domingo, 9 de maio de 2010

Conselho

Eu bem que o avisei. Mas ele insistiu em ser como queria. Não fazia nem desfazia o que lhe diziam fazer. Era rígido e bruto, não declinava nem um pouquinho. Sabendo como eu sabia que ele era como era, perdi meu tempo lhe aconselhando. O caso se seguiu assim.

Numa quarta-feira cinzenta e abafada, no meio do expediente, Zico nos contou que largara a vida de burocrata e que daquele momento em diante apenas faria o que lhe rendesse uma boa dose de diversão. O tom de sua fala não era o de quem havia decidido de véspera, tampouco deixava entrever qualquer radicalismo, mas o de quem se entregava resignadamente a uma sina inexorável. Sua voz era de uma tranqüilidade angustiante para quem o ouvia falar acerca de algo tão sério. Todavia, em nossa ignorância somente conseguíamos ponderar a situação como “loucura”.

Abrir mão de serviços burocráticos significava desprezar uma carreira sólida que lhe rendia status e vinte salários mínimos mensais. Loucura, por conseguinte.

Naquela quarta-feira, então, Zico nos comunicou do que não mais faria. Quando indagado a respeito do que faria daquele instante em diante, ele respondeu-nos que viveria bem enquanto sua algibeira (ele usou esta mesmíssima palavra) não se esvaziasse.

“E depois?” Alguém se lembrou de perguntar. E Zico replicou com uma serenidade ultrajante:

“Bem, o depois é só um fantasma que não nos deve assombrar agora.”

Desfazia-se de seu paletó enquanto terminava a frase que traduzia suas mais novas convicções. Intrigava-me saber quais pensamentos fluíam pela sua mente enquanto descerrava a gravata e desabotoava sua camisa social. Em vão conjeturávamos todos.

Nervosamente ainda tentei lhe aconselhar a não se demitir. “Apesar de toda a rotina tensa e entediante”, disse, “o trabalho nos remunera bem e nos aborrece num grau que desperta nosso brio, o que é uma lisonja que inconscientemente nos prestamos para camuflar nossa competente preguiça”. Lacônico como nunca havia sido, mas com olhos compadecidos, respondeu-me:


“Cansei”.

Transcorreram-se todas as etapas legais em poucos dias até a sua exoneração. Há quinze anos que não vejo o Zico, nem nada de seguro tenho escutado a seu respeito. Nos primeiros dias após a sua partida ainda pensei que ele retornaria. Imaginei que a sua família ou as suas responsabilidades familiares o demoveriam de sua decisão.

Já se passaram quinze anos desde que o Zico “surtou”, como dizíamos todos lá na repartição. Já se passaram quinze anos e continuo me perguntando: quem deveria ter aconselhado: o audacioso Zico ou o meu pusilânime desejo de estabilidade.

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