essa dinâmica poderia deixar menos abstratas as características de coercitividade, exterioridade e generalidade deste importante conceito sociológico.

terça-feira, 8 de março de 2011

O poder do boicote

Uma estratégia de mobilização política de grande eficiência é o boicote. Até onde me consta, foi usado duas vezes na luta anticolonial e nas duas gerou bons frutos. Foi usado pelos colonos da América do Norte no século XVIII e pelos indianos no século XX (ambas as vezes contra o domínio inglês).

O boicote foi praticado ainda contra empresas, como a Nike, que foi acusada de usar de trabalho infantil em condições sub-humanas em sucursais no Oriente. As negras americanas também boicotaram as empresas de ônibus depois que Rosa Parks foi presa por ter se negado a ceder seu lugar a um homem branco num desses coletivos na década de 1950.

Lembremo-nos de que o boicote existe.Não o boicotemos. Boicotá-ló significa boicotarmo-nos enquanto sujeitos coletivos.

PS: seria a greve uma forma de boicote?

Link interessante: http://www.dw-world.de/dw/article/0,,340929,00.html

Educação infantil - limites

Evite dizer "não" à uma criança muito jovem se não tiver como puni-la (para tal não é preciso bater). Não sendo assim, é provável que a negativa seja tomada ao contrário.

Desobediência Civil

Além de "Gandhi", não conheço melhor filme para discutir o conceito de Desobediência Civil de Henry David Thoreau que "The Great Debaters" de Denzel Washington.

Recomendo.

The great debaters - Denzel Washington


Tão bom saber que a história é verídica!

Algo notável no filme é a inexistência de um protagonista. Ou melhor, o personagem principal me parece ser o negro.


It is so good to know the story was based in true facts.

Something remarkable in the movie is the lack of a single protagonist. Rather, the main character seems to be the black.

segunda-feira, 7 de março de 2011

O carnaval não é subversivo

Não sei se já foi um dia, mas não creio que o carnaval seja hoje uma manifestação verdadeiramente subversiva. Não percebo, nos dias de Momo, a redução dos males que adoentam nossa sociedade.

O carnaval não reduz as desigualdades econômicas, mas os reflete limpidamente. Tampouco atenua o machismo, a homofobia, o racismo, a corrupção, a violência no trânsito e nas ruas, o alcoolismo... Onde está a subversão? Nas roupas femininas vestidas pelos homens?

O carnaval é uma festa

Poucos fenômenos me parecem tão complexos como o do carnaval. É difícil refletir sobre o mesmo sem se deixar afetar por alguma paixão, mas mesmo assim tentarei evitar na medida do possível os juízos de valor categóricos.

Há um século, mais ou menos, o carnaval era uma manifestação autenticamente popular em todo lugar do Brasil. As aglomerações que tomavam conta das ruas eram blocos do povo feitos para o povo. Hoje, não há mais "o carnaval", mas carnavais. De todo modo, o carnaval em geral tem se tornado objeto de gestão pública e privada. As aglomerações que invadem as ruas em quase todos os lugares são, em linguagem sociológica, público e não mais multidão. O carnaval virou espetáculo e, como tal, é a menina dos olhos de grandes empresas.

Isso significa que cada vez mais o carnaval é feito para o povo, mas não mais pelo povo. As implicações deste fato talvez venham a ser, entre outras, a redução da sua dimensão política e do caráter criativo popular. Se eu não estiver equivocado, estamos diante de um quadro sério, pois o carnaval em breve não será nada mais do que uma festa, embora a maior festa do país. Mas, para a maioria, isto basta.


Jefferson Góes e Sheila Bezerra