segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Os profissionais da saúde (ou da doença, ou, ainda, doentes)

Os profissionais da saúde deveriam ter, entre outras virtudes necessárias, a capacidade de oferecer algum conforto emocional aos pacientes. Se levarmos em consideração a situação corrente na maioria dos hospitais brasileiros, esta virtude será identificada com raridade entre médicos, enfermeiros e auxiliares de enfermagem.

Passei por algumas experiências desagradáveis nos últimos seis meses em hospitais particulares do Recife. Ora como paciente, ora como acompanhante de algum parente, senti-me agredido em minha dignidade pela absoluta indiferença pela qual fui (ou não fui) tratado.

Como todo mundo, procuro um hospital quando estou doente. Mas, lá chegando, pioro porque me frustro ao não receber os cuidados que deveria. Mas que cuidados são esses pelos quais tanto anseio (creio que não somente eu gostaria de tê-los)?

Além dos indispensáveis procedimentos técnicos de diagnose e de tratamento ágil do mal que me incomoda, não espero de um médico algo tão precioso como o cuidado paternal, mas gostaria que me ouvisse no que tenho a dizer-lhe; não desejo que uma enfermeira demonstre por mim ou por alguém a benevolência de uma avó para com os seus netos, mas o respeito que cabe a um ser humano pelo simples fato de humano ser. Não quero que Madre Teresa de Calcutá, com um hábito branco, me atenda numa emergência de hospital, mas não quero me sentir desamparado como uma batata no chão de uma feira livre.

Talvez a minha visão seja um bocado ingênua, mas não posso deixar de me surpreender em cada ocasião na qual preciso ir a um hospital e sou tratado mal (ou maltratado ou nem mesmo notado). Deve ser um mal incurável que me acomete o de achar que mereço ser tratado como trato os outros, com respeito.

Será que sou tolo ao desejar que hospitais acolham com um mínimo de hospitalidade àqueles que por ele precisem passar? Não é estranho que o lugar onde em tese as pessoas que nele trabalham deveriam ser as mais atenciosas e gentis, acabam sendo, pelo contrário, justamente as mais indiferentes e/ou grosseiras?

Pelo que vejo e escuto o problema do qual me queixo é tão comum nas emergências privadas (e principalmente nas públicas) do Recife quanto nas de qualquer cidade brasileira. O clichê mais usado pelos usuários dos serviços de saúde é o de que ela, a saúde, está na UTI. E não é só por falta de verba. Como diríamos todos em uníssono, "o buraco é mais embaixo".

Adoraria conhecer esse buraco, ou melhor, as causas sociais da antipatia crônica que debilita grandes contigentes de profissionais de saúde no Brasil. Tenho cá minhas hipóteses, como a de que cada vez menos as pessoas que procuram uma carreira na área da saúde (no caso dos médicos) o fazem devido a motivos humanitários e cada vez mais por questões de logística de sobrevivência, ou seja, ganhar dinheiro e obter prestígio social sem precisar deixar de ser medíocre. Convenhamos: para ser um médico comum não é preciso exercitar nenhuma competência além da de ter a insistência de um jumento e a memória de um elefante no trato com os textos de caráter técnico que são recomendados na universidade.

É certo que a minha hipótese não chega perto de um diagnóstico preciso acerca do que tem transformado os hospitais em antecâmaras do inferno. Quero apenas pôr fim à vertigem vomitando essas ideias confusas para análise de quem se compadece na própria carne e na mente do que sinto.

Um comentário:

JOSÉ RAFAEL MONTEIRO PESSOA disse...

E eis que surge uma mente inquieta e um coração angustiado como o meu nesse quesito (tb). Vivencio esse caos há anos. Embora as piores mazelas vi no interior da Bahia quando eu trabalhava num gasoduto da Petrobras. Nem queira saber. Mas, se for pra fazer barulho... FAREMOS.