segunda-feira, 30 de março de 2009

Sugestão


Entre os muros da escola. Sem comentários!

Sono

O Sono é o senhor dos sequestradores. Quando resolve agir, por mais que às vezes demore a dar o ar de sua graça, age de modo tão sorrateiro que nunca percebemos o instante exato em que dá o bote e nos leva embora a consciência.

sábado, 28 de março de 2009

Jogar conversa fora

“Jogar conversa fora”, ao pé da letra, significa ter uma conversa despropositada , casual e sem um fim prático em vista. Mas, para mim, não há conversação mais salutar, agradável e importante do que aquela em que jogo conversa fora ao lado de uma pessoa querida.

Ps: “Ao pé da letra” é uma estranha expressão de caráter metafórico usada para salientar que não se deve compreender uma outra expressão de modo metafórico.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Responsabilidade x irresponsabilidade: pequeno ensaio acerca da violência banalizada.

Não sou um moralista inveterado e quem me conhece pode dar o aval acerca do que digo. No entanto, há assuntos que exigem de mim (e de todos) um pronunciamento enérgico e, no caso específico ao qual farei referência, não é razoável outro posicionamento senão o de repúdio absoluto. De que se trata?

Da difusão do jogo de video game de origem japonesa (Rapelay) no qual o jogador, para cumprir o seu objetivo, tem de estuprar uma mulher e duas meninas.

A banalização da violência e mais especificamente da violência contra as mulheres e contra as crianças atinge com o tal jogo o cume absoluto e com isso ultrapassa qualquer limite de perversidade. Quantas mentes doentias! Algumas para projetar, outras para investir, outras ainda para difundir via comércio e, no fim deste ciclo infernal, outras tantas para consumir e deliciar-se com as cenas terríveis do jogo.

Como categorizar a mente de alguém que de algum modo patrocina práticas tão terríveis senão com o conceito de “doente”? É isso: alguém que fomenta a violência degradante só pode ser um doente. Mas será mesmo?

O termo “doente” sugere ausência de responsabilidade por parte de um infrator, o qual, para eximir-se da culpa, pode alegar em sua defesa que a condição de doente lhe impossibilita desenvolver o controle necessário sobre os seus atos. Ou seja, o doente seria irresponsável tanto no plano moral quanto no âmbito legal.

Por isso, sugiro a todos a prudência de não tratar alguém que incorreu num crime desta natureza como doente, a menos que esteja seguro do juízo que faz (o que não garante a veracidade da opinião).

Proponho também que não enfatizemos um dos sentidos do termo “irresponsabilidade” (e, conseqüentemente, do seu derivado: “irresponsável”).

Uma das formas pela qual compreendemos vulgarmente a referida palavra é, num exemplo, a de quem não precisa prestar contas daquilo que faz: por ser doente, não pode não fazer o que faz. Não pode decidir, escolher, em resumo, não tem livre arbítrio e, por esta razão, é completamente refém dos seus ímpetos e arroubos nefastos.

Qual o sentido que devemos ressaltar, então?

Irresponsável é qualquer criminoso comum justamente condenado, mas também é qualquer cidadão (qualquer homem de bem!) injustamente impune. Portanto, irresponsável pode ser também aquele que se exime de fazer o que deve fazer ou que faz o que deveria evitar fazer. Mais do que isto: irresponsável é aquele que, deliberadamente, faz ou deixa de fazer o que a obrigação lhe impõe. Irresponsável é o transgressor consciente e não acidental de uma regra de valor inquestionável segundo o bom senso. Neste sentido, o irresponsável responde pelos seus atos. Ele é irresponsável porque poderia não sê-lo. É, portanto, culpável.

O irresponsável que de alguma forma contribui para a propagação do referido jogo não pode ser qualificado como doente. Não pode porque normalmente os doentes deste tipo não rasgam dinheiro nem jogam as moedas fora. Quem é são para contar e fazer dinheiro se multiplicar, não pode ser doente para outras coisas...

Slumdog Millionaire


Algumas palavras acerca de "Quem quer ser um milionário?". Se você, leitor virtual, ainda não viu o filme, não leia o meu texto.

Bom filme. Na verdade, na escala hierárquica dos adjetivos recomendada pelo meu Inmetro, ele me parece ser mais do que simplesmente bom e menos do que absolutamente excelente. Em suma, vale a pena (que é o ingresso caro) vê-lo na telona.

Vale a pena porque o Bem, no final, triunfa sobre o Mal. O feijão com arroz, essa fórmula antiga e tão nutritiva preparada pelos enlatados, se não mata, fortalece... Enfim, é possível perseverar na esperança. Se não está tudo bem, é porque o fim ainda não chegou...

Vale a pena também porque o filme é um passeio de trem por uma Índia que não passa na novela das oito. Vale ressaltar que os trens da índia são superlotados (talvez por isso Sheila tenha ficado nauseada).

Ainda vale a pena ver o filme porque ele é envolvente (o que não diz muita coisa). Envolvente porque ele faz com que nos ocorra, ao mesmo tempo, uma série extensa de sentimentos. É bem verdade que isto é já quase vulgar na sétima arte. De todo modo, nunca é demais sentir-se receoso, esperançoso, eufórico, enraivecido e outras tantas coisas concamitantemente. Qual a finalidade de buscar esse tipo de experiência? É possível que para uns, e talvez eu me inclua neste grupo, a película os ajude a (ir)romper (d)o letárgico compasso da vida. Bem, não sei se esta resposta satisfaz, mas o que me importa, e deveria importar aos meus leitores virtuais, é que o filme satisfaz de alguma maneira misteriosa a muita gente (sei que isso não é argumento, mas parece ser verdadeiro pelo menos para mim, arremedo de crítico!).

Mas não falei quase nada do filme. Nem o farei. Afinal, escrevo para quem o assistiu. Não vou desfiar o enredo para quem já o conhece. Mas pergunto para os tais espectadores, caros leitores meus: se Jamal tivesse errado a última pergunta, o filme teria sido tão agraciado na cerimônia do Oscar? Teria sido sequer indicado para concorrer a um prêmio que fosse em Hollywood? Eu confesso que não sei a resposta. Entendo pouco de cinema e ainda menos de realidades hipotéticas. Mas os leitores podem ser mais perspicazes do que eu...

Outra coisa digna de nota é a dança no final do filme. Já ouvi dizer que ela é uma lei, por paradoxal que pareça, consuetudinária nos cânones do cinema indiano. Isto me fez pensar que eu jamais poderia ser um astro de Bollywood.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Um filho

Hoje cedinho, na famosa e formosa praia de Boa Viagem, refrescava-me eu, em pé, com um côco em minhas mãos e Sheila ao meu lado. Estávamos diante do mar. De repente, aproximou-se de nós um rapaz que vendia óculos escuros. Pensei, de imediato e equivocadamente, que ele me ofereceria um dos óculos do seu mostruário. Nem o deixei falar, recusei com um aceno. Mas mesmo assim ele falou. Disse-me: "De longe eu vi uma criança nos seus braços, mas agora só vejo um côco. Acho que foi uma visão". Falou e foi embora, orgulhoso como um profeta! Na hora só me lembrei da música de Raul Seixas: "Quem não tem colírio, usa óculos escuros"!

quarta-feira, 18 de março de 2009

Criacionismo(s) x evolucionismo: algumas informações e algumas reflexões


O criacionismo é a ideia segundo a qual a vida em geral e em cada manifestação singular teria sido criada por Deus. O criacionismo se desdobra em duas vertentes. Apresentemos, inicialmente, a sua versão tradicional ou clássica.
O criacionismo clássico interpreta de modo literal a narrativa bíblica do livro do Gênesis e, por esta razão, crê que o surgimento da vida não se deu há mais de 10.000 anos. Além disso, para o criacionismo clássico, todas as formas de vida, quando criadas do nada por Deus, já tinham as mesmas características que apresentam atualmente. Ele nega, portanto, a possibilidade de ter havido qualquer forma de evolução: nenhuma espécie teria se desenvolvido a partir de outra mais originária e menos complexa. Por fim, faz parte das crenças criacionistas a ideia de que o homem é o centro de toda a criação divina (ele haveria sido feito à imagem e semelhança de Deus).
A outra vertente criacionista (neocriacionismo) é conhecida como Designer Inteligente (ou ainda como Planejamento Inteligente). Esta corrente vem adquirindo notoriedade desde o início do século XIX quando o inglês William Paley publicou a obra “Teologia Natural” (1802). A tese fundamental do livro é a de que a existência da vida inteligente pressupõe necessariamente a existência de uma inteligência superior que a houvesse projetado, assim como a existência de um relógio requer a de um relojoeiro. Atualmente, o neocriacionismo cresce principalmente nos EUA. Alguns de seus principais defensores são cientistas que tentam conciliar a fé com a razão.
Um expoente do neocriacionismo é o professor universitário estadudinense Michael Behe. Foi ele, inclusive, quem cunhou a expressão Designer Inteligente. A originalidade do neocriacionismo não reside tanto na defesa da existência de uma Mente Suprema cuja inteligência teria projetado (ou criado) toda a realidade, da qual faz parte, obviamente, a vida (Tomás de Aquino, no século XIII, desenvolveu um argumento semelhante a este; Aristóteles, no século IV a.C., dizia que uma coisa que existe precisa ter, dentre outras, duas causa: uma final, isto é, uma finalidade, tem que existir para alguma coisa, e ainda, uma causa eficiente, ou seja, deve provir de algo ou de alguém que o concebeu com vistas a uma finalidade). O que há de novo, então, nesta teoria? A síntese ou a articulação entre ciência e religião, já que é por meio de interpretações de dados científicos que Behe e outros tentarão argumentar em favor da existência do Designer ou do Projetista superior. Exemplo deste tipo de argumentação: a complexa estrutura da íris e do cérebro dos seres humanos exige a existência de algo como uma inteligência criadora, ordenadora e sobrenatural.
Mas essa teoria não apenas afirma que deve haver um Projetista Universal. Além disso, ela tenta refutar a Teoria da Evolução das Espécies tal como formulada por Charles Darwin. Um dos pontos centrais do pensamento de Darwin afirma que todas as espécies de vida se originaram de um único e mesmo ancestral (o qual, segundo dados das ciências contemporâneas, supostamente viveu há alguns bilhões de anos).
Esse gigantesco período de tempo não assusta nem incomoda os defensores da Teoria do Designer Inteligente, porque eles não são literalistas, isto é, não tomam o Gênesis de modo literal, mas alegórico. No entanto, os criacionistas tradicionais (e há muitos deles no mundo) discordam totalmente das datações mais remotas do surgimento da vida, segundo as ciências. O que mais lhes incomoda é a hipótese de que a evolução das espécies tenha realmente ocorrido. Não lhes parece plausível que seres altamente complexos (como nós, os homo sapiens) evoluíram desde outros seres de constituição fisiológica extremamente rudimentar.
Uma das tantas formas pelas quais a Teoria do Designer Inteligente procura repudiar a Teoria da Evolução das Espécies é por meio do que Michael Behe chamou de Complexidade Irredutível. Em linhas gerais, isto significa que estruturas orgânicas altamente complexas não poderiam ter se originado a partir de outras estruturas de caráter mais simples. Para provar esta tese, afirmam o seguinte: qualquer estrutura orgânica complexa não pode jamais prescindir de nenhum dos seus elementos constitutivos sob risco de que toda a estrutura sofra e deixe de funcionar. Se for suprimida uma parte ou inativado um componente ou princípio da medula ou do sistema imunológico, por exemplo, toda a estrutura sofrerá danos severos, talvez mesmo irreversíveis e fatais. Como conceber, então, que estruturas orgânicas de alta complexidade tenham uma vez existido se para existirem precisam ser exatamente como são? Ou ainda: como seria possível que uma vasta gama de estruturas complexas tenham convergido, simultaneamente, numa evolução que resultaria na vida humana?
Claro está, para os fautores do neocriacionismo, que as perguntas acima são aporias insolúveis para os adeptos da Teoria da Evolução. Todavia, estes últimos, munidos de conhecimentos oriundos dos estudos genéticos, redarguem e a discussão adquire, conseguintemente, um aspecto eminentemente técnico que não convém aqui abordar.
Em suma, a ideia do neocriacionismo é a de que a ordem e a harmonia (cosmos) não podem provir senão de uma ordem e harmonia prévia. Os partidários da Teoria do Designer Inteligente diriam que seria um ilogismo gigantesco imaginar que o cosmos deriva do caos, a ordem da desordem (ou que a evolução ocorre aleatoriamente ou ao sabor das sempre imprevisíveis mutações genéticas). A título ilustrativo, admitir que a hipótese anterior é pertinente, é o mesmo que supor que uma bomba deflagrada numa antiga tipografia (com tipos móveis) geraria, após a explosão, um ordenamento tão perfeito das letras que estaria gerada neste instante uma obra literária de excelso e sublime valor artístico. Ou seja, a probabilidade seria irrisória.
Mas esses argumentos dos neocriacionistas não parecem ser irrefutáveis para aqueles que professam a Teoria da Evolução das Espécies (para estes últimos, o neocriacionismo é pseudocientífico). Em primeiro lugar, eles asseguram que o processo evolutivo não é tão casual como acusam os seus críticos. Sim, há uma parte casual, aleatória, neste processo (a mutação genética), mas que apenas é fixada e transmitida se as condições de interação entre os indivíduos de uma espécie e o ambiente forem “harmônicas”. Não é por acaso que a teoria também é chamada de “seleção natural”. Qualquer traço de ordem na natureza seria resultante de uma ordem autoestabelecida pela própria natureza e jamais, portanto, uma seleção sobrenatural.
Em segundo lugar, é possível questionar se há mesmo uma ordem na natureza tal como afirmam os neocriacionistas. De fato, seria sandice negar que há uma certa ordem na natureza, de outro modo mal seríamos capazes de transformá-la e, além disso, viveríamos num constante torpor no qual ninguém seria capaz de distinguir sequer a si mesmo. O problema crucial é saber até onde vão os limites desta ordem, desta harmonia. Exemplificando: por que aproximadamente 90 % das espécies vivas do planeta Terra já se extinguiram? Ou ainda: seria a natureza dotada de um caráter ético? E os tsunamis e os cataclismos em geral seriam expressão de uma ordem subjacente à estrutura ordenada da realidade? Que ordem seria essa? Que Designer Inteligente é esse que não pode ou não quer evitar toda a desordem que sempre está, ameaçadoramente, à espreita.
Em terceiro lugar, dizem os adversários do neocriacionismo, nada há que autorize a inferir que o Designer Inteligente, na eventualidade de sua existência ser efetiva, é o Deus judaico-cristão. Isto é um salto lógico arriscado, perigoso. O Designer Inteligente não precisaria estar além da sua obra criada, além da natureza (ser um ser sobrenatural). Ele não poderia ser, a um só tempo, a própria natureza e o Designer Inteligente, o designer de si mesmo?
Finalmente, é oportuno evocar o filósofo alemão Immanuel Kant, para quem, conhecer Deus (assim como conhecemos os objetos científicos) está para além das possibilidades da razão, o que não implica na inexistência de Deus (o próprio Kant, aliás, era muito religioso). A relação de um indivíduo com Deus seria, consoante esta ideia, mediada pela fé e não pela razão [1].
Ou seja, o (Neo)Criacionismo e a Teoria da Evolução das Espécies se antagonizam enormemente, de tal modo que quem toma uma das linhas explicativas como verdadeira ou mais coerente tende a desconsiderar o valor da outra. Bem, isso é quase sempre válido. Quase sempre porque há ainda uma terceira forma de abordar a questão da origem da vida. A terceira via, em resumo, sintetiza as duas posições extremadas, daí ser conhecida como Evolucionismo Teísta [2]. Para este grupo de estudiosos, a evolução das espécies é um fato, porém um fato que foi arquitetado pelo Poder Divino: o processo evolutivo estaria, em última instância, sob o controle de Deus.
O que importa ressaltar é que ciência e religião não precisam ser necessariamente antípodas. Há inúmeros exemplos de grandes cientistas (como Copérnico, Newton e Einstein) que tinham fé na existência de Deus. Naturalmente, essa conciliação só é possível na medida em que os textos sagrados não são lidos de modo muito estrito, literal, naquilo que diz respeito à origem da vida. Pareceu ser esta a postura do Papa João Paulo II quando afirmou que a Teoria da Evolução é bem mais do que uma simples teoria (1996) e, além disso, que não seria papel da Igreja Católica ou de qualquer outra explicar como o céu foi criado, mas elevar os indivíduos até o mesmo.



[1] À guisa de curiosidade, e talvez para polemizar, é conveniente apresentar a definição de fé do filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard: “a fé é um passo no escuro”.
[2] Um exemplo de cientista que advoga em favor desta síntese é o do renomado geneticista Francis Collins que publicou há alguns anos o livro A linguagem de Deus: um cientista apresenta evidências de que Ele existe.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Se um se...

Veja bem: se um se fosse
Mesmo algo concreto assim
Como uma grande foice,
A revolução começaria por mim.

Fome

Na cidade não há fome?
Só se não houver homem...
Se houver, uns comem
E outros morrem.

lapso

na terra da fartura
farei jejum dia e noite
lembrando das duras
horas à beira da morte.