domingo, 15 de maio de 2011

Esquizofrenia: um relato e uma proposta

Ontem à noite, na Livraria Cultura e no Paço Alfândega, vi um jovem com idade próxima aos trinta anos vociferar reiteradamente contra os psiquiatras, acusando-os, dentre outras coisas, de serem abusadores de seus pacientes. Não sou psi (cólogo, quiatra, canalista...), mas identifiquei (e quem não o fez?) um quê de desequilíbrio naquele discurso. Mesmo não sendo psi, supus tratar-se de um esquizofrênico em surto, embora não estivesse totalmente seguro disto.

Percebi sua indignação contra toda sorte de psiquiatra, mas fui cuidar da minha vida observando as sempre sedutoras estantes da Livraria Cultura. Vez ou outra sua voz atingia-me novamente, aliás suas voz ia e vinha como o seu próprio corpo excitado que não quedava num canto um instante. Sendo franco, antes de lançar-lhe o rótulo de "esquizofrênico", e enquanto ainda não era capaz de distinguir o que dizia, pensei que o jovem fosse um cliente indignado, pois as primeiras palavras que entendi foram: "isso precisava ser dito". Mas ele se afastou de mim, após ter formulado esta frase. Então considerei a possibilidade de ele estar fazendo algum protesto de cunho político ou ainda uma performance artística...

Mas a insistência do estribilho contra psiquiatras e congêneres não podia ser a de um mero militante. Trinta, quarenta minutos (não sei ao certo) reproduzindo um discurso indignado, que por bem me esforcei para evitá-lo. Porém, o que não pude foi fingir que não ouvia a acusação tantas vezes repetidas (fruto de um delírio ou um abuso?).

Na livraria, as pessoas estavam como que suspensas numa nuvem densa de espanto e galhofa, medo e pilhéria, preocupação e afetação... Vez ou outra mirava-as, e via tudo isto. Via também que várias se comportavam como os seguranças da loja, isto é, acompanhando de longe, mas dissimulando a visão. 

O desfecho (ou o clímax, segundo alguns) foi quando o jovem derrubou uma estante daquelas de livros de bolso. Não vi, mas ouvi. E tendo ouvido, assustei-me muito com o estrondo. A primeira ideia que me veio à mente (e desejei que ela não correspondesse ao real) foi a de que ele estivesse machucado porque chocou-se contra aquelas portas de vidro (eu sei que se abrem quando delas nos aproximamos). Fiquei nervoso ao imaginá-lo ensanguentado.

Quando me aproximei da entrada da loja (era pra lá que as pessoas se dirigiam), não vi o rapaz novamente. Disseram-me que os seguranças o dominaram e o retiraram do local depois que ele lançou ao chão a estante de livros. Disseram-me também que ele já era conhecido por ali e que, embora sempre se comportasse de maneira estranha, jamais havia feito o que fez. Mas ele estava prestes a explodir. Dois ou três minutos antes de surpreender-me com o forte barulho, eu escutei (quando numa de suas tantas idas e vindas se reaproximou de mim) qualquer coisa como: "ninguém precisa se preocupar; eu não vou fazer nada...".

Um detalhe que talvez seja importante é o de que enquanto o jovem demonstrava um discurso raivoso contra psiquiatras no térreo da livraria, no primeiro andar ocorria uma noite de autógrafos com o famosíssimo psicanalista Contardo Calligaris. Sei que psicanalista é algo diferente de psiquiatra, mas não sei se o rapaz sabia disto... Tampouco sei se este mesmo rapaz sabia da presença de Contardo Calligaris e se Contardo Calligaris notou a presença do rapaz.

Mas, até onde me lembro, não vi o rapaz subir uma vez sequer ao primeiro andar.  


Depois de tudo isso e de ter trocado meia dúzia de palavras com Sheila (minha companheira) e duas amigas que encontrei (encontramos), paguei o que escolhi comprar e fui (fomos) embora.

Mesmo longe, continuei com a cabeça ligada ao episódio. Sheila lembrava-me das dificuldades que devem enfrentar os pais daquele jovem. Eu lembrava-me do poeta Ferreira Gullar, que teve dois filhos com esquizofrenia. Imaginei-me sendo pai de alguém com esta doença e pensei em como esta situação seria realmente uma "barra". Pensei que ficaria muito angustiado cada vez que meu filho saísse de casa:  "e se ele tiver um surto?";  "e se ele cometer algum ato de violência contra os outros?"; "e se ele se machucar ou machucarem-no?"; "e se ele não souber ou não puder voltar para casa?".

Fiquei pensando num mecanismo de monitoramento físico das pessoas com doenças mentais sérias. Sei que faz parte do delírio de muitos desses pacientes a ideia de que lhes colocaram um chip. Mas e se isso fosse real? Por que não colocaríamos um dispositivo eletrônico para localizarmos nossos parentes quando, em surto, não voltassem para casa? (por que me incluo na ação? será que é porque falo em nome da razão, da antípoda da loucura?) Ou será que essa ideia não passa de um delírio fascista da minha parte?

Apresento essa proposta e sei o quanto ela é controversa. Mesmo assim, acho que num diálogo respeitoso teremos o que aprender discutindo a respeito dela.

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