domingo, 30 de maio de 2010

A conversão de Santo Agostinho e Joaquim Nabuco














Em sua autobiografia, Minha formação, Joaquim Nabuco faz alusão a um episódio da sua meninice que lhe causou profunda impressão, fazendo-o durante sua vida adulta dedicar-se intensamente à verdade que inopinadamente brotou em sua consciência moral: a violência da escravidão. Eis a passagem: “Eu estava uma tarde sentado no patamar da escada exterior da casa [localizada no Engenho Massangana, no Cabo de Santo Agostinho], quando vejo precipitar-se para mim um jovem negro desconhecido, de cerca de dezoito anos, o qual se abraça aos meus pés suplicando-me, pelo amor de Deus, que o fizesse comprar por minha madrinha, para me servir. Ele vinha das vizinhanças, procurando mudar de senhor, porque o dele, dizia-me, o castigava, e ele tinha fugido com risco de vida... Foi esse traço inesperado que me descobriu a natureza da instituição, com a qual eu vivera até então familiarmente, sem suspeitar a dor que ela ocultava.” *

A experiência forte e repentina descrita por Nabuco fez-me associá-la a um episódio vivido por outro vulto da história, Santo Agostinho. Nas Confissões, o filósofo relata a sua angustiosa busca da Verdade por sinuosas sendas. Num dia em que meditava sozinho e desalentado ouviu uma voz infantil pronunciar, repetidas vezes, a frase: “Toma e lê; toma e lê”. Julgando tratar-se da Bíblia, obedeceu. A mensagem lida na página aleatoriamente aberta da Palavra demoveu todos os bolsões de incredulidade do seu espírito. Assim, num átimo, o pagão foi convertido num cristão.

Vejo paralelos muito nítidos entre a conversão de Agostinho ao cristianismo e a experiência dramática de Nabuco na sua infância. Meu concidadão ilustre, todavia, converteu-se a uma causa sumamente humana. Segundo suas próprias palavras, e o bom senso, não seria prudente inferir que a criança assustada diante dos clamores de um escravo fugido tenha compreendido imediatamente toda a dimensão daquilo que lhe estava ocorrendo. Mas a trajetória política de Nabuco é a maior fiadora das suas palavras. Qualquer coisa da ordem do inefável seqüestrou-lhe o espírito. A partir daquele dia, a instituição da escravidão jamais teve o mesmo significado para o pequeno Quincas. Uma conversão subjetiva, a passagem de um horizonte mental para outro, de maior envergadura. Uma transformação imprevista, não calculada. Enquanto uma ordem infantil capturou Agostinho ao cristianismo, súplicas desesperadas de um jovem escravo cativaram Nabuco ao “abolicionismo”.

*NABUCO, Joaquim. Minha Formação. São Paulo: Editora Martin Claret, 2005, p. 137.

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