segunda-feira, 27 de julho de 2009

Prazer, Alegria, Felicidade

O prazer é um piscar de olhos da felicidade; a alegria, por sua vez, é um suspiro da felicidade.

Nietzsche

"Para ver uma coisa por completo, o homem precisa ter dois olhos, um do amor e outro do ódio"
Nietzsche
Fragmento 16 [53] - 1876

Será que devo comentar?

Variações de Secos e Molhados

Quem cativa minha alma cativa?

Solidão

Não há câncer mais cruel
Que a involuntária solidão.
É como um amplo e belo céu
Sem aves, sol, núvens, avião.

domingo, 26 de julho de 2009

Eu estrangeiro

Certa vez pisei em solo estrangeiro. Era um solo tão frio que me queimava o espírito. Meus passos naquela terra eram ainda mais trôpegos do que os usuais. Meus olhos vagavam em vão como uma pluma ao vento e nada de conhecido havia em que pudessem pousar. Meu nariz tentava sem sucesso sequestrar um odor conhecido, um cheiro reconfortante. Minha língua congelava, fazendo dos meus pensamentos blocos de pedras brancas. Minha pele não mais era a porta que me abria ao mundo, mas um muro, o invólucro circundante do não-ser em que me tornava. À beira da anulação, veio-me em socorro um anjo. Antes de me afogar no terrível Lago do Nada, fui salvo por esta entidade sobrenatural. Meus ouvidos se agarraram a ela como um náufrago se prende a uma bóia. Meus ouvidos me salvaram ao se agarrarem a uma palavra que repentinamente soou mais alto, palavra até vulgar, chã, suja, mas familiar.

Contrastes humanos

Um passeio público sujo com muitas poças de água imunda, muito papel, muita miséria. Pés apressados, vozes entrecortadas, multidão, barulho, confusão.

Nesse vórtice em que se remoe toda a bestialidade humana, um transeunte caminha como que alheado deste pandemônio em que está mergulhado. Sua face irradia vida. Sua mão esquerda carrega uma rosa; sua outra mão, dois anéis; sua mente, uma ilusão.

Equilíbrio humano

Em cada um de nós se conjuga em perfeita proporção o previsível e o surpreendente.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Controle

O desejo de tudo controlar pode ser um sintoma de uma absoluta ausência de controle sobre si mesmo.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Sirene

O que é o soar de uma sirene?
É um canto de ninar?
É a voz da morte?
É um atalho no trânsito
...
da vida?

Cinema

Desde a sua infância mais remota, quando sonham, todos os homens se exercitam na arte de criar roteiros. Até a sua morte, porém, apenas alguns revelar-se-ão exímios diretores; apenas alguns dominarão a técnica da lapidação da pedra bruta do sonho.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Conflito

No mais íntimo de cada homem há sempre um transgressor de mãos dadas com um juiz...

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Mito

Excerto extraído do livro "O poder do mito" de Joseph Campbell

A mitologia é a música. É a música da imaginação, inspirada nas energias do
corpo. Uma vez um mestre zen parou diante de seus discípulos, prestes a proferir um
sermão. No instante em que ele ia abrir a boca, um pássaro cantou. E ele disse: “O sermão já foi proferido”.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Man on Wire - O Equilibrista





O melhor filme que vi este ano...

Desabafo de uma rua

Carrego um peso pesadíssimo. Andam, correm, pulam sobre mim. Fogem, dançam, caem, arrastam-se sobre o que sou. Sou esteio e sou chão. Sou abrigo. Sou também via, passagem, caminho. Mas os pés sempre estão lá, nunca deixam de se apoiar sobre mim. Pisam-me o ser. Sou de todos. Todos me possuem, poucos me notam e ninguém me beija.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Paciência



Sou tão paciente quanto uma onda que urge para arrebentar.

terça-feira, 7 de julho de 2009

A palavra "saudade"

Quem nunca ouviu dizer que a palavra "saudade" é intraduzível? Não seria possível vertê-la para outros vernáculos porque, segundo se crê por aí, ela é prerrogativa exclusiva da língua portuguesa. Pode ser, vá lá... Mas isto não significa que dois indivíduos ao usarem a palavra "saudade" para expressar o que julgam sentir, representem exatamente a mesma disposição anímica. Isto tampouco significa que quem não usa a palavra "saudade" para traduzir para si mesmo e para o mundo exterior o seu estado psíquico não esteja representando simbolicamente algo assim como a saudade.




Fila


Todos têm um caminho e todos os caminhos começam com uma fila.

domingo, 5 de julho de 2009

Descomeço - Manoel de Barros

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é a voz do poeta, que é a voz
de fazer nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.

Manoel de Barros

Hamlet



O texto foi concebido para o teatro, sem dúvidas, mas creio que encená-lo é conspurcá-lo...

sábado, 4 de julho de 2009

Casa Blanca


Magnífico

Gnôthi Seauton

Gnôthi seauton (conhece-te a ti mesmo) era o dístico afixado na entrada do Oráculo de Delfos; era também a divisa dileta de alguns dos sábios mais excelsos da Antiguidade.

Confesso, no entanto, que peno para fazer o que a máxima recomenda. Peno, peno e o que colho é apenas malogro. Não sei o que me ocorre, mas quando direciono o meu olhar para mim mesmo sinto que a minha miopia agrava-se absurdamente, de modo que a minha percepção progressivamente vai se debilitando mais e mais na mesma medida em que me torno hipermetrope e astigmata.

Vezes há em que ao tentar ter de mim mesmo uma visão profunda, fico com a impressão de que me vejo num daqueles espelhos que nos deformam a figura. Minha tarefa nessas ocasiões é buscar, em vão, recompor-me.