quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A fotografia nas redes sociais


As redes sociais e as tecnologias digitais têm provocado um crescimento tremendo na divulgação de fotografias nos últimos anos. Isto pode nos indicar uma série de coisas, como a progressão no processo de democratização deste tipo de tecnologia, por exemplo. Mas também podemos pensar questões de outra natureza.

Há mais ou menos vinte anos – talvez nem tanto –, as fotografias pessoais eram mostradas aos amigos apenas no aconchego das nossas salas de visita. A ocasião em que os velhos álbuns eram exibidos era composta por um misto de intimidade e solenidade. Conversava-se às vezes durante horas até que, no ponto culminante da reunião, as imagens do passado fossem evocadas. Havia uma quase sacralidade no ato. Era um rito.

Atualmente, ninguém convida mais um amigo para ir à sua casa ver o álbum do aniversário de 15 anos da sua filha. É mais simples colocar tudo numa das várias redes sociais. E coloca-se de tudo mesmo: até foto de velório. E nisto há uma novidade significativa. Parece que temos nos comportado cada vez mais segundo a máxima “ser é aparecer”. Se alguém esteve num lugar paradisíaco e não postou fotos no Orkut, Facebook ou similares é como se não houvesse saído de casa. Nada se passou.

Demonizar um objeto é a forma mais objetiva de não pensá-lo. Não se trata de demonizar a fotografia nos meios virtuais. Graças a esse recurso nos sentimos mais próximos de amigos e parentes afastados. Os álbuns virtuais nos permitem domar nossa saudade, possibilitam que nos aventuremos por vezes na criação artística etc. Mas também há aspectos preocupantes nessa prática que vem se tornando cada vez mais um hábito e, para alguns, um vício. E o vício é o oposto da liberdade, mesmo que não saibamos exatamente defini-la.

Há momentos em que todo esse processo se nos afigura como uma competição. Corremos para mostrar mais fotos legais em lugares legais com pessoais legais . Em outros momentos, o estado das coisas adquire a feição de uma gigantesca rede de espionagem, na qual cada um de nós espiona e é espionado simultaneamente. Porém, o que quer que de fato esteja acontecendo, certamente está provocando efeitos na persona que cultivamos para nos apresentar no mundo público.

Todos nós gerenciamos uma imagem a qual julgamos conveniente que chegue até os outros. Desejamos que os outros nos vejam e se relacionem conosco a partir de alguns referenciais. Neste sentido, fica-nos a impressão de que as redes sociais têm ajudado algumas pessoas a gerir as imagens que pretendem transmitir. Noutros casos, mais do que isso, as redes sociais têm sido utilizadas para fabricar personagens, forjar novas subjetividades. Fazemos pose antes do clique. E fazemos muitas poses porque os cliques não param.

Esses personagens que fazemos de nós mesmos, tais subjetividades que nos esforçamos para construir-nos, podem indicar – o que é espantoso – um aspecto volátil, se o metro que usemos for o da política. Uma subjetividade política ainda mais etérea do que a habitual. O problema não está no ato de postar fotografias nas redes sociais, evidentemente. O problema está em acatar o imperativo de que devemos fazer pose e postar mais e mais fotos, dia após dia, e, por fim, nos esqueçamos de que uma pose é só uma pose.

3 comentários:

Rebeca disse...

Jeff, concordo com alguns pontos. Mas talvez me afaste de outros. De fato as redes sociais provocam mudanças nas relações entre sujeitos. Desde sempre o avanço tecnológico proporcionou este fato. Com o aparecimento de automóveis, escadas rolantes, elevadores (há tempos atrás) fomos induzidos a concebermos o corpo de uma outra forma. O corpo teve que se adequar às novidades. Surge, então, uma nova noção sobre o nosso próprio corpo. Nisto estamos de acordo. O que penso sobre a exposição famigerada da imagem é que as redes sociais facilitaram para que isso acontecesse. Você fala que não existe mais o ritual de sentarmos numa sala entre amigos para folhearmos álbuns de fotografia. UFA! Pra mim era uma tortura. Nunca gostei de ver álbuns dos outros. O contrário também não era bom. Quando levava algumas fotos para escola de interesse dos meus colegas, pessoas desconhecidas "urubuzavam" minha provacidade querendo ver imagens, imagens, imagens. Até que um dia aprendi e nunca mais levei. Hoje tenho a escolha de optar por ver ou não. As redes sociais estão aí. São democráticas? Sim! Mas você se expõe até onde desejar. O que de fato é condenável é o uso de imagens de terceiros para ridicularização (como alguns sites fazem), bullying, opressão, etc, etc, etc. Afinal, estes atos de violência são uma resposta contra a democratização possível nas redes sociais (?). É preciso refletir sobre uma legislação que contemple a internet. Bem, é isso.

Mateus Moury Fernandes da Rosa Borges disse...

E fato que as redes sociais mudaram o jeito de como as fotos sao mostradas... tambem concordo que esse seja um ponto negativo, ja que o "valor simbolico" que a fotografia tinha foi perdido. Em relacao ao outro comentario, creio que nao e questao somente de se adequar as novidades, ja que, se for sempre assim com a tecnologia, varias coisas vao perder o valor que tinham antes dela, como e o caso da fotografia. Portanto, concordo de um todo com o texto de Jeff...
Abracos, e desculpe pelos erros de portugues, meu teclado ta meio desconfigurado =/

Miradouro Cinematográfico disse...

Penso tratar-se duma questão estrutural, que em muito precede não só a questão das redes sociais, mas da internet como um todo; certa feita alguém falou dos "quinze minutos de fama" (concernentes então sobretudo, quiçá exlusivamente à televisão).

Tal imperativo pela fama, ou pelo menos pelo destaque se ramifica em programas específicos, como o Big Bosta Brasil.

Tbm vivemos numa época de hipostasiação do quantitativo, não só de zeros à direita de nossa conta bancária, mas popularidade (medidos pelo número de amigos no orkut, de seguidores no twitter, etc.), revereberando isso inclusive p/ a academica, onde há imperativo da quantidade em detrimento da qualidade na produção.

O problema da postagem das fotos está não só em algumas pessoas disponibilizarem fotos intimas publicamente (não só para amigos), mas na banalização das coisas. Qualquer tipo de banalização gera, ao menos algum tipo de empobrecimento, e é isto que vivenciamos num nível estrutural.

Penso que, no final das contas, seja tudo uma questão de bom sendo, algo cada vez mais raro numa sociedade de ode aos estúpidos.