sábado, 1 de outubro de 2011

Filosofia e Sociologia no Ensino Médio: resposta ao texto de Reinaldo de Azevedo

No dia 27 do mês passado o jornalista Reinaldo de Azevedo escreveu um texto intitulado “O Brasil precisa de menos sociólogos e filósofos e de mais engenheiros que se expressem com clareza“. Farei alguns comentários acerca do referido escrito. O endereço eletrônico para quem desejar ler na íntegra tal artigo encontra-se na nota de rodapé.[1]
 
O texto de Reinaldo de Azevedo parte do pressuposto de que os professores de filosofia e sociologia são necessariamente de esquerda. Isto é um equívoco. Mesmo que a formação universitária nas humanidades e nas ciências sociais no Brasil indiscutivelmente seja influenciada por teorias que se aproximam por vezes das teorias políticas de esquerda, nem todos os profissionais egressos das instituições de ensino superior nas áreas em questão comungam de ideais esquerdistas, entenda-se, socialistas. Tal visão é reducionista. A pluralidade política existente na sociedade em geral é refletida na orientação ideológica dos estudantes universitários da filosofia, da história, da sociologia etc.

Para pensar, como Reinaldo de Azevedo pensa, que os professores formados nas faculdades de filosofia e de ciências sociais são necessariamente de esquerda é preciso imaginar que o perfil do docente destes cursos é o mesmo daquele que havia na época da ditadura militar, quando o clima político praticamente obrigava um profissional a tomar posição numa bipolarização ideológica em que ser contrário a ditadura  era sinônimo de ser comunista.

Para sustentar a ideia anterior é necessário crer, ainda, que o estudante universitário é completamente vulnerável às orientações político-ideológicas dos seus professores. É preciso acreditar que o estudante universitário não faz leituras diferentes daquelas recomendadas pelo seu mestre, não freqüenta outros espaços e convive com outras pessoas, em suma, é preciso crer que um curso universitário determina o modo de pensar de uma pessoa.

É essa ideia ainda que faz Reinaldo de Azevedo afirmar que as aulas de filosofia e sociologia no ensino médio seriam meros exercícios de proselitismo das ideologias esquerdistas. O proselitismo (ou a doutrinação) para ser bem-sucedido requer pessoas predispostas a acreditarem no que vão ouvir, requer pessoas que suspendam sua capacidade de emitir juízos críticos no que concerne ao que se lhes entrega retoricamente enquanto verdade apodítica. Mas mesmo que todos os professores de filosofia e sociologia do Brasil fossem marxistas, será que os alunos estariam tão bem dispostos a aceitar devotamente o catecismo professado pelos seus mestres? Não haveria jamais um catecúmeno indignado a destilar heresias em cada sala de aula deste Brasil? É lícito, portanto, considerar os alunos como tábulas rasas, isto é, como criaturas, como seres moldados, plasmados, forjados pelo criador onisciente e onipotente, a saber, o professor de filosofia? Não, não subestimemos nossos alunos, que, não obstante o baixíssimo desempenho nos instrumentos avaliativos nacionais e internacionais, não são criaturas opacas.

Outra conclusão equivocada no texto de Reinaldo de Azevedo é acreditar – mesmo que isto não esteja explícito – que estudar filosofia e sociologia no ensino médio leva as pessoas a quererem estudar essas disciplinas no ensino superior. Em Pernambuco, por exemplo, todas as escolas de ensino médio oferecem os componentes curriculares de filosofia e sociologia já há alguns anos e mesmo assim o número de jovens interessados em prestar vestibular para essas duas áreas continua sendo relativamente pequeno se comparado com a quantidade de alunos que se submetem à avaliação para cursar uma das engenharias (para regozijo de Reinaldo de Azevedo!). Várias vezes ouvi de jovens interessados em filosofia a justificativa  para escolherem outra área e essa escusa utiliza-se em geral do mesmo raciocínio utilitário de Reinaldo de Azevedo: “queria mesmo filosofia, mas não quero morrer de fome”.  Em suma, estudar filosofia e sociologia não aumentará necessária e significativamente o número de sociólogos e filósofos no Brasil. Além disso, mesmo que aumentasse, isso não precisaria significar uma redução do número de engenheiros que, aliás, vem crescendo bastante, segundo dados do Censo da Educação Superior de 2009.

Em 2005, segundo o Censo da Educação Superior, havia 264.894 alunos matriculados nos cursos de engenharia pelo Brasil afora. Já em 2009, esse número se eleva para 420.578. Isso significa um aumento de 59 % em apenas 5 anos![2] Imagino que o novo Censo que está sendo realizado reafirmará essa tendência de crescimento. A propósito, esse crescimento deve se manter a despeito da presença da filosofia e da sociologia no currículo do ensino médio. E mesmo que o número de estudantes de filosofia e sociologia nas faculdades e universidades aumentasse, muito dificilmente isso representaria a inversão da tendência de se formarem mais engenheiros no Brasil.

Minha opinião é que precisamos realmente de muitos engenheiros (mesmo que o conjunto das engenharias já figure na 4ª posição no ranking dos cursos que mais têm alunos matriculados nas Instituições de Ensino Superior do Brasil).  Mas precisamos de mais gente formada em filosofia e sociologia também, principalmente porque é muito comum encontrarmos profissionais sem essas formações atuando como professores nessas áreas, o que é preocupante. Se é possível encontrar um excelente professor de filosofia que jamais colocou o pé num curso de licenciatura, esta não é a regra. Sei que tampouco cursar a faculdade de filosofia é condição suficiente para ser um profissional de qualidade nesta área, mas é mais provável que este e não aquele se aproxime de algum suposto nível de excelência.

Bem, ainda poderia me deter em outros pontos para criticar as observações de Reinaldo de Azevedo, mas devido à extensão do texto (estou começando a duvidar que alguém vai conseguir fazer a leitura integral) passarei a comentar rapidamente algumas afirmações feitas pelo jornalista num segundo texto[3], no qual, mesmo havendo assertivas que gostaria de refutar, vou salientar apenas aspectos que me parecem bem fundamentados.

Concordo com Reinaldo de Azevedo acerca do absurdo que é reduzir a carga horária semanal de português e matemática para que a filosofia e a sociologia façam parte do currículo. Se o desempenho é insatisfatório nessas duas áreas, é então preciso melhorar a qualidade das aulas e não reduzir a carga horária das mesmas. Assim, a entrada da filosofia e da sociologia na grade curricular necessariamente aumentaria o tempo do aluno na escola. Estou mais uma vez de acordo com Reinaldo de Azevedo em que também é preciso definir “o repertório dessas aulas” de filosofia e de sociologia. O jornalista tem razão. O currículo deve ser pensado de maneira responsável, mas não concordo que a filosofia seja reduzida, por exemplo, à história da filosofia.


Há outros elementos tão ou mais importantes do que a própria história da filosofia que devem estar presentes nas aulas de qualquer escola do ensino médio, como é o caso da lógica. Exercitando-se em lógica, por exemplo, o aluno pode perceber equívocos numa argumentação, como me parece ser a de Reinaldo de Azevedo ao afirmar que a filosofia e a sociologia seriam obstáculos para que a escola brasileira fosse mais objetiva. Tal crença vem do lugar comum que coloca essas duas disciplinas como as áreas em que cada um pode dizer o que quer, em que cada um pode fazer sua própria viagem sem qualquer compromisso com a rigorosidade, a lógica, a realidade.



[1] Disponível em [http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/o-brasil-precisa-de-menos-sociologos-e-filosofos-e-demais-engenheiros-que-se-expressem-com-clareza/]
[2] http://download.inep.gov.br/download/superior/censo/2009/resumo_tecnico2009.pdf
[3] http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/a-revolta-dos-sociologos-e-dos-filosofos-ou-escola-pra-que/

7 comentários:

Anônimo disse...

Jeff, a respeito do seu texto,levo ao seu conhecimento que existe hoje uma comissão de notáveis juristas propondo a inclusão,no Exame da Ordem doa Advogados do Brasil - OAB, das seguintes disciplinas: Filosofia, Sociologia Geral e Jurídica, Psicologia, Antropologia, Economia, e Ética Geral e Profissional. Faltou Engenharia, que leva muito em consideração números,gráficos,planilhas, estatísticas etc. A respeito de estatística já se pronunciara bem Disraeli, ao dizer que "Existem três tipos de mentiras: mentira, mentira deslavada e estatística".

Anônimo disse...

Jeff, o tal "anônimo" é seu pai. Foi outro erro de digitação. Sou da geração da máquina de datligrafia, na qual eu era um esperto (em sentido estrito). Um beijo.

Anônimo disse...

Errata: onde se lê "datligrafia", leia-se datilografia. Mesmo tentando ser ferfeccionista eu erro muito. Na medida do possível tento também me corrigir.

Érico Andrade disse...

Jefferson, meu caro: de fato o texto subestima os estudantes. Outro ponto, é que o que aparece tacitamente no texto é um controle autoritário sobre o modo como os professores devem pensar. Não vejo problema a priori se os professores de sociologia e filosofia são de esquerda. Eles são livres para pensarem mais à esquerda e é impossível exigir deles que sejam neutros. Ademais, ninguém precisa ser neutro, mas apenas honesto para permitir o debate das melhores ideias. Azevedo erra na premissa porque sua preocupação está muito afastada da educação por estar próxima de um patrulhamento ideológico extremo, paradoxalmente, típico da esquerda extremista.

Felipe Pimentel Lopes de Melo disse...

Genial, Jefferson!

Matheus Boni Bittencourt disse...

Não posso comentar o texto do R.A. porque não o li. Mas sabendo como é a triste figura, suponho que ele esteja bravo e soltando fogo pelas ventas contra o ensino de sociologia e filosofia, exatamente porque o aluno que possui conhecimentos filosóficos e sociológicos básicos não vai cair facilmente nas garras de doutrinadores autoritários como o R.A. Ao acusar a sociologia ou filosofia de "doutrinação esquerdista", R.A. demonstra apenas o quanto é ignorante em relação a estas disciplinas. Ignora, por exemplo, que a sociologia e suas ciencias-irmãs (antropologia e ciência política) são voltadas para a descrição, explicação e análise da realidade social como ela é, e não para dizer como ela deveria ser (isso sim uma questão política, que define quem é de esquerda ou de direita). É claro que existe uma relação entre a ciência sociológica e a prática política, mas é muito mais complexa e nuançada do que supõe R.A.

A inclusão da Filosofia e da Sociologia no ensino médio é enriquecedora, pois, além de adicionar mais conhecimento (e conhecimento nunca é demais), estas duas disciplinas tem conexões com as disciplinas já estabelecidas. Sociologia tem muito a dizer para a história, a geografia, o português, e certamente para futuros advogados, economistas, administradores, médicos, psicólogos, professores, cientistas,jornalistas,juízes, promotores, delegados de polícia, assistentes sociais, pedagogos, políticos, etc. E a filosofia pode ser relacionada a TODAS as disciplinas, matemática, português, física, química, biologia, história, geografia, sociologia.

Filosofia e Sociologia são, portanto, enriquecedoras e, se bem ministradas, contribuem em muito para a formação do aluno.

Não vejo a menor contradição entre aulas de filosofia e sociologia e formação de engenheiros. Nada impede que alunos que tiveram aulas de filosofia e sociologia no ensino médio escolham a engenharia. Se eu tive, além de matemática, física, química, informática e "iniciação tecnológica" no ensino médio e não escolhi engenharia, não vejo porque um aluno interessado em tecnologia e matemática deixaria de cursar engenharia.

Alberto Bezerra disse...


Tenho um posicionamento bastante pessoal em relação ao texto de Reinaldo Azevedo: não me parece que ele cometa erros de análise, mas que deturpe as coisas propositalmente. A questão de que nem todos os profs. de humanas são de esquerda é irrelevante para ele; a mensagem (não lembro se do primeiro ou segundo texto) não é implícita, mas explícita: o que interessa é a objetividade, ou seja, saber fazer o serviço, e não saber o porque de fazê-lo. Neste sentido, é claro que o desejo de Azevedo é que absolutamente não haja filosofia e sociologia na escola, embora no segundo texto ele insinue que não disse isso (não disse explicitamente, mas implicitamente sim).

Quanto à redução da carga horária de português e matemática, minha posição é polêmica: talvez seja uma boa sim. A má qualidade não me parece advir da escassez de tempo, mas de outros fatores, e aqui entramos num ponto CRUCIAL da educação: CURRICULO. Penso que nosso curriculo é criminoso, e que se deveria dar relativa autonomia ao aluno desde cedo. Afinal, para que diabos estudamos tantas coisas que não só não nos servirão (pragmaticamente falando), mas que tbm não nos interessam minimamente?