terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Suicídio

Não quero (nem poderia) retirar da vida a dor. Imagino que a partir de alguma faixa de sofrimento (que ainda não sei muito bem qual é) eu não conseguiria continuar vivendo. Adoro viver, mas não viveria a qualquer custo, em qualquer circunstância.

Se limitações físicas severas me privassem definitivamente de pequenos prazeres cotidianos, eu colocaria um fim à minha jornada sem titubear. O que mais receio é que meu corpo possa vir a ficar tão debilitado que eu venha a depender totalmente da ajuda de alguém para finalizar a minha existência.

Já ouvi de alguns conhecidos a ideia de que quem dá cabo dos seus dias atenta contra a própria vida, desrespeita toda a humanidade. Creio que assim seja apenas quando o suicida é declaradamente misófobo. Para todos os outros casos, a explicação é excessivamente simplória por reduzir a complexidade dos motivos psíquicos e sociais que levam alguém ao ato mais extremo de sua vida.

Se tivesse tetraplegia, por exemplo, recusaria-me a ficar vivo. Rogaria a alguma alma caridosa que de algum modo não doloroso me fizesse morrer. Neste caso, retirar-me-ia sem ressentimentos. E àqueles que me dissessem que atento contra a vida, responderia-lhes que o meu ato seria decorrente do amor que nutro pela Vida e, mais especialmente, pela minha vida. Com dignidade, minha última atitude devolver-me-ia as rédeas da minha "existência".

6 comentários:

Agnon Fabiano disse...

Olá Jefferson, gostei. Vou comentar um pouco.

Quando você fala que já ouviu a idéia de que o homem que se suicida desrespeita toda a humanidade, lembrei-me das palavras do Chesterton, numa postagem no meu blog, onde ele diz que "O homem que mata um homem, mata um homem. O homem que se mata, mata todos os homens; no que lhe diz respeito, ele elimina o mundo". E quando você diz que acredita que seja assim apenas com o suicida declaradamente misófobo, eu diria que concordo, em parte, com você, porque minha idéia é que isso se aplica aos suicidas que são pessimistas quanto ao mundo.

Limitações físicas severas podem causar um pessimismo em relação à própria vida e, ao contrário, desenvolvem um grande otimismo em relação ao mundo. Pessoas que tiveram suas vidas limitadas fisicamente por uma doença ou um acidente, normalmente desenvolvem uma maior apreciação do mundo, percebem melhor os detalhes, aprendem a dar valor às menores coisas da natureza. Por isso mesmo, podem desenvolver um pessimismo pessoal, pelo fato de, percebendo melhor as belezas do mundo, não poder desfrutá-las.

É preciso mais coragem para resistir à tortura, do que para tirar a vida. Um filósofo francês lembrava: quem não preferiria suicidar-se a sofrer a esse ponto (uma tortura)? Quantos não o fizeram? Quantos lamentaram por não poder tê-lo feito?

O suicídio é a coragem absoluta, porque a morte é absoluta, mas não é a maior coragem, porque a morte não é a pior conseqüência. Contudo eu não diria que, neste caso, em um suicídio nessas condições, não poderíamos chama-lo do oposto de coragem, ou seja, covardia. Porém, se não há como fugir desse termo, eu o chamaria de denodada, valente e impetuosa covardia.

Abraço, amigo.

Jefferson Góes disse...

Meu amigo Agnon, salve! Estou com muita dificuldade para escrever ultimamente, este último texto quase não saiu e o segundo comentário no seu blog sobre a questão do mundo privado parece que não quer sair. Perdõe-me, amigo.


Cara, seu comentário é muito bom porque me provoca como nenhum outro. No entanto eu ainda sustento tudo que escrevi. Não sei se suportaria a tortura (como diria Zé Ramalho, "... nas torturas toda carne se trai"); penso que melhor que suportá-la seria morrer, mesmo que por minhas próprias mãos.

Tenho a impressão de que as categorias éticas "coragem" e "covardia" podem se confundir ou ser flexíveis de acordo com o referencial valorativo que adotemos. Os nortes axiológicos de quaisquer vertentes de pensamento possíveis se baseiam em pressuposições. Se me suicidasse estaria sendo corajoso, de acordo com alguns complexos valorativos, e covarde de acordo com outros.

Pode não parecer, mas não estou fazendo apologia ao suicídio. Faço apologia à vida bem vivida (esse "bem" é que é o nó cego), que inclui autonomia para decidir sobre as coisas mais significativas (como a própria morte) e dignidade para, se razoavelmente deliberado, não ter de sofrer na carne nem na mente dores abjetas e degradantes.

Por contraditório que possa parecer, para os que não almejam à santidade, a morte escolhida pode ser uma elegia à vida e ao mundo, bem como a insistência em penar indefinidamente até que a senhora morte finalmente decida cumprir o seu dever.

Bem amigo, tentei explorar um pouco mais a minha forma de pensar essa questão hoje.

Te desejo um 2010 melhor que todos os anos que você já teve.

Tudo de bom.

Agnon Fabiano disse...

Olá, amigo. Vim fazer uma retificação que talvez tenha causado confusão.

Na verdade, no meu último parágrafo, sobrou um NÃO, que muda totalmente minha conclusão. Assim, acredito que nós estamos um tanto em sintonia até onde pudemos falar sobre esse assunto.

O parágrafo seria assim:

O suicídio é a coragem absoluta, porque a morte é absoluta, mas não é a maior coragem, porque a morte não é a pior conseqüência. Contudo eu (aqui tinha um NÃO indevido) diria que, neste caso, em um suicídio nessas condições, não poderíamos chama-lo do oposto de coragem, ou seja, covardia. Porém, se não há como fugir desse termo, eu o chamaria de denodada, valente e impetuosa covardia.

Abraço.
Feliz 2010!
PS: Também estou com muita dificuldade para escrever.

Jefferson Góes disse...

Agnon, meu velho, sua resposta é, como sempre, muito boa. Te agrtadeço por discutir comigo temas tão espinhosos. Valeu, meu amigo de longas datas.

Dodô disse...

Parece simples:

1)"Se a vida nos aborrece, saiamos dela como de um teatro." Cícero.

2)"Toda vez que vejo o sofrimento de uma criança, sinto vontade de devolver esse bilhete premiado que nos colocou nesse mundo." Ivan Karamazov.

É uma questão complicada. O medo é que muitas atitudes suicidas são tomadas num momentos em que estamos fragilizados emocionalmente e, muitas vezes, depois de um tempo, 6 meses, 1 ano, consegue-se superar essa "depressão". O difícil é achar que se pode suportar esse tempo ruim passar. Muitas vezes tenho medo dos meus momentos de tristeza e desilusão.

Jefferson, muito boa a postagem sobre esse tema. Sempre temos o que falar sobre esse limiar da vida. Abraço, querido amigo. Sinto-me sempre ligado a você pelas palavras!

Jefferson Góes disse...

Valeu Dodô!! Mi casa, su casa. E pode trazer essa galerinha (Cícero e Dostoievski) quantas vezes quiser que eu vou adorar meditar a partir de suas ideias.

Forte abraço, meu amigo.