sábado, 28 de fevereiro de 2009

A Pergunta


Mal aprendemos a falar e já bombardeamos os outros como uma série enorme de perguntas. Isso é bom e inevitável. Quando perguntamos algo a alguém ou a nós mesmos, estamos desejando saber mais e saber mais é sempre bom. Mas por que será que a pergunta é inevitável?
Perguntamos porque somos incompletos, isto é, somos finitos. Não somos seres que já sabem de tudo. Se soubéssemos de tudo, não precisaríamos perguntar nada e, na verdade, não precisaríamos nem mesmo falar com os outros, porque já seríamos completos sabedores, seríamos verdadeiramente sábios.
Todavia, como não somos sábios, mas finitos e incompletos, precisamos suprir muitas lacunas com conhecimento e por causa disso perguntamos. Perguntar não é uma opção. Não podemos evitar isso. É claro que às vezes não nos convém perguntar isso ou aquilo num momento específico, mas inevitavelmente temos que perguntar outras coisas em outros momentos.
Perguntar é expressar por meio da linguagem uma dúvida. E linguagem, aqui, deve ser compreendida de um modo bem amplo: linguagem não apenas oral ou escrita, mas também gestual, facial. Às vezes perguntamos com um franzir de sobrancelhas e sem nenhuma palavra. Com este gesto, deixamos claro para o nosso interlocutor que nem tudo está claro para nós e que temos, portanto, uma dúvida.
Perguntar é o modo de ser específico dos seres humanos. Isto quer dizer que é o ato de perguntar que nos torna humanos no sentido forte da palavra. Ou será que os animais também fazem perguntas? É claro que não, embora eles também sejam seres finitos e incompletos. A grande diferença entre nós, os seres humanos, e os animais é que estes não desejam expandir e aperfeiçoar as suas habilidades e capacidades como nós o fazemos geralmente por meio de perguntas.
A pergunta é a mola propulsora (ou o trampolim) que nos impulsiona nas pesquisas das mais variadas áreas de conhecimento. É tentando responder a algumas perguntas que toda a ciência se desenvolve. E com a filosofia se passa o mesmo. A pergunta (que é sempre a expressão de uma dúvida) é a chave para filosofar.
Mas quando uma pergunta é filosófica? Quando ela busca o sentido profundo nas coisas, quando ela quer conhecer a essência de algo. Uma característica interessante de uma pergunta filosófica é que ela normalmente não admite uma única resposta (o que não quer dizer que ela admita todas as respostas possíveis). A pergunta filosófica é tão radical que uma resposta jamais esgota a possibilidade de outras que a complementam, que a enriquecem. Exemplo disto é a clássica pergunta: “quem somos nós?”.







A Reflexão


A palavra “reflexão” vem do latim e significava originalmente, segundo o dicionário Aurélio, “ação de voltar para trás, de virar”. Com toda razão, usamos muitas vezes, no nosso cotidiano, esta palavra no sentido de “pensamento”. Quando alguém desenvolve uma reflexão sobre algo é porque está pensando sobre um tema.
A atitude reflexiva é fundamental para o desenvolvimento da filosofia. Poderíamos dizer sem nenhum exagero que a filosofia é filha da reflexão. Ou seja, não haveria filosofia sem reflexão. Mas, em filosofia, a reflexão pode acontecer de um modo bastante curioso e incomum: ela pode se manifestar como reflexão sobre a reflexão, isto é, como o pensamento sobre o próprio pensamento. Como assim?
A reflexão filosófica ocorre realmente quando pensamos sobre os nossos próprios pensamentos e idéias. Um exemplo: quando desejamos saber o porquê de termos a tendência a temer tudo aquilo que é estranho, estamos nos fazendo um questionamento filosófico. Ao nos perguntarmos sobre o motivo de termos este sentimento, estamos refletindo a respeito de uma idéia e, com isso, pensamos filosoficamente.
Outro exemplo de uma reflexão filosófica: perguntar a respeito da veracidade de um pensamento aceito por todos. Em outras palavras, pensa filosoficamente todo aquele que se pergunta se o que a maioria das pessoas acredita faz sentido mesmo. A título de ilustração, lembremo-nos daquele pensamento terrível que até bem pouco tempo era bastante difundido em nosso país, mas que felizmente vem perdendo força. Estamos falando daquele pensamento que defendia a inferioridade das mulheres em relação aos homens. A pergunta sincera e honesta a respeito da verdade deste pensamento é uma pergunta de caráter filosófico. Além disso, também é uma reflexão filosófica desejar saber a razão que fez este pensamento discriminatório surgir.
Se pensarmos bem, veremos que a reflexão tem uma fortíssima relação com um aspecto bastante importante de nossas vidas. Trata-se do desejo que temos de construir a nossa liberdade. Afinal, somente podemos pretender ser livres se exercitarmos as nossas capacidades de optar, de escolher e de decidir. Precisamos refletir com cuidado antes de tomarmos uma decisão. Se não refletimos, não decidimos e apenas fazemos o que os outros nos dizem (como os computadores e as máquinas em geral) ou seguimos as imposições dos nossos instintos (como os animais). Sem reflexão não há decisão, e sem decisão não há liberdade. A reflexão, portanto, deve ser exercitada a todo instante, e é justamente este o propósito da filosofia.





Apenas um conto

Não se esqueceu de convidar quem estimava verdadeiramente. Somente dois não compareceram, talvez por não saberem do que se tratava. Lá pelas tantas, anunciou: “Amigos, obrigado por terem vindo. Revelo agora a razão desta festa que muitos crêem que seja intempestiva. De fato, por ora não celebro bodas com a vida, mas festejo hoje para anunciar-lhes, caros amigos, o fim de uma união que se estendeu por um pouco mais de trinta anos. Decidi pôr um fim neste consórcio que tenho eu cá com a vida. Estou satisfeito. Vi e vivi quase sempre bem e por isso não tenho do que me reclamar. Vocês foram maravilhosos e fizeram de mim um homem de sorte, mas infelizmente não posso garantir que os guardarei na lembrança. Bem, adeus!” O assombro foi geral: a bala atravessou-lhe o crânio.

Versinho down

Mais um versinho down. Versinho insosso nascido numa manhã chuvosa.


Morro hoje ou amanhã?
Que me importa?
A vida segue torta
Desde o berço até as cãs.

Ser

Amar o amor
Que brota de mim
Alivia a dor
Que não tem fim.

A dor de ser
E não suspeitar,
Pensar ou saber
O que significa ser.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Chave e/ou cadeia

Há casos em que uma idéia se mostra como uma espécie de chave. Por seu intermédio somos capazes de adentrar em espaços jamais imaginados. Por outro lado, casos há em que uma idéia funciona como cadeias: de tal modo nos detêm que sequer suspeitamos da nossa situação de cativos.

Fotografia

A fotografia é um barco que segue contra a correnteza. Seu destino é lutar contra o tempo e capturar-lhe o instante fugidio. Mas não somente isto: é preservar e fazer viver, no futuro, o instante que abandonado a si mesmo infalivelmente sumiria.

Vida rica

Tão rica a vida é, tão repleta de instantes variegados e inusitados, que mesmo uma pessoa vivida dificilmente pode perder a capacidade de surpreender-se.