terça-feira, 22 de março de 2011

Algumas diferenças entre religião, filosofia e ciência: uma perspectiva epistemológica

Tentarei da maneira mais breve possível traçar algumas diferenças entre o conhecimento religioso, o científico e o filosófico. Sei da dificuldade da tarefa, afinal o conceito de cada uma dessas três manifestações do pensamento humano é extremamente polêmico. Mesmo assim, ouso o desafio.

O conhecimento religioso baseia-se na fé, na convicção. Não consigo provar que Deus é três e ao mesmo tempo é um ou que ele fez o mundo em sete dias. Aliás, não consigo provar sequer que ele existe (pessoalmente, acredito em Sua existência). Parece-me que os argumentos em favor destas ideias apenas convencem quem já está convencido (aliás, essa forma de pensar não é minha, mas do Professor Jesus Vasquez, que se referia as cinco provas da existência de Deus apresentadas por São Tomás de Aquino).

Ou seja, o conhecimento religioso fundamenta-se na convicção subjetiva e tem algum grau de objetividade apenas numa comunidade de crentes. O acesso a esse conhecimento se dá através de uma experiência forte, porém subjetiva que é a conversão. Penso que a conversão nos captura, nos sequestra, isto é, não depende de um ato consciente, deliberado. Assistimos passivos e maravilhados à nossa própria conversão.

Já o conhecimento cienttífico fundamenta-se, na minha opinião, na necessidade constante dos cientistas convencerem a si mesmos e aos seus pares acerca das suas hipóteses por meio de demonstrações simultaneamente empíricas e lógicas. Uma hipótese ou mesmo uma tese científica permite-se ser devassada recorrentemente por novas cabeças que farão recortes da realidade para realizar experiências (modelos empíricos controlados), analisirão as informações obtidas e reformularão sínteses ad infinitum... Se algo não se presta a este tipo de escrutínio, de análise, não pode ser científico. Imagino que essa breve ideia do conhecimento científico não exclua nenhuma modalidade de ciência.

Finalmente, escrevo sobre como compreendo a filosofia. Vejo a filosofia como um conhecimento que, sem poder recorrer aos modelos empíricos controlados, questiona o que há de essencial em todos os campos da atividade humana: experiências estética, ética, política, lógica, religiosa, linguística etc. O conhecimento filosófico surgiria justamente no exercício de refletir e tentar formular respostas coerentes aos problemas nas áreas citadas como, por exemplo, "o que é o belo?", "como saber o que é o certo e o errado na hora de agir?", "como os indivíduos deveriam se comportar na política?", "o que é a corrupção?", "o que é a verdade?", "e a ciência, o que é?" etc.

Um comentário:

Devir antes dos nomes disse...

É possível ainda esperar por uma resposta, mesmo que sabemos uma ilusão a mais, e continuar da mesma forma que vivíamos? Talvez somente a ciência ignoraria a minha pergunta, enquanto a religião armaria de sempre sua arapuca, e a filosofia (arte?) prepararia a mesa, porque nada melhor do que filosofar de barriga cheia. Penso que o senso comum, assistindo de camarote ao deleite destas conquistas reservadas ás grandes ilusões da vida, não ousaria, por conta própria, abandonar o espetáculo; pode-se ser cômico, jamais trágico, para participar desta divina comédia, onde morrer e uma atração a mais.