domingo, 14 de novembro de 2010

UPE - SSA Contestações

Segue abaixo cópia do documento que encaminharei para a UPE para contestar os gabaritos de algumas questões da prova de Sociologia e de Filosofia do SSA, 3ª fase 2010. Depois farei uma análise mais detalhada das duas provas.


CONTESTAÇÃO FILOSOFIA



A questão 54, que trata do tema do existencialismo, afirma no item 00: “O ser humano atribui importância a alguma coisa e não fica indiferente a ela”. De acordo com o gabarito, esta assertiva seria falsa. Porém, segundo um dos principais vultos da filosofia existencialista, o francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), o existencialismo é uma doutrina prática, voltada para a ação. Num dos seus mais famosos textos, a conferência “O existencialismo é um humanismo”, ele defende o existencialismo das acusações que o classificavam como uma doutrina quietista. Isto significa que o existencialismo impele o indivíduo à ação e só é possível agir, no sentido pleno da expressão, se se atribui importância às coisas. Atribuir importância às coisas (ao mundo) é precondição de qualquer ação. Ao agir o homem não age sobre si, mas sobre o que lhe é exterior, age sobre as coisas. A propósito, para o existencialismo sartreano é justamente a ação do indivíduo que define a sua essência.Pedimos, portanto, que o item 00 da questão 54 tenha o seu gabarito modificado para verdadeiro.



PROVA DE SOCIOLOGIA



QUESTÃO 57


Pedimos a anulação da questão ou que todos os itens sejam considerados verdadeiros. Abaixo segue a argumentação.


A questão 57 aborda o tema da estratificação social. O gabarito considera como resposta verdadeira, a respeito dos três “principais tipos de estratificação social”, a letra A, que é a seguinte:

A) “Estratificação Econômica, Estratificação Política e Estratificação Profissional”.

Porém, identificamos um problema. Principais para quem? Se for para Pérsio Santos de Oliveira, autor do livro Introdução à Sociologia (Editora Ática, São Paulo, 2008, p.162-3) o item deve ser considerado de fato verdadeiro. Porém, o enunciado da questão não indica qual é o critério para considerar tais formas de estratificação como as principais. O uso do termo principais remete necessariamente a uma valoração, e toda valoração se dá a partir de um referencial, o que não conseguimos identificar na questão. De acordo com outros referenciais valorativos (axiológicos), como a corrente teórica feminista, por exemplo, a estratificação por gênero pode ser a principal.


A ONU pode considerar, outrossim, a instrução como um dos principais modos de estratificação social, tendo em vista que ela utiliza como critério para aferir as condições de vida de uma população o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), cuja metodologia leva em conta aspectos que dizem respeito diretamente à questão instrucional: das sete categorias para realizar o cálculo, duas são relativas ao nível instrucional: “taxa de analfabetismo”, e “aquisição de conhecimento”, como podemos ver no enunciado do quesito 56. Não sendo suficiente tal argumento, basta observarmos a sociedade brasileira na esperança de encontrar pessoas com baixa escolaridade em lugares de poder na sociedade. Mesmo que o presidente da República não tenha passado muitos anos na escola, este caso é um desvio do padrão social.


Por fim, a depender do referencial valorativo, alguém pode vir a considerar como uma das principais formas de estratificação o Status Social (o prestígio) ou os níveis institucionais (Estratificação Institucional). No primeiro caso, basta lembrar da antiga sociedade indiana (baseada na estratificação por castas – uma sociedade cuja forma de estratificação se dava por prestígio ou status social atribuído, que fazia o indivíduo carregar por toda sua vida desde o nascimento). No segundo caso, a estratificação social pode ser considerada como uma forma de estratificação política, pois neste universo as instituições públicas são espaços de deliberação política e, por essa razão, tidos em mais alta conta pela população em geral do que as instituições da sociedade civil ou as instituições privadas, o que evidencia a existência de estratificação entre instituições.


Desse modo, as letras B, C, D e E também seriam verdadeiras, por isso pedimos a anulação da questão ou a consideração de todos os itens como resposta da questão.


QUESTÃO 60


Pedimos que o gabarito da questão 60 considere a proposição 00 como verdadeira, e não como Falsa. Abaixo segue a argumentação.


A questão trata do tema dos novos movimentos sociais, mais especificamente do movimento ambientalista. A proposição 00 diz: “São movimentos preservacionistas que têm como objetivo salvar o planeta Terra das agressões do homem”. O gabarito considera falsa tal afirmação. Contudo, os movimentos sociais ambientalistas – quer os preservacionistas, quer os conservacionistas – podem ser considerados novos movimentos sociais. É verdade que a maior parte dos novos movimentos sociais surge a partir da segunda metade do século XX, mas alguns movimentos sociais podem ser classificados como “novos” mesmo tendo surgido no século XIX, como é o caso do movimento feminista e do movimento ambientalista.


O que caracteriza os novos movimentos sociais é que suas agendas de reivindicação não estão atreladas a questões meramente econômicas, isto é, suas demandas são no terreno da mudança cultural: lutam, entre outras coisas: a) pelo fim do preconceito sexista e por mudanças na legislação que punam os agressores que praticam violência doméstica (movimento feminista); b) pelo fim de todas as formas de discriminação racial e melhoramento das condições socioeconômicas dos negros (movimento negro); c) pela proteção da natureza, com um discurso que pode ser ora extremamente radical a ponto de condenar quase todo uso da natureza a serviço da humanidade (movimento ambientalista preservacionista), ora um discurso mais ponderado e que admite o uso dos recursos da natureza de maneira equilibrada, de modo a conservá-los para as gerações futuras (movimentos conservacionistas). Em ambos os casos, contudo, outro não é o objetivo dos movimentos ambientalistas senão o de “salvar o planeta Terra das agressões do homem”.


Pedimos, portanto, que o gabarito da questão 60 considere a proposição 00 como verdadeira, e não como Falsa.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Acerca do nervosismo nos debates presidenciais

Após o debate da Band (10/10/10), foi retomada a estratégia do PSDB de atribuir à candidata Dilma um comportamento “nervoso”. Na realidade, o presidente nacional dos tucanos – o senador Sérgio Guerra – foi além ao qualificar as atitudes da candidata do PT de ”agressivas”. Sendo esta ou não a sua verdadeira opinião, claro está que na condição de coordenador nacional da campanha de Serra não poderia ter dito outra coisa. O problema, todavia, está em fazer do nervosismo algo em si negativo.

Eu me surpreenderia se um pleiteante ao principal cargo político do país não ficasse nervoso nos momentos decisivos como são os debates. São milhões de brasileiros expectantes, e, nessas horas, em que pese toda a experiência de vida pública, seria praticamente impossível evitar o nervosismo, principalmente porque a situação é de disputa.

Concordo que Dilma tenha ficado nervosa. Contudo, parece-me – mas nunca poderei sabê-lo de fato – que não mais do que Serra. Mas de uma coisa não duvido: o nervosismo é uma questão periférica num debate como o de ontem, ainda mais porque nenhum dos candidatos se excedeu neste quesito, o que poderia ser – mas não necessariamente é – indício de despreparo ou de algo ainda pior. Entretanto, taxar as atitudes do adversário tão recorrentemente de “nervosas” ou “agressivas” (apesar de esta não ser a impressão geral) parece ser um indício de má-fé, uma excelente estratégia de desviar a atenção do eleitorado do conteúdo das discussões para algo de menor ou de nenhuma importância. Um típico caso de argumentum ad hominem.

Num momento em que há muito em jogo, em disputa, a maioria das pessoas fica nervosa. Algumas, muito tarimbadas, têm a habilidade de dissimular o nervosismo. Todavia, o nervosismo não implica necessariamente em atitudes desmesuradas. Aperceber-se do nervosismo e controlá-lo é uma virtude de atletas, políticos e profissionais exemplares das mais diversas áreas. Infelizmente, o discurso de Sérgio Guerra tem repercussão tão profunda porque o que faz do nervosismo um valor em si negativo faz, ao mesmo tempo, da tranqüilidade um valor em si positivo, mesmo que o sorriso sereno oculte as mais repugnantes mentiras.

domingo, 3 de outubro de 2010

Last second

At least in the last second
i wanna feel intensivity.
At least in the very moment
of death i wanna have vitality.


Abaixo segue a tradução do Google

Pelo menos no último segundo
Eu quero sentir intensidade.
Pelo menos no momento
da morte eu quero ter vitalidade.

A verdade nas eleições

Não, não tenho nada a desvelar sobre o processo eleitoral. Na verdade, quero ruminar a respeito de um instante de uma conversação levemente acalorada que tive poucos dias atrás com alguns amigos.

"Para presidente, vou votar naquele candidato chamado Nulo. Meu governador é seu irmão mais jovem, o Nulinho. Para fechar a chapa voto no Nulão para senador da res publica..."

"Não posso acreditar que um filósofo (quem dera eu fosse mesmo!) vai fazer isso".

Em vez de ouvir um "por quê?", escuto um "Não posso acreditar..." Pronto: sumariamente julgado e condenado. Meus critérios não importam diante da verdade de quem me julga.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O amor

O amor é uma pena: voa, leve, até se aprisionar, quando, então, torna-se puro lamento.

sábado, 14 de agosto de 2010

A prisão

- Tu não sabe, tenho uma bomba pra te contar.
- Então conta.
- Sabe quem foi preso?
- Quem?

Entre o “Sabe quem foi preso?” e o “Quem?” uma enxurrada de idéias condensadas se precipitou na cabeça daquele que respondeu com outra pergunta. Um segundinho foi suficiente para que se arvorasse uma suposta superioridade moral, que sempre anda pegada com uma sádica satisfação.
- O Armandinho.
- O Armandinho? O Armandinho lá da casa de praia?
- Ele mesmo. Ele foi pego furtando no shopping. Passou até na TV!
- Que coisa! Eu nunca imaginei. Se bem que ele tava andando com uma galera nada a ver.
- Bota o nome dele na internet que tu vê.
- Mas rapaz! O Armandinho? Quem diria? Tá certo. Vou ver na internet. Valeu aí pelo toque.
- De nada. Mainha disse pra tu aparecer.
- Quando der eu vou. Tô trabalhando que só. Vou nessa, viu? Beijo.
- Beijo.

Em vez de acessar a internet, usou o celular. Ninguém do círculo de amigos da casa de praia ficou sem saber que o Armandinho estava em cana por conta de assaltos praticados contra madames no shopping. A anamnese de todos foi unânime: o Armandinho tinha traços psicopáticos em sua personalidade desde a infância. Ninguém pagou a fiança.

Especialistas

Espanto-me com o fato de que para toda e cada coisa tenha alguém que saiba de tudo. Fico encabulado até para falar, pois há sempre uma autoridade pronta para me fazer uma reprovação.Inclusive agora, imagino...

sábado, 7 de agosto de 2010

Assalto

O assaltante nos rouba sobretudo a dignidade...

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Satisfação

Volto a escrever apenas para dizer que estou vivo. Tenho estado ausente, assim como ausente tem estado aquilo que em mim me faz escrever.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Interdição

A sombra do Homem é a interdição.
Em cada passo do caminho,
Mesmo casa, no seu ninho,
Acompanha-o um íntimo NÃO.

Musicalma

Dilata-se a alma
Ao deleite da música.
Vibra tensa ou calma,
A alma é pura acústica.

Copa

Ou bem na copa ou bem no copo
Afogo bons desejos vãos.
Miragens saem de foco
Títulos escorrem-me das mãos

domingo, 30 de maio de 2010

A conversão de Santo Agostinho e Joaquim Nabuco














Em sua autobiografia, Minha formação, Joaquim Nabuco faz alusão a um episódio da sua meninice que lhe causou profunda impressão, fazendo-o durante sua vida adulta dedicar-se intensamente à verdade que inopinadamente brotou em sua consciência moral: a violência da escravidão. Eis a passagem: “Eu estava uma tarde sentado no patamar da escada exterior da casa [localizada no Engenho Massangana, no Cabo de Santo Agostinho], quando vejo precipitar-se para mim um jovem negro desconhecido, de cerca de dezoito anos, o qual se abraça aos meus pés suplicando-me, pelo amor de Deus, que o fizesse comprar por minha madrinha, para me servir. Ele vinha das vizinhanças, procurando mudar de senhor, porque o dele, dizia-me, o castigava, e ele tinha fugido com risco de vida... Foi esse traço inesperado que me descobriu a natureza da instituição, com a qual eu vivera até então familiarmente, sem suspeitar a dor que ela ocultava.” *

A experiência forte e repentina descrita por Nabuco fez-me associá-la a um episódio vivido por outro vulto da história, Santo Agostinho. Nas Confissões, o filósofo relata a sua angustiosa busca da Verdade por sinuosas sendas. Num dia em que meditava sozinho e desalentado ouviu uma voz infantil pronunciar, repetidas vezes, a frase: “Toma e lê; toma e lê”. Julgando tratar-se da Bíblia, obedeceu. A mensagem lida na página aleatoriamente aberta da Palavra demoveu todos os bolsões de incredulidade do seu espírito. Assim, num átimo, o pagão foi convertido num cristão.

Vejo paralelos muito nítidos entre a conversão de Agostinho ao cristianismo e a experiência dramática de Nabuco na sua infância. Meu concidadão ilustre, todavia, converteu-se a uma causa sumamente humana. Segundo suas próprias palavras, e o bom senso, não seria prudente inferir que a criança assustada diante dos clamores de um escravo fugido tenha compreendido imediatamente toda a dimensão daquilo que lhe estava ocorrendo. Mas a trajetória política de Nabuco é a maior fiadora das suas palavras. Qualquer coisa da ordem do inefável seqüestrou-lhe o espírito. A partir daquele dia, a instituição da escravidão jamais teve o mesmo significado para o pequeno Quincas. Uma conversão subjetiva, a passagem de um horizonte mental para outro, de maior envergadura. Uma transformação imprevista, não calculada. Enquanto uma ordem infantil capturou Agostinho ao cristianismo, súplicas desesperadas de um jovem escravo cativaram Nabuco ao “abolicionismo”.

*NABUCO, Joaquim. Minha Formação. São Paulo: Editora Martin Claret, 2005, p. 137.

Comentário de Drummond sobre Augusto dos Anjos

"Li o Eu na adolescência, e foi como se levasse um soco na cara. Jamais eu vira antes, engastadas em decassílabos, palavras estranhas como simbiose, mônada, metafisicismo, fenomênica, quimiotaxia, zooplasma, intracefálica... E elas funcionaram bem nos versos! Ao espanto sucedeu intensa curiosidade. Quis ler mais esse poeta diferente dos clássicos, dos românticos, dos parnasianos, dos simbolistas, de todos os poetas que eu conhecia. A leitura do Eu foi para mim uma aventura milionária. Enriqueceu minha noção de poesia. Vi como se pode fazer lirismo com dramaticidade permanente, que se grava para sempre na memória do leitor. Ausgusto dos Anjos continua sendo o grande caso singular da poesia brasileira."

Carlos Drummond de Andrade

Fonte: Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 3, nº 32, maio de 2008, página 89.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Na clínica


- Uma sensação de deslocamento, como se aqui ou ali eu estivesse sempre fora do meu lugar.

- Compreendo...

- Parece que nada me faz ficar bem. Sempre sinto falta de algo.

- Continue.

- Me sinto tão mal que não consigo dizer mais nada. Veja, doutor, é muito injusto. O senhor balança a cabeça, faz cara de sério e eu me sinto na obrigação de sempre acrescentar uma desgraça na minha vida desmantelada.

domingo, 9 de maio de 2010

A pátria

A bandeira de uma pátria é o seu povo. Essa frase ufanista bem que poderia vir a ser adotada por um demagogo qualquer.

Natal

Espontaneamente não justificaria a minha ausência. Mas como vocês vão me importunar se não lhes responder, digo logo que não vou porque não desejo vê-los. É isso.

Com este pequeno texto, João respondeu o convite para a tradicional reunião natalina celebrada em família. A resposta, enviada no dia 23 de dezembro do ano passado, foi destinada ao seu irmão mais velho, em cuja casa se refestelavam ano após ano todos os membros do clã.

As várias tentativas de contato com João foram inúteis. Irmãos, sobrinhos, pai, mãe, todos, enfim, telefonaram para o inveterado solteirão que nesse período de festas costumava ser suprema alegria, animação encarnada.

Nos anos anteriores, João se encarregou diretamente dos preparativos. Toda a festa em cada pormenor era cuidadosamente organizada por ele. Seu zelo incluía, por exemplo, a compra dos quitutes, a decoração da sofisticada árvore de natal e até mesmo a fragrância do sabonete do lavabo da casa do seu irmão. Esse ritual que antecedia o ritual propriamente dito não se executava em menos de quinze ou vinte dias. Porém, no ano passado, João simplesmente desapareceu em dezembro.

No primeiro dia do último mês do ano, João avisou à família que se ausentaria por algum tempo e que talvez não pudesse tomar parte nos preparativos para a ceia natalina. Inicialmente, ninguém realmente acreditou que Joãozinho falasse sério.



Não continua...

Conselho

Eu bem que o avisei. Mas ele insistiu em ser como queria. Não fazia nem desfazia o que lhe diziam fazer. Era rígido e bruto, não declinava nem um pouquinho. Sabendo como eu sabia que ele era como era, perdi meu tempo lhe aconselhando. O caso se seguiu assim.

Numa quarta-feira cinzenta e abafada, no meio do expediente, Zico nos contou que largara a vida de burocrata e que daquele momento em diante apenas faria o que lhe rendesse uma boa dose de diversão. O tom de sua fala não era o de quem havia decidido de véspera, tampouco deixava entrever qualquer radicalismo, mas o de quem se entregava resignadamente a uma sina inexorável. Sua voz era de uma tranqüilidade angustiante para quem o ouvia falar acerca de algo tão sério. Todavia, em nossa ignorância somente conseguíamos ponderar a situação como “loucura”.

Abrir mão de serviços burocráticos significava desprezar uma carreira sólida que lhe rendia status e vinte salários mínimos mensais. Loucura, por conseguinte.

Naquela quarta-feira, então, Zico nos comunicou do que não mais faria. Quando indagado a respeito do que faria daquele instante em diante, ele respondeu-nos que viveria bem enquanto sua algibeira (ele usou esta mesmíssima palavra) não se esvaziasse.

“E depois?” Alguém se lembrou de perguntar. E Zico replicou com uma serenidade ultrajante:

“Bem, o depois é só um fantasma que não nos deve assombrar agora.”

Desfazia-se de seu paletó enquanto terminava a frase que traduzia suas mais novas convicções. Intrigava-me saber quais pensamentos fluíam pela sua mente enquanto descerrava a gravata e desabotoava sua camisa social. Em vão conjeturávamos todos.

Nervosamente ainda tentei lhe aconselhar a não se demitir. “Apesar de toda a rotina tensa e entediante”, disse, “o trabalho nos remunera bem e nos aborrece num grau que desperta nosso brio, o que é uma lisonja que inconscientemente nos prestamos para camuflar nossa competente preguiça”. Lacônico como nunca havia sido, mas com olhos compadecidos, respondeu-me:


“Cansei”.

Transcorreram-se todas as etapas legais em poucos dias até a sua exoneração. Há quinze anos que não vejo o Zico, nem nada de seguro tenho escutado a seu respeito. Nos primeiros dias após a sua partida ainda pensei que ele retornaria. Imaginei que a sua família ou as suas responsabilidades familiares o demoveriam de sua decisão.

Já se passaram quinze anos desde que o Zico “surtou”, como dizíamos todos lá na repartição. Já se passaram quinze anos e continuo me perguntando: quem deveria ter aconselhado: o audacioso Zico ou o meu pusilânime desejo de estabilidade.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

O entre

Eu sou o entre, eu sou o elo
a unir o destino ao acaso.
Sou meio feio e metade belo:
sou fundo mas vivo no raso.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Zarpar do tempo

Brecha no tempo:
sair, escapar.
Vela ao vento:
partir, zarpar.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Doces mistérios

Já se foi o tempo dos doces mistérios,
Quando eu ainda tudo temia.
Hoje, a minha agonia
Vende-se por miúdos refrigérios.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Analogia

A narrativa histórica que conduzi durante uma aula do ensino médio, dias atrás, fez-me relacionar intimamente (e não pude mesmo evitar) o fordismo e o taylorismo nos seus piores usos com a política de publicação em voga hoje nos centros acadêmicos brasileiros. Não é incomum que a analogia imagética quando se impõe à nossa mente seja um bocado leviana, por isso me eximo de explorá-la, pelo menos por ora. Fica a comparação à guisa de provocação.

Diário de viagem

Passei quatro dias em Buenos Aires e cada um deles foi de descobertas encantadoras. Antes da viagem, naturalmente, o meu desejo de conhecer as tão propaladas belezas da capital argentina me entusiasmavam, mas o que ansiava mesmo era conhecer as pessoas e os seus costumes, junto com as suas opiniões. Esse desejo não foi saciado, mas, ao contrário, ampliado. Um dia volverei às terras portenhas e nelas me quedarei mais sossegadamente a espreitar a vida desse povo tão gentil e atraente que é o argentino.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

OS DESAFIOS DO ENSINO DE FILOSOFIA NO ENSINO MÉDIO

A filosofia é, por excelência, uma disciplina cujo desenvolvimento depende da situação pedagógica. Devido ao seu caráter eminentemente dialético, a filosofia progride na mesma medida em que o debate honesto se instaura. Diríamos que o laboratório da filosofia outro não é senão aquele em que duas ou mais pessoas se associam com o desejo sincero de analisar um problema a partir das suas bases, das suas causas e dos seus sentidos.

Tais reflexões não podem prescindir, é verdade, da contribuição daqueles que à filosofia têm se dedicado ao longo de sua extensa história. Com efeito, há problemas filosóficos, como o de saber o que é a Justiça ou o Conhecimento, por exemplo, que vêm sendo pensados e discutidos desde os albores desta disciplina e, não obstante as geniais respostas que já foram dadas, outras respostas podem ainda enriquecer a reflexão. No entanto, alguns dos problemas com que temos de lidar nos dias atuais sequer foram imaginados por pensadores da estirpe de Platão, Aristóteles ou Descartes. Neste caso, urge que assumamos a tarefa preconizada por Kant, qual seja, a de ousar saber.

Com a recente inclusão da filosofia no currículo do ensino médio das escolas brasileiras, esta ousadia a que nos incita Kant deve ser assumida e compartilhada tanto pelos professores quanto pelos alunos. Da reflexão filosófica esperamos que nos diga algo de relevante acerca dos problemas que perpassam o nosso cotidiano como, dentre outros, o da tecnologia e o do preconceito, pois ela tem como uma das suas especificidades o poder de ampliar a nossa capacidade de formular conceitos com e a partir dos quais questões de alta importância, como as citadas, podem ser avaliadas de maneira mais profunda do que a do senso comum.

Isso posto, quer nos parecer que um dos desafios prementes do professor de filosofia é o de apresentar esta área do saber como algo que pode fazer parte de modo bastante concreto da vida corriqueira de seus alunos. Não há uma única opinião que emitamos que não possa ser posta em análise pelo pensamento filosófico. Ou seja, cabe ao professor desta disciplina desconstruir a idéia – muito em voga entre os seus alunos – de que a filosofia é apenas algo etéreo, abstrato e apartado do mundo real. Afinal, não há nada que se compare em concretude às idéias: sobre elas construímos todo o nosso agir, toda a nossa vida.

Cremos, com Kant, que não é possível aprender a filosofia, mas aprender a filosofar. Por esta razão, portanto, o maior desafio do professor de filosofia é o de provocar, estimular, acender em seus alunos o aparecimento da atitude filosófica, a atitude que não permite ao ser humano conformar-se com idéias frouxas, sem fundamentos; a atitude que nos impede que nos tornemos letárgicos e não tenhamos o que dizer diante das injustiças.

Em suma, a filosofia cumpre o seu papel no ensino médio se, ao fim desta etapa em sua formação, os alunos são capazes de, cada vez mais, se distanciar da superfície e se aproximar das raízes de sua própria realidade (o que implica um diálogo com outros saberes constituídos) e, com argumentos e idéias coerentes, contribuir e atuar eticamente sobre a mesma. De fato, esses desafios não são modestos. Mas tampouco é modesto o nosso desejo de uma humanidade mais crítica e menos autodestrutiva, e para isto a filosofia muito pode contribuir.

Jefferson Góes
Recife, dezembro de 2008

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Os profissionais da saúde (ou da doença, ou, ainda, doentes)

Os profissionais da saúde deveriam ter, entre outras virtudes necessárias, a capacidade de oferecer algum conforto emocional aos pacientes. Se levarmos em consideração a situação corrente na maioria dos hospitais brasileiros, esta virtude será identificada com raridade entre médicos, enfermeiros e auxiliares de enfermagem.

Passei por algumas experiências desagradáveis nos últimos seis meses em hospitais particulares do Recife. Ora como paciente, ora como acompanhante de algum parente, senti-me agredido em minha dignidade pela absoluta indiferença pela qual fui (ou não fui) tratado.

Como todo mundo, procuro um hospital quando estou doente. Mas, lá chegando, pioro porque me frustro ao não receber os cuidados que deveria. Mas que cuidados são esses pelos quais tanto anseio (creio que não somente eu gostaria de tê-los)?

Além dos indispensáveis procedimentos técnicos de diagnose e de tratamento ágil do mal que me incomoda, não espero de um médico algo tão precioso como o cuidado paternal, mas gostaria que me ouvisse no que tenho a dizer-lhe; não desejo que uma enfermeira demonstre por mim ou por alguém a benevolência de uma avó para com os seus netos, mas o respeito que cabe a um ser humano pelo simples fato de humano ser. Não quero que Madre Teresa de Calcutá, com um hábito branco, me atenda numa emergência de hospital, mas não quero me sentir desamparado como uma batata no chão de uma feira livre.

Talvez a minha visão seja um bocado ingênua, mas não posso deixar de me surpreender em cada ocasião na qual preciso ir a um hospital e sou tratado mal (ou maltratado ou nem mesmo notado). Deve ser um mal incurável que me acomete o de achar que mereço ser tratado como trato os outros, com respeito.

Será que sou tolo ao desejar que hospitais acolham com um mínimo de hospitalidade àqueles que por ele precisem passar? Não é estranho que o lugar onde em tese as pessoas que nele trabalham deveriam ser as mais atenciosas e gentis, acabam sendo, pelo contrário, justamente as mais indiferentes e/ou grosseiras?

Pelo que vejo e escuto o problema do qual me queixo é tão comum nas emergências privadas (e principalmente nas públicas) do Recife quanto nas de qualquer cidade brasileira. O clichê mais usado pelos usuários dos serviços de saúde é o de que ela, a saúde, está na UTI. E não é só por falta de verba. Como diríamos todos em uníssono, "o buraco é mais embaixo".

Adoraria conhecer esse buraco, ou melhor, as causas sociais da antipatia crônica que debilita grandes contigentes de profissionais de saúde no Brasil. Tenho cá minhas hipóteses, como a de que cada vez menos as pessoas que procuram uma carreira na área da saúde (no caso dos médicos) o fazem devido a motivos humanitários e cada vez mais por questões de logística de sobrevivência, ou seja, ganhar dinheiro e obter prestígio social sem precisar deixar de ser medíocre. Convenhamos: para ser um médico comum não é preciso exercitar nenhuma competência além da de ter a insistência de um jumento e a memória de um elefante no trato com os textos de caráter técnico que são recomendados na universidade.

É certo que a minha hipótese não chega perto de um diagnóstico preciso acerca do que tem transformado os hospitais em antecâmaras do inferno. Quero apenas pôr fim à vertigem vomitando essas ideias confusas para análise de quem se compadece na própria carne e na mente do que sinto.