sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

OS DESAFIOS DO ENSINO DE FILOSOFIA NO ENSINO MÉDIO

A filosofia é, por excelência, uma disciplina cujo desenvolvimento depende da situação pedagógica. Devido ao seu caráter eminentemente dialético, a filosofia progride na mesma medida em que o debate honesto se instaura. Diríamos que o laboratório da filosofia outro não é senão aquele em que duas ou mais pessoas se associam com o desejo sincero de analisar um problema a partir das suas bases, das suas causas e dos seus sentidos.

Tais reflexões não podem prescindir, é verdade, da contribuição daqueles que à filosofia têm se dedicado ao longo de sua extensa história. Com efeito, há problemas filosóficos, como o de saber o que é a Justiça ou o Conhecimento, por exemplo, que vêm sendo pensados e discutidos desde os albores desta disciplina e, não obstante as geniais respostas que já foram dadas, outras respostas podem ainda enriquecer a reflexão. No entanto, alguns dos problemas com que temos de lidar nos dias atuais sequer foram imaginados por pensadores da estirpe de Platão, Aristóteles ou Descartes. Neste caso, urge que assumamos a tarefa preconizada por Kant, qual seja, a de ousar saber.

Com a recente inclusão da filosofia no currículo do ensino médio das escolas brasileiras, esta ousadia a que nos incita Kant deve ser assumida e compartilhada tanto pelos professores quanto pelos alunos. Da reflexão filosófica esperamos que nos diga algo de relevante acerca dos problemas que perpassam o nosso cotidiano como, dentre outros, o da tecnologia e o do preconceito, pois ela tem como uma das suas especificidades o poder de ampliar a nossa capacidade de formular conceitos com e a partir dos quais questões de alta importância, como as citadas, podem ser avaliadas de maneira mais profunda do que a do senso comum.

Isso posto, quer nos parecer que um dos desafios prementes do professor de filosofia é o de apresentar esta área do saber como algo que pode fazer parte de modo bastante concreto da vida corriqueira de seus alunos. Não há uma única opinião que emitamos que não possa ser posta em análise pelo pensamento filosófico. Ou seja, cabe ao professor desta disciplina desconstruir a idéia – muito em voga entre os seus alunos – de que a filosofia é apenas algo etéreo, abstrato e apartado do mundo real. Afinal, não há nada que se compare em concretude às idéias: sobre elas construímos todo o nosso agir, toda a nossa vida.

Cremos, com Kant, que não é possível aprender a filosofia, mas aprender a filosofar. Por esta razão, portanto, o maior desafio do professor de filosofia é o de provocar, estimular, acender em seus alunos o aparecimento da atitude filosófica, a atitude que não permite ao ser humano conformar-se com idéias frouxas, sem fundamentos; a atitude que nos impede que nos tornemos letárgicos e não tenhamos o que dizer diante das injustiças.

Em suma, a filosofia cumpre o seu papel no ensino médio se, ao fim desta etapa em sua formação, os alunos são capazes de, cada vez mais, se distanciar da superfície e se aproximar das raízes de sua própria realidade (o que implica um diálogo com outros saberes constituídos) e, com argumentos e idéias coerentes, contribuir e atuar eticamente sobre a mesma. De fato, esses desafios não são modestos. Mas tampouco é modesto o nosso desejo de uma humanidade mais crítica e menos autodestrutiva, e para isto a filosofia muito pode contribuir.

Jefferson Góes
Recife, dezembro de 2008

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Os profissionais da saúde (ou da doença, ou, ainda, doentes)

Os profissionais da saúde deveriam ter, entre outras virtudes necessárias, a capacidade de oferecer algum conforto emocional aos pacientes. Se levarmos em consideração a situação corrente na maioria dos hospitais brasileiros, esta virtude será identificada com raridade entre médicos, enfermeiros e auxiliares de enfermagem.

Passei por algumas experiências desagradáveis nos últimos seis meses em hospitais particulares do Recife. Ora como paciente, ora como acompanhante de algum parente, senti-me agredido em minha dignidade pela absoluta indiferença pela qual fui (ou não fui) tratado.

Como todo mundo, procuro um hospital quando estou doente. Mas, lá chegando, pioro porque me frustro ao não receber os cuidados que deveria. Mas que cuidados são esses pelos quais tanto anseio (creio que não somente eu gostaria de tê-los)?

Além dos indispensáveis procedimentos técnicos de diagnose e de tratamento ágil do mal que me incomoda, não espero de um médico algo tão precioso como o cuidado paternal, mas gostaria que me ouvisse no que tenho a dizer-lhe; não desejo que uma enfermeira demonstre por mim ou por alguém a benevolência de uma avó para com os seus netos, mas o respeito que cabe a um ser humano pelo simples fato de humano ser. Não quero que Madre Teresa de Calcutá, com um hábito branco, me atenda numa emergência de hospital, mas não quero me sentir desamparado como uma batata no chão de uma feira livre.

Talvez a minha visão seja um bocado ingênua, mas não posso deixar de me surpreender em cada ocasião na qual preciso ir a um hospital e sou tratado mal (ou maltratado ou nem mesmo notado). Deve ser um mal incurável que me acomete o de achar que mereço ser tratado como trato os outros, com respeito.

Será que sou tolo ao desejar que hospitais acolham com um mínimo de hospitalidade àqueles que por ele precisem passar? Não é estranho que o lugar onde em tese as pessoas que nele trabalham deveriam ser as mais atenciosas e gentis, acabam sendo, pelo contrário, justamente as mais indiferentes e/ou grosseiras?

Pelo que vejo e escuto o problema do qual me queixo é tão comum nas emergências privadas (e principalmente nas públicas) do Recife quanto nas de qualquer cidade brasileira. O clichê mais usado pelos usuários dos serviços de saúde é o de que ela, a saúde, está na UTI. E não é só por falta de verba. Como diríamos todos em uníssono, "o buraco é mais embaixo".

Adoraria conhecer esse buraco, ou melhor, as causas sociais da antipatia crônica que debilita grandes contigentes de profissionais de saúde no Brasil. Tenho cá minhas hipóteses, como a de que cada vez menos as pessoas que procuram uma carreira na área da saúde (no caso dos médicos) o fazem devido a motivos humanitários e cada vez mais por questões de logística de sobrevivência, ou seja, ganhar dinheiro e obter prestígio social sem precisar deixar de ser medíocre. Convenhamos: para ser um médico comum não é preciso exercitar nenhuma competência além da de ter a insistência de um jumento e a memória de um elefante no trato com os textos de caráter técnico que são recomendados na universidade.

É certo que a minha hipótese não chega perto de um diagnóstico preciso acerca do que tem transformado os hospitais em antecâmaras do inferno. Quero apenas pôr fim à vertigem vomitando essas ideias confusas para análise de quem se compadece na própria carne e na mente do que sinto.