quarta-feira, 29 de abril de 2009

A vencedora


Maria Sheila Bezerra da Silva, és uma das vencedoras na categoria artigo científico de alunos de pós-graduação.
Mereces muito este prêmio.
Tenho tanto orgulho de ti...
Te amo amando-te demais.

O concreto da minha cidade


O que há de concreto na minha cidade são as dores e as alegrias que nela vivi: não há cimento, ferro ou tijolo que se lhes comparem.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Estranha Criatura

Sou todo alegria,
Mesmo frustrado.
Sou todo agonia,
Mesmo logrado.

sábado, 25 de abril de 2009

Zumbi

Relutei um tanto antes de decidir contar o que a seguir contarei. Relutei porque o fato de que falarei - a vida de um homem pobre - parece prosaico demais, destituído de importância. Todavia, toda vida é digna de ser objeto de reflexão.

Desde pequeno registrei em minha memória a existência singular de um indivíduo intrigante. Em Boa Viagem, no ponto em que eu costumava esperar o coletivo quando deixava a escola e ia para casa, havia um senhor moreno, gordo, de cabelos assanhados, roupas sujas e amassadas a vender num tabuleiro amendoim, pipoca e outros petiscos. O curioso é que ele quase sempre estava dormindo. O tabuleiro ficava exposto, totalmente vulnerável e o seu dono permanecia dormindo num banquinho com o tronco curvado, como se todo o peso do tabuleiro lhe vergasse. Poucas vezes o vi acordado.

Uma certa tarde, quando voltava para casa depois da aula, tive um grande susto. Caminhando em direção à parada de ônibus, passava eu ao lado de uma árvore bem alta quando algo pesado despencou de cima dela: era o senhor que vendia amendoim. Ele estava dormindo sobre um galho que cedeu ao seu peso. Vi quando ele se levantou atordoado, mas ileso. Caiu sobre um carro que ficou ligeiramente amassado.

Guardei as imagens narradas acima durante muitos anos. Mas, com o tempo, elas deixaram de ser recorrentes; decerto porque eu não mais transitava com regularidade por aquele local em que costumava ver aquele senhor quase sempre a dormir.

Há uns quinze dias, quando voltava da praia com Sheila, ouvi uma voz bocejante dizendo: "ai que sono!". Olhei para trás e naquele instante exato vieram-me à mente, condensadas, a imagem atual e as imagens remotas daquele senhor desgrenhado e sonolento ao lado do seu velho tabuleiro.

Penso agora.

Que existência pesada a daquele homem! Parece um zumbi; parece não ter um lugar para repousar o corpo; parece errar interminavelmente pelos rios de asfalto desta cidade indiferente. Meu fardo não é leve, mas, comparado com o daquele homem, parece insignificante.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Passageiro


Peço licença àqueles que estão fartos de tanta coisa ruim e negativa para falar um pouco sobre as minhas experiências nos coletivos da cidade do Recife.
A rigor, essas experiências não são totalmente minhas, mas de uma multidão de indivíduos que utilizam esse serviço diariamente. São minhas apenas em parte ou a partir do momento que a minha subjetividade as interpreta ao seu modo.
Falarei de uma de tantas coisas sobre as quais poderia e espero falar no futuro, como da violência neste meio de transporte, violência que vitimou, semana passada, um amigo e também meu pai. Agora, no entanto, falarei apenas sobre um aspecto particular e dos mais intrigantes para mim.
Falo do caso das pessoas que sobem nos ônibus para ganhar algum dinheiro, quer pedindo, quer comerciando algo. O caso de que começo a falar é dos mais comuns nas grandes cidades. Falo com certa propriedade, pois além de espectador experiente, habituado demais a testemunhar eventos desta natureza, já fiz breves incursões pelos coletivos com a finalidade de ganhar um troco com a venda de incensos.
Minha experiência como vendedor ambulante em coletivos não foi das mais emocionantes, nem tão bem sucedida assim. Na verdade, foi efêmera. Mas vale um parágrafo.
Meu trabalho em ônibus remonta à época em que fui um devoto de Krishna. Eu estava desempregado naquele tempo (por volta de 2005 ou 2006, não me lembro bem) e me veio à mente a ideia de ganhar um troco do modo como muitos outros hares faziam e fazem: fui vender incensos. Eu não vendia apenas nos ônibus, na verdade eu quase não vendia nos ônibus. Eles continuavam sendo para mim um meio de transporte que me levavam ao ponto que escolhi para trabalhar. Poucas vezes me senti à vontade de oferecer o produto que vendia às pessoas que viajavam comigo e quando o fiz, eu o oferecia apenas a algumas poucas dessas pessoas. Eu tinha certa vergonha, o que não sentia na rua.
Um dia talvez eu escreva sobre o que vi e vivi vendendo incensos nas ruas do centro Recife. Agora, porém, quero incorporar o papel de usuário dos ônibus coletivos, quero incorporar o papel de cronista, "quero pegar da pena e castigar o papel".
Hoje cedo fui chamado de besta por uma cobradora de um dos tantos ônibus do Recife. Tudo isso porque dei duas moedinhas a um rapazinho de uns quinze anos aproximadamente. É, estou sendo infiel ao desenrolar dos fatos. Foi assim...
Eu ia para o belo Parque da Jaqueira e tinha ao meu lado a não menos bela Sheilinha. Conversávamos entretidos em não sei o quê. Subiu, pela porta traseira, o mancebo. Pediu-nos um trocado com toda a polidez que lhe era possível, ou seja, praticamente nos ameaçando. Dei-lhe vinte centavos. Ele recolheu mais algumas moedas de outros passageiros e gritou: "abre aí motô". Foi prontamente atendido. Antes de descer, todavia, teve tempo de atender o seu celular. Pude ver-lhe as feições logo após ter descido do transporte público e juro que ele falava e gesticulava com uma desenvoltura típica de pessoas bem posicionadas na sociedade.
"E tem besta que ainda dá!". Se não foi isso, foi quase isso que a cobradora falou. Ri interiormente de mim mesmo. Quer dizer, não sei o porquê do meu riso, mas ri e relevei, no momento, só no momento, pois cá estou eu agora a relatar o que se passou. E se relato é porque não relevei embora não consiga até agora expressar exatamente o que senti e o que sinto.
Não é a primeira vez que algo do tipo acontece comigo. Para falar a verdade, nem de longe experiências desse tipo são as mais marcantes que vivi nos coletivos do Recife. Já vi tanta coisa... Contudo, quero falar um pouco mais sobre isto, relatando brevemente outros dois casos semelhantes. Não. Relatarei só mais um caso. Tenho de aprender a lidar com o meu jeito prolixo de ser.
Pensando bem, para cumprir o que a mim mesmo instituí e exercitar a arte da concisão, não direi mais o que pretendia dizer, direi apenas que costumo acreditar nas mais toscas dramatizações que acontecem nos ônibus. Sempre escuto piadinhas de outros passageiros ou do cobrador que denunciam a minha ingenuidade (prefiro crer que se trata de boa-fé!).
Encerro, por ora, então, o relato dos meus causos de interior... de ônibus.






domingo, 19 de abril de 2009

O Cavaleiro Inexistente


Está ficando comum, mas não posso não recomendar o que gosto a quem gosta de mim.

Balbucio



O desejo de ver cada coisa o tempo todo no seu devido lugar oblitera a capacidade do indivíduo de ver o seu lugar devido, qual seja, o de rapace de elementos do caos e de artesão de imagens para o cosmo.

Pode ser diferente? Deve ser... Mas não nos é possível nesta matéria senão especular e desejar num afã desesperado que nossos eternos balbucios acabem por nos convencer de que o que ansiamos é a excelsa maravilha.

O desejo por uma pátria idílica na qual é e será possível fazer repousar as dúvidas e inquietações de toda ordem não assegura que a mesma seja um lugar efetivamente real.

A necessidade por uma terra da certeza em que o branco é branco e o preto é preto e nunca de outro modo e sempre em prefeita harmonia esconde uma insegurança indigna de louvor, já que ela - a insegurança - se pretende fazer passar por uma sábia senhora segura de cada palavra que lhe sai da boca.

A inexorabilidade do erro advém da natureza débil e melindrosa do nosso intelecto, assim como a necessidade da verdade também é oriunda desta mesma natureza débil e melindrosa do nosso pensamento. Se essa afirmação tropeça em si mesma é porque ela ama a coerência de desdizer-se e a contradição de coerir-se.

Ideia e mundo não são absolutamente estranhos a ponto de não se relacionarem de alguma forma, mas disso não deriva a necessidade de o oposto ser verdade: pensamento e realidade não coincidem absolutamente a ponto de o dizer ser algo além do que a representação da coisa dita. Desta situação sui generis decorre, em adição à razão acima apresentada, a necessidade do erro e da contradição. Erro e contradição, aliás, que construíram coisas abomináveis e admiráveis em nossa história.

Nem todas as pessoas concordam com o que foi dito acima. Isto é um indício de que nossos intelectos são confusos, débeis e contraditórios. Não é indício, porém, de que a malfadada concepção maniqueísta tem necessariamente razão, não significa que uns (ou a maioria) são tolos ignorantes responsáveis por todas as mazelas mundanas e outros (bem poucos) são os iluminados e virtuosos sábios capazes de pingar uma gota de lenitivo na ferida aberta que julgam ser o mundo.










sábado, 18 de abril de 2009

Convicção

Um certo guru de qual luto para desgarrar-me disse com as suas próprias palavras que a convicção e a certeza são meros sentimentos e não podem ser, por essa razão, argumentos em prol da verdade. Estar convicto a respeito da natureza de algo só prova verdadeiramente uma coisa: que se está convicto e nada mais...

sábado, 11 de abril de 2009

Guias




Estou absolutamente farto

De todos os grandes guias.

Não me incomodo: parto

E sigo por tortuosas vias.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Sugestão: Os Girassóis da Rússia


Nem sempre consigo dizer o porquê de algo me ter feito bem ou mal. É o caso deste filme de Vittorio de Sica que recomendo peremptoriamente por me ter feito bem demais.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

no escape

between a word and other
i go through nowhere.
i left father and mother
i´m lost in a close square.

love

don´t go away from my mind
i got to got ya with me all time
otherwise i'm gonna find
or fall down in the last line.

i need no mercy

sometimes i wish i could get out of this messy
sometimes i feel i have something to add
but i won´t ask again for any mercy
to any god or government. i need no aid.

Ego

Há mesmo algo
Entre um desejo
E outro: Meu ego,
Pequeno lampejo.

domingo, 5 de abril de 2009

A terapia de um domingo à noite

Terapia é ter a pia
Suja depois do jantar.
As roupas amassadas
E ainda por passar.

Outro mundo

Ontem à noite, numa praça que atualmente está muito bela devido à reforma recente por que passou, a Praça do Derby, vi dois homens num banco, um apoiava a cabeça no colo do outro. Entre afagos gentis, conversavam, riam e... pareciam felizes naquela esquina da Terra, naquele pedacinho do Tempo.
Um desses rapazes me viu e se assustou um pouco quando deles me aproximei. Fiquei constrangido, confesso. Não por eles, mas por mim mesmo: constrangido por não ter cogitado verdadeiramente que um dia presenciaria uma cena como aquela e que a ela reagiria com a "naturalidade" do respeito; constrangido por saber que a minha figura representou uma ameaça ao bem-estar alheio, bem-estar que não me causava mal-estar algum, a não ser...
A não ser por mim mesmo. O mal-estar e o constrangimento que senti tinham como substrato os meus próprios preconceitos. Os rapazes não faziam nada de diferente que um casal apaixonado costuma fazer, não me ameaçavam, portanto. Seus gestos, como disse, eram carinhosos e como tais devem ser louvados e incentivados, mas jamais recriminados. Carinho, cuidado, respeito, atenção é tudo o que precisamos.
É verdade que ninguém é obrigado a gostar de ver dois homens ou duas mulheres de mãos dadas, beijando-se carinhosamente. Mas ninguém deveria ser obrigado a ocultar seus gestos de carinho e de amor para com outrem porque há quem se sinta afetado negativamente por isso.

Boas Maneiras

Desde um tempo para cá, desde que Sheila apareceu em minha vida há pouco mais de dois anos e meio, para ser preciso, venho adquirindo uma percepção inusitada dos acontecimentos de um evento quase que banal. Percebo-o diferentemente graças às conversas que tive com Sheila. Se ela não abrisse a boca para reclamar e para me educar, certamente tudo estaria igual.
Estranha-me mesmo o fato de a mulher ser tratada como um mero apêndice do homem numa mesa de um bar ou na de um restaurante. Na absoluta maioria das vezes que saímos para jantar, os funcionários desses estabelecimentos se dirigem apenas a mim, quer para ouvir o que desejamos comer, quer para entregar-me a conta ou mesmo, pasmem, desejar um "boa noite". Tudo costuma acontecer como se a presença de Sheila - a mulher - fosse inexpressiva, ou melhor (dizendo), como se ela não existisse.
Com que espanto reagem alguns desses garçons quando Sheila paga a conta! Parece-me que isso - a mulher pagar a conta - não é mais algo tão incomum nos dias atuais, mas mesmo assim eles insistem no procedimento de descondideração, mais que isso, de desrespeito para com as mulheres.
Há, é verdade, uma penca de mulheres que não se incomodam com isso. Porém, se não se incomodam é porque sequer conseguem perceber-se desprestigiadas. Engolem o engodo das boas maneiras, da cortesia e demais látegos sutis.
A mim não me parece haver maior demonstração de boa educação que a de tratar com deferência equilibrada os outros e as outras.

Meu peito

Às vezes minha dor é tão dorida, que chego a crer que o coração do mundo bate em meu peito.

Corrida

Se buscássemos nas modalidades esportivas alguma que se comparasse com a vida, é provável que a corrida se prestasse muito bem a esse cotejamento (e é possível que outros ainda servissem). A peculiaridade da vida é que nem sempre sabemos a extensão desta corrida: trata-se de uma prova de quantos metros, afinal? Tampouco sabemos, embora suspeitemos, da nossa real posição nessa disputa que travamos com o nosso próprio corpo.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

De filho para pai

Hoje cedo, num noticiário de grande audiência, foi exibida uma reportagem muito bonita sobre torcedores de futebol, torcedores mirins, na verdade. A grande questão em pauta na referida reportagem era: “como escolhemos um time?”. Várias suposições foram aventadas, mas, a mais recorrente foi a de que tendemos a adotar o time de alguém que admiramos muito na infância, geralmente nossos pais. Talvez isto explique muitos casos, porém outros tantos há que escapolem ao pressuposto básico desta hipótese. O fato é que há algo de mágico na relação entre um torcedor e o seu time estimado e, por conta deste elemento mágico ou do imaginário profundo, paira um grande mistério sobre a lógica de funcionamento da mente de um torcedor enamorado por um time. Há qualquer coisa de inefável nisso tudo (é possível que sociólogos ou outros acadêmicos discordem daquilo que afirmei e reduzam o fenômeno à uma fórmula simples, talvez até calhe a famigerada “pão e circo”!).
Bem, o que quero mesmo é relatar uma historieta a mim relatada por meu pai, cujo protagonista sou eu mesmo, embora na ocasião eu fosse apenas um infante. Eis a breve narrativa do fato: um dia, quando eu tinha uns nove anos de idade, mais ou menos, recém convertido ao Sport, aproximei-me de meu pai e lhe disse. “Você agora é Santa Cruz. Quero alguém pra torcer contra o meu time”.
Como não me lembrasse de ter por decreto declarado meu pai tricolor, cresci ouvindo-o dizer-se torcedor do Santa Cruz. Eu não compreendia aquilo, afinal não consigo imaginar ninguém mais avesso ao futebol que o meu pai. Tenho algumas fortes imagens na memória que me induzem a pensar assim: levou-me à Ilha do Retiro e mesmo ao Arruda algumas vezes, mas não prestava atenção aos jogos, preferia ler o jornal e beber a sua cervejinha. Outro caso: dormiu durante os jogos do Brasil na Copa de 1994, inclusive na grande final.
Minha história talvez sirva para mostrar que a hipótese, para alguns uma tese comprovada, de que os pais determinam a paixão dos filhos por um time não é necessariamente verdadeira. No meu caso, determinei, não diria a paixão, mas a simpatia do meu pai pelo tricolor do Arruda. O caminho foi inverso, duas vezes: além de a influência ter sido de filho para pai, foi de um time para outro. Hoje, certamente, tentaria convencê-lo da conveniência de ser rubro-negro: festejamos mais do que qualquer outro time nordestino.