sexta-feira, 13 de maio de 2011

Alguns dados biográficos de Gadamer

Hans-Georg Gadamer (1900-2002)


Pensador de origem alemã, Hans-Georg Gadamer é conhecido, sobretudo, devido às suas pesquisas na área da filosofia hermenêutica. Doutorou-se em filosofia aos 22 anos com a tese intitulada “A essência do prazer e do diálogo em Platão”. Porém, aproximou-se dos estudos hermenêuticos apenas após seu doutoramento: acometido pela poliomielite, isolou-se por um ano e, durante este período, entrou em contato com a fenomenologia de Edmund Husserl e o pensamento de Martin Heidegger, de quem foi aluno na Universidade de Freiburg. Sob a orientação de Heidegger obteve a segunda tese de doutorado em 1928 (trabalho que lhe permitiu ingressar na carreira acadêmica).
A influência do pensamento de Heidegger é facilmente identificada nas ideias de Gadamer. Aliás, o próprio Gadamer nunca a omitiu. Todavia, no campo político, havia dissonância entre ambos. Diferentemente do seu mestre que travou relações com o Nazismo, Gadamer manteve-se sempre afastado desta ideologia, bem como também foi crítico do modelo socialista implantado na Alemanha Oriental após a 2ª Guerra Mundial.
Sua trajetória acadêmica inclui a passagem por universidades alemãs como Marburg, Leipzig, Frankfurt e Heidelberg. Mas foi nesta última onde atuou por mais tempo: desde 1949 - ano em que substituiu Karl Jaspers - até sua aposentadoria em 1968. Porém, como professor emérito, continuou ministrando cursos quase todos os verões até o ano do seu falecimento (2002).
Sua obra mais importante, Verdade e método, foi publicada em1960, isto é, após uma longa e sólida carreira acadêmica. Este, porém, não foi o título que Gadamer planejou dar ao seu livro originalmente. Em vez dele, pensou num título que contivesse a expressão "hermenêutica", mas foi convencido por seu editor a optar por um título menos obscuro.
Verdade e método fez de Gadamer um filósofo reconhecido internacionalmente e, em consequência disto, outros filósofos importantes do século XX como Jurgen Habermas e Jacques Derrida tornaram-se seus interlocutores em discussões filosóficas valiosíssimas acerca da hermenêutica.
Embora o título do livro mais importante de Gadamer - Verdade e método - possa sugerir que a obra seja um compêndio ou um manual de procedimentos e técnicas para exercer a hermenêutica, não se trata disto. O próprio pensador esclarece no 2º prefácio que escreveu para o livro:


O fato de eu ter-me servido da expressão ‘hermenêutica’, pesando-lhe às costas uma velha tradição, conduziu certamente a mal-entendidos. Não foi minha intenção desenvolver uma ‘doutrina da arte’ do compreender, como pretendia ser a hermenêutica mais antiga. Não pretendia desenvolver um sistema de regras artificiais, que conseguissem descrever o procedimento metodológico das ciências do espírito, a fim de transformar o conhecimento usual em conhecimento prático. Se se dá uma consequência prática das investigações apresentadas aqui, isso não ocorre, em todo caso, para um ‘engajamento’ não científico, mas para a probidade ‘científica’ de reconhecer, em todo compreender, um engajamento real e efetivo. Minha intenção verdadeira, porém, foi e é uma intenção filosófica: O que está em questão não é o que nós fazemos, o que nós deveríamos fazer, mas o que, ultrapassando nosso querer e fazer, nos sobrevém, ou nos acontece. (1997, p. 14)


O trabalho de Gadamer que lhe deu notoriedade é, portanto, um conjunto de reflexões em torno do ato compreensivo, da natureza compreensiva do ser humano. Ele mesmo classifica seu filosofar como uma ontologia da experiência da compreensão, isto é, o pensar sobre o ser ou a essência da experiência compreensiva. Assim, entre outras teses contidas em Verdade e método, encontra-se uma, de origem heideggeriana, que afirma que o ato compreensivo originário não ocorre apenas na relação do conhecimento que implica simultaneamente sujeito e objeto. Esta relação seria derivada de uma abertura ou clareira ontológica do ser humano através da qual todo e qualquer sentido vem a se manifestar. Essa manifestação incalculável de sentidos no ser humano se dá por meio da linguagem. É a linguagem que permite o ser se mostrar.
As reflexões de Gadamer voltam-se, por conseguinte, para as condições de possibilidade da compreensão, como o horizonte histórico e as prenoções do hermeneuta.  Neste sentido, o viés ontológico do seu pensamento impede que os aspectos epistemológicos da sua filosofia limitem-se à análise estrita da ciência. Na experiência estética, por exemplo, também ocorre o ato compreensivo e não de modo tão diverso do que ocorre em outros campos da atividade humana. Ciente disso, Gadamer dedicou bastante tempo nos últimos anos da sua vida ao estudo obras de arte, em especial a poesia do romeno Paul Celan (1920-1970).

BIBLIOGRAFIA


DOSTAL, Robert. J. Gadamer: the man and his work. In: The Cambridge Companion to Gadamer. Disponível em:  http://www.4shared.com/get/VMcWsqhe/The_Cambridge_Companion_to_Gad.html

GADAMER, Hans-Geog. Verdade e método. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.







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