quarta-feira, 30 de setembro de 2009

sede

um trago do teu vinho
para aplacar a sede
dum'alma sem caminho
que só vaga e só pede
...
...

poem

my eyes aren´t the same
when i stare at you
and i thank god you came
not late but pretty soon

sábado, 26 de setembro de 2009

Réquiem

A vida gesta a morte
Em cada e toda parte.
A morte é um corte,
Sem adeus de quem parte.

No instante sem volta
Hei de ler para ninguém
Como ode à vida morta
Meu próprio réquiem.

O sábio

Conheci alguém muito incomum ontem à tarde na rua do Hospício. Um jovem agarrou-me pelo braço e disse que precisava transmitir-me o legado de sua vida que estava prestes a acabar. Parei, propus-lhe uma cerveja e sentamos num bar defronte ao Teatro do Parque. Disse-me o rapaz mais ou menos o seguinte:

"Sou o maior gênio que já pôs o pé neste canto do mundo e talvez em toda a Terra. Descobri a cura de cânceres e de mil viri*. Solucionei problemas matemáticos e criei outros tantos cujas suluções permanecerão incógnitas para todo o sempre. Apontei todos os erros dos filósofos. Compus epopéias que mesmo Homero e Camões desejariam tê-las escrito..."

"Meu problema é que não registrei tais façanhas noutro lugar fora da minha memória e ela já não é mais a mesma. Eu planejava escrever e publicar toda a minha sabedoria num único compêndio, mas apenas iniciaria a compilação quando resolvesse um último problema teórico, o que logrei há alguns dias. Mas imediatamente tudo sumiu. Não me lembro de mais nada. Estou desesperado. Quando finalmente cheguei ao cume do saber, me vi como um ignorante. O que devo fazer?"

Estarrecido estava, atônito fiquei. Finalmente veio-me à mente a idéia de oferecer-lhe um brinde. Pedi para que ele tomasse aquele gesto (e a cerveja também) como sinal de reconhecimento e de gratidão pela sua prodigiosa inteligência e pelos serviços virtualmente prestados à humanidade. Brindamos, bebemos em silêncio e disse-lhe que tinha de ir para casa estudar filosofia.

Agradeceu-me e me disse lastimando - "só sei que nada sei".

Parti.

* Plural de vírus (eu não sabia!)

Estofo

O céu se desidratava lá em cima e com isso castigava aqui embaixo essa cidade construida sobre a lama. Salvei-me num táxi cujo condutor falou-me sobre o velho estofo do sofá de sua casa e o valor que teria de empregar para concertá-lo. Disse-lhe o que pensava, paguei e fui embora. Meses depois disso, num dia de febre do céu, peguei um táxi refrigerado e o motorista voltou a falar sobre o ainda mais velho estofo do sofá da sua sala. Dei-lhe os mesmos conselhos, paguei a corrida e desci do carro, ruminando meus velhos problemas, envolto no estofo roto da minha vida.

Livros

E... comprava livros como quem respira. Para juntar dinheiro para comprá-los E... vivia quase como um asceta: trabalhava demasiadamente e se divertia pouco, aliás, não se divertia. Nas horas vagas, ele tirava a poeira dos livros...

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Jogo do bicho

Numa das tantas esquinas de Recife flagrei há um tempo um diálogo entre uma senhora e um senhor. A conversa girava em torno do jogo do bicho.

A - Eita seu Fulano, deu a milhar do senhor ontem, num foi?!
B - Foi dona Sicrana, mas nem joguei.
C - Mas menino, num diga um negócio desse não.
B - Foi... Jogo essa danada todo dia, mas ontem não joguei e deu. Eu não tinha um real.
A - E o senhor deixou de jogar por isso? Fale comigo numa situação dessa.
B - Quero incomodar não.
A - Olhe, seu Fulano, é muita safadeza dessas banca de jogo. Quando o camarada não joga eles dão a milhar. É muita picaretice.
B - É mermo. Já fazia tempo que não dava ela não. É safadeza demais.
A - Nem me conte! É safadeza e da grande, seu Fulano! E o senhor já jogou hoje?
B - Inda agorinha. Peguei um trocadinho ontem de noite pelo biscate na casa de dona Beltrana. E a senhora já fez uma fezinha hoje?
A - E eu vou deixar de jogar pra deixar eles fazerem safadeza de novo?

domingo, 20 de setembro de 2009

Uma lágrima

Uma lágrima solitária
basta para afogar a alma.

sábado, 19 de setembro de 2009

Tempo é briga... (Sou meu tempo)

Depois do antes tem um agora
E todo instante é sempre hora
De chegar, ficar e ir embora:
Tempo é briga de ocaso e aurora.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Estética - A obra de arte

Não pretendo definir o que é a arte - não aqui nem agora. Quero apenas compartilhar com quem me lê uma constatação que fiz há poucos dias. Há quem pense que arte é tudo que sensibiliza, mesmo que não tenha sido feito por um artista nem com esta intenção.

Uma cachoeira e um cardume de peixes a revolutear nas águas claras do mar seriam autênticas obras de arte porque têm o poder de emocionar, de aguçar a imaginação.

Se um macaco pincela uma tela e a tela pincela a sensibilidade de alguém, então ela é arte. Se o canto de um canário encanta, por que não seria ele artístico?

Essa concepção, que não me agrada, institui como critério único do que é arte a comovedora beleza. Seu epíteto poderia ser "o que é belo, arte é". Assim sendo, a existência da obra de arte pode prescindir da do artista - salvo se creia que exista um Artista Supremo.

Como disse, não direi o que é a arte. Mas me parece que o critério da beleza é insuficiente para defini-la porque é um contra-senso dizer que pode haver a obra sem o autor. Um cardume não cria arte, mas nada.

Outra inconsistência que essa noção institui, possivelmente sem se dar conta, é a de que se arte é o que é belo, arte e artista se identificam completamente. Mas uma cachoeira não é artista e arte ao mesmo tempo; ela é qualquer coisa que nem sei definir muito bem, mas não é artista nem arte, muito menos ao mesmo tempo.

Se a arte pressupõe, ou melhor, exige um artista que a tenha concebido, então seria possível ser um artista sem disso saber? E o macaco? Saberá ele que o pincel é pincel? Saberá ele algo além de que colocar algumas cores num papel significa colocar algumas bananas na barriga?

A filosofia e o clichê

A filosofia esforça-se para ir além do clichê, o que nem sempre é fácil ou possível. Clichê é pátria e, como tal, é confortável.

A agonia da filosofia é que ela também tem o seu clichê, que é o de ir além dos clichês.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Vinícius




Assisti três vezes.

Juca Kfoury a respeito de Robinho...

"Robinho mais parece hoje em dia um triatleta que pedala, corre e...nada..."
Juca Kfoury.

Um dedinho da prosa de Rosa...

"[...] Do demo? Não gloso. Senhor pergunte aos moradores. Em falso receio, desfalam no nome dele - dizem só: o Que-diga. Vote! não... Quem muito se evita, se convive."

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Desespero

O desespero torna a alma asmática.

O tempo da música

Aí vai a diagnose de um mal que me aflige: não tenho tempo para só ouvir música. Ouço música enquanto faço outras coisas, enquanto me reparto em mil. Receio que cada vez mais um número menor de pessoas pode reservar algum momento do dia para ouvir os seus próprios espíritos mediante a experiência musical.

sábado, 5 de setembro de 2009

Resposta a Millôr

Comentário a respeito do texto "Pau neles, compadre!" de Millôr Fernandes que transcrevi na postagem anterior.

Qual o propósito de Millôr Fernandes ao reduzir a história humana à violência que os seres humanos infligem uns contra os outros? Parece que ele pretende nos convencer do equívoco da visão romântica que eventualmente tenhamos sobre nós mesmos. Então ele estaria tentando nos persuadir de que somos pela nossa própria natureza maus? Tudo me leva a crer que sim, afinal ele nos apresenta um desfile interminável de horrores (desfile que ele não parece lamentar); mostra-nos as páginas mais sanguinolentas da história e com isso possivelmente nos quer convencer de que definitivamente não prestamos.

Se de fato for essa a sua intenção, então ela é passível de crítica. Millôr Fernandes - qualquer um, aliás, - tem todo o direito de defender a sua concepção negativa a respeito do ser humano. Tal concepção, inclusive, é a mais fácil de sustentar devido à longa série de atrocidades e crimes praticados pelo homem contra o homem e que desde tempos imemoriais maculam a dignidade humana. Contudo, o ser humano não tem apenas semeado violência e colhido dor ao longo da história.

Mesmo que na balança da história o prato da violência pendesse mais que o do amor, não estaria com isso provada a maldade ontológica do ser humano, o qual realmente pode ser e é mau em muitos dos seus atos, mas não é, em essência, mau.

Só conhecemos o mal pelo bem e vice-versa. Se o ser humano fosse essencialmente mau, jamais nos indignaríamos com alguma maldade. Ao contrário disso, sempre que a violência campeia, irrompem imediatamente a indignação contra o mal e os atos que procuram anular os seus efeitos, como a solidariedade e o cuidado.

Mas se Millôr Fernandes está realmente convicto a respeito da maldade humana, aconselho àqueles que dele se aproximarem numa rua qualquer que tenham muito cuidado. Se o homem não presta, isto também é válido para o grande escritor.

Pau neles, compadre! - Millôr Fernandes

Transcrição de artigo de Millôr Fernandes publicado na Veja de 2 de setembro de 2009. Acima meu texto a respeito do de Millôr.

Pau neles, compadre!

Vocês, que continuam com visão româmntica do homem (atualmente chamado ser humano - como se fosse! - por imposição feminista), tirem o cavalinho idiota da chuva. Repito-me: o ser humano é um animal inviável. Em bando então, em grupo, em congressom em Congresso, na assim dita coletividade, a guerra é certa, escravizar o irmão tentação irresistível, o assalto ao mais fraco compulsivo. A milícia protetora cria o milico e feroz. A mais famosa fraternidade ainda é a de Caim.

A generosidade dura apenas - se - o tempo do primitivismo. Até o paleolítico o petecantropo só podia ser comunista. A carne apodrecia rapidamente (cheirava mal) e reparti-la era inevitável. No neolítico, quando se inventaram os vasilhames, o comunismo foi pro brejo, imenso, na época.

Deem uma leiturinha na história, deesde os horrores da Mesopotâmia - ressuscitados hoje, brilhantemente, por Saddam e Bush -, passando pela Grécia de sangueiras e traições transformadas em glóia e mito pelo tanlento homérico, passem pela impertérrita Inglaterra, cuja "revolução industrial" se alicerçou no tráfico de escraves e no saque (muito de nosso ouro, via Portugal). E nos Estados Unidos, esse gigante democrático, como foi? Perguntem a Búffalo Bill e ao general Custer, se não querem perguntar aos mexicanos. Ah, não se esqueçam de Hiroshima e Nagasaki. A Espanha, Deus do céu!; as touradas são apenas jogos infantis diante da sua colonização (Montezuma que o diga) nos quatro ou cinco cantos do mundo. E não vamos esquecer da Inquisição, Santa, aliás. A Holanda só não tem diques contra a própria e permanente cupidez. A Alemanha, pra só falar nos tempos atuais, inventou os campos de concentração, adotados rapidamente em todo o mundo democrático. Mas a revelação dos campodes de concentração é um fato pós-guerra. Se os alemães tivessem vencido, isso jamais apareceria e vocês iam ficar estarrecidos com os horrores aplicados pelos "nossos". Na Rússia da sempiterna crueldade, o homem sempre foi o lobo da estepe do homem. Quantas pessoas Stalin matou: dez, vinte, trinta, quarenta milhões? E os tzares? Foram uns querubins?

Dinamarca, os ingleses primitivos que o digam, Etiópia, onde há pouco mais de vinte anos os marxistas acabaram com uma das mais antigas aristocracias do mundo, Egito, aquele, dos Faraós, África do Sul, aquela, do Apartheid. E desçam pela América Central, revejam Incas, Maias e Astecas e constatem que esses povos, quando não estavam sendo violentados pelos europeus, estavam praticando as suas próprias barbaridades diuturnas em forma até de ritual sagrado. De violência em violência cheguem ao Brasil, esseoásis, antiga residência do homem cordial, atualmente pátria do bom selvagem, que vende as matas aos madereiros, explora os companheiros e, de vez em quando, como lazer, violenta uma branca distraída. No passado não foi pior apenas por incompetência - só inventou bordunas. Mas para que servem bordunas? Pra dar bordunadas.

Aos que acham que a violência do nosso tempo é maior do que jamais foi, devido ao excesso de população, estou parcialmente de acordo com eles. Não é só o excesso, é a concentração. Noutro dia fui andar na Avenida Copacabana e toda a superpopulação estava na rua.

E só existe um controle populacional infalível - a prosperidade. Portanto temos que acabar com a pobreza, de preferência eliminando os pobres. Pobre transa demais, gente!

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Velório

Lendo a respeito de mitos e ritos me dei conta de que o velório também é um rito de passagem. O sujeito velado passa da vida para a morte ou para outra forma de vida. Dependendo da fé, a passagem é, literalmente, dessa para uma melhor...

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Desigualdade e disparidade


Não devemos negar que a desigualdade entre os seres humanos é um fato. Há desigualdade em inúmeras esferas, como a intelectual, a de caráter, a de carisma etc. Tais desigualdades até podem justificar a desigualdade econômica, mas não podem jamais legitimar uma disparidade material exagerada. A desigualdade em todos os aspectos não pode ser abolida entre os seres humanos, enquanto que a miséria não pode tardar para ser extinta. O estado deplorável de miserabilidade não pode ser explicado pela incompetência dos indivíduos, mas pela crueldade da sociedade.