sábado, 28 de novembro de 2009

Corrução

Nessa madrugada acordei perturbado. Sonhei que vivia numa terra de incorrutíveis corrutos. Ainda bem que foi apenas um pesadelo.

Cinismo

Há sempre uma porção de cinismo nos poderosos.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Sofrimento, ficção e confissão

Em suas Confissões, Santo Agostinho nos diz que a sua conversão ao cristianismo lhe tirou o hábito de frequentar os teatros, pois neles não podia praticar as virtudes cristãs para cuidar das desditas das personagens. Não quero esse fanatismo para mim. Mas não quero, tampouco, ir ao outro pólo e sentir-me indiferente ao que se passa no palco ou na tela.

Dias atrás, enquanto assistia a Bastardos Inglórios , o mais recente filme de Tarantino, estranhei por um instante a mim mesmo na situação em que me encontrava. Numa das cenas em que os soldados nazistas eram escalpelados eu me percebi comendo pipoca e lambendo os dedos. E não é porque nazistas sofriam que fiquei indiferente. A seguir os solilóquios da minha mente entediada numa tarde de sábado.

"Que saco! Tem P.N. pra fazer. Vou ver um filme no Shopping pra me oxigenar."

Depois de convidar a minha consorte, rumamos ao mercado climatizado pós-moderno. E a mente não para de ...

"Vou ver o filme que tiver mais ação. Eita pipoca cara da bexiga! É phoda! Mas eu vou levar uma assim mesmo, e com um refrigerante de 1 litro só pra mim!!!"

Se Agostinho fez Confissões, e eu rogo ao seu Deus que o santo tenha sido perdoado, então me confessarei, sem, no entanto, almejar a indulgência de qualquer divindidade. Para mim, muitas vezes, o sofrimento no palco ou na tela não passa de espetáculo. Rogo, a mim mesmo, que o sofrimento em carne, osso e consciência que vejo na vida dos outros não se torne também espetáculo.

domingo, 22 de novembro de 2009

Palíndromo



http://www.youtube.com/watch?v=HL4pHJ_AcBE

O excelente curta nacional Palíndromo, de Philippe Barcinski, trata da relação homem-tempo de maneira muito criativa. Recomendo.

sábado, 21 de novembro de 2009

"Ex-fumante receberá US$ 300 milhões" - Redução ao absurdo




Logo abaixo, segue a transcrição na íntegra de uma pequena reportagem do Jornal do Commercio de 21/11/2009.

A produtora de tabaco americana Philip Morris USA foi condenada por um tribunal da Flórida, nos EUA, a pagar US$ 300 milhões (cerca de R$ 513 milhões) a uma ex-fumante de 61 anos, que sofre de uma doença nas vias respiratória (sic). É a multa mais alta já pronunciada contra uma produtora de tabaco na Flórida. Cindy Naugle, que desenvolveu um enfisema, se desloca numa cadediras de rodas e precissa de assitência respiratória permanente. Ela parou de fumar em 1993, após 25 anos de tabagismo. A empresa anunciou em comunicado a intenção de "examinar" o veredicto, e considerou a multa "extremamente excessiva". Em março, a Philip Morris USA foi condenada a pagar US$ 145 milhões (R$248 milhões) à viúva de um ex-fumante.


Não creio ser justa a punição à empresa que produz cigarros pelo simples fato de que qualquer fumante conhece os riscos aos quais se submete (mesmo em 1968). Além disso, uma vez dependente químico, resta a possibilidade à pessoa de procurar assitência médica para abandonar o vício. O Estado, por meio do judiciário, não pode punir a indústria de cigarros por essas razões e, também, porque ele mesmo não pôde impedir o funcionamento da indústria tabagista. Para ser coerente consigo mesmo, o Estado deveria punir a citada empresa com a multa e com o seu fechamento definitivo. Mas não apenas isso. O Estado, em contrapartida, deveria impor a si mesmo uma sanção, a de indenizar todos os fumantes, bem como todas as indústrias que um dia obtiveram licença para produzir cigarros.

Till - A saga de um herói torto



Peça maravilhosa apresentada ontem e antes de ontem no Festival de Teatro do Recife, na Praça do Arsenal da Marinha. Abaixo a sinopse da peça retirada do site da companhia que monta o espetáculo (Grupo Galpão - BH, MG). Espero que essa peça rode o Brasil e inteiro. Depois da sinopse, alguns comentários meus.

Um dia, na eternidade, o Demônio aposta com Deus que se tirasse do homem algumas qualidades, ele cairia em perdição. Deus, aceitando o desafio, resolve trazer ao mundo a alma de Till. Vivendo em uma Alemanha miserável, povoada de personagens grotescos e espertalhões, logo de início nosso protagonista é abandonado em meio ao frio e a fome e descobre que a única maneira de sobreviver naquele lugar é se tornar ainda mais esperto e enganador. Assim começa sua saga cheia de presepadas e velhacarias.Criado pela cultura popular alemã da Idade Média, Till é o típico anti-herói cheio de artimanhas e dotado de um irresistível charme. Um personagem que tem parentesco com outros tipos de várias culturas, por exemplo, que se assemelha muito ao nosso Macunaíma ou ao ibérico Pedro Malasartes. Além de Till e uma infinidade de rústicos personagens medievais, a peça conta também a história de três cegos andarilhos que buscam a redenção, sonhando alcançar as torres de Jerusalém e salvar o Santo Sepulcro das mãos dos infiéis.Num mundo em que é cada vez mais marcante a presença dos excluídos e dos desprovidos de qualquer suporte material, a parábola das aventuras do anti-herói Till Eulenspiegel torna-se de uma atualidade inquietante.

http://www.grupogalpao.com.br/port/espetaculos/sinopse.php?espetaculo=till

Há uma velha e bela metáfora que tenta descrever o caráter sui generis das artes cênicas. Ao fim de uma apresentação teatral, não obstante todas as emoções que tenha insuflado no público, a peça consome a si mesma como uma chama, não deixando, senão na mente de quem a assistiu, quaisquer resquícios de sua efêmera existência.

Esse caráter trágico do espetáculo cênico, no entanto, é um dos fatores que lhe conferem toda a magia que ele representa. Os espetáculos são singulares, não apenas da perspectiva da recepção, mas da montagem, da atuação. Ninguém jamais verá Till como Recife o viu na noite de 18/11, na Praça do Arsenal da Marinha, à beira do porto. As fagulhas que se precipitaram da fogueira acesa por Till na pele do pernambucano eram apagadas imediatamente pela brisa do mar dos arrecifes. Foi sensacional!

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Os antibióticos e a história




Noite dessas num teatro, ouvi de um falastrão eminente do Recife que, em havendo antibóticos em meados do século XIX, mais precisamente o composto de Sulfametoxazol com Trimetoprima (Bactrim), o Brasil seria uma monarquia até hoje. Explico. Segundo o conversador, as vidas dos dois filhos de D. Pedro II foram ceifadas precocemente devido a crises fulminantes de amigdalite. Se o Imperador tivesse um herdeiro homem, em vez de uma filha casada com o estrangeiro Conde d´Eu, a República não teria nascido. Quanto reducionismo!

À semelhança da maioria dos sinistros aéreos, os processos históricos não podem ser explicados nem compreendidos apenas a partir de um fator isolado.Diferentemente disso, as transformações no curso da história são o resultado de uma confluência de fatores(econômicos, políticos, ideológicos, religiosos etc.). Cada um destes fatores é necessário, e nenhum é suficiente para conferir inteligibilidade ao passado. Qualquer obra especializada sobre a decadência do Império há de confirmar o que digo.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Milk




Depois de assistir a este belíssimo filme de Gus Van Sant, disse a Sheila o seguinte: "todas as pessoas que participam de movimentos sociais deveriam assisti-lo", ao que ela me respondeu em seguida: "todo mundo deveria".

Milk reacendeu em mim o desejo de fazer política.

Link para um belo texto sobre a atuação de Sean Penn em Milk:

http://www.consciencia.org/neiduclos/SEAN-PENN-EM-MILK/

Derrida on animals


http://www.youtube.com/watch?v=Neu4kI_Yi0A



A perspicácia de Derrida é fascinante ao perceber essa sutileza da linguagem que reduz a incrível pluralidade de seres distintos à categoria "animais". Caso semelhante se dá quando utilizamos algumas vezes o termo "africanos" e desconsideramos todas as diferenças entre os nascidos na África. Em ambos os casos citados, estabelece-se uma dominação ancorada na linguagem.

domingo, 15 de novembro de 2009

Paciência

A paciência do botão
Para vir a ser rosa
É a varinha de condão
Que faz a vida formosa.

Críticos

Carta que encontrei num banco de um ônibus que peguei no centro da cidade ontem à tarde. Queria tê-la escrito.

"Me sinto como um imbecil. A minha geração só tem doutores. Se lhes falo sobre a música X, o filme Y ou o livro Z, eles me respondem do alto da sua afetação com um 'hã?!' acompanhado de caras e bocas com os quais resumem a crítica negativa da obra da qual lhes falei. Ah, como queria ser afetado também!"

Livro da vida

No volumoso livro da vida
Há um central capítulo
Dedicado à lida
De quem anula o nulo.

sábado, 14 de novembro de 2009

Solitário Anônimo




Indico mais um filme de Débora Diniz. Depois de tê-lo assistido, fiquei com muita coisa para escrever. Não sei nem por onde começar. Em breve postarei um texto a respeito deste curta-documentário (18 minutos) que aborda o polêmico tema do direito de morrer.

Links.

Parte 1: http://www.youtube.com/watch?v=Uw6_zvieFw0
Parte 2: http://www.youtube.com/watch?v=VoK53p4AXvI

sábado, 7 de novembro de 2009

Diversidade musical

A diversidade musical reflete a diversidade espiritual existente no mundo. Tantas são as músicas quantos são os homens.