quarta-feira, 25 de maio de 2011

Quantidade de páginas de dissertações / teses

Tenho ouvido recentemente de amigos que estudam em pós-graduções que estas cada vez mais fixam um número mínimo de páginas (às vezes, palavras) que um trabalho acadêmico deve conter. Isto me assusta.

Como é que se determina um número de páginas para um trabalho sem conhecer ainda suas especificidades? Que critério é esse que obriga qualquer aluno da pós-graduação X, independentemente do objeto que pesquise, a escrever ao menos 200 páginas? De onde vem este número? É algo cabalístico? Que tipo de esoterismo é este?

Conheço alguns colegas que me confidenciaram que, para chegar até este patamar fixado previamente, tiveram de "encher linguiça", ou seja, escrever trivialidades, tergiversar... Um deles disse-me: "dei o meu recado em 120 páginas, mas fui obrigado a chegar até 200". Ressalto que o trabalho foi elogiadíssimo pelos papas da área que compuseram a banca de avaliação.

Acho irracional essa prática. Ora, se for possível dizer em 10 páginas e sem prejuízos o que foi dito em 20, por que não dizê-lo então? Mérito de quem possui esta habilidade, pois num mundo em que somos bombardeados por informações e que ainda exige que cuidemos da nossa formação continuamente é importante que não sejamos obrigados a ler dezenas de páginas escritas apenas para cumprir a regra, isto é, para "encher linguiça". Para piorar, este mau hábito ainda é antiecológico.

Um comentário:

Miradouro Cinematográfico disse...

Esse lance de uma quantidade pré-determinada de páginas não me é estranha, mas, embora colegas do mestrado tenha afirmado terem dificuldade de preencher a média de 100 págs. exigidas, penso que o caso de outros (nos quais me incluo) é oposto: só 100 páginas?

Concordo com sua crítica, mas não com a alcunha de irracionalidade ao processo; trata-se antes -isso sim - duma racionalidade específica, instrumental se quiserem (pago aqui meus tributos aos carecas frankfurtianos); o Sr., que estuou Nietzsche já parou p/ pensar numa questão análoga a esta: o padrão de escrita exigido? Não se pode filosofar ACADEMICAMENTE por aforismos (embora o próprio analítico Wittgenstein 1 o tenha feito!), nem por poesia, nem escondendo o jogo (vide Heidegger); trata-se duma imposição não só quantitativa, como formal, estrutural e conteudista, visto que na filosofia não podemos ser filósofos, apenas comentadores.

Eis a questão: é possível filosofar na Academia?