terça-feira, 24 de novembro de 2009

Sofrimento, ficção e confissão

Em suas Confissões, Santo Agostinho nos diz que a sua conversão ao cristianismo lhe tirou o hábito de frequentar os teatros, pois neles não podia praticar as virtudes cristãs para cuidar das desditas das personagens. Não quero esse fanatismo para mim. Mas não quero, tampouco, ir ao outro pólo e sentir-me indiferente ao que se passa no palco ou na tela.

Dias atrás, enquanto assistia a Bastardos Inglórios , o mais recente filme de Tarantino, estranhei por um instante a mim mesmo na situação em que me encontrava. Numa das cenas em que os soldados nazistas eram escalpelados eu me percebi comendo pipoca e lambendo os dedos. E não é porque nazistas sofriam que fiquei indiferente. A seguir os solilóquios da minha mente entediada numa tarde de sábado.

"Que saco! Tem P.N. pra fazer. Vou ver um filme no Shopping pra me oxigenar."

Depois de convidar a minha consorte, rumamos ao mercado climatizado pós-moderno. E a mente não para de ...

"Vou ver o filme que tiver mais ação. Eita pipoca cara da bexiga! É phoda! Mas eu vou levar uma assim mesmo, e com um refrigerante de 1 litro só pra mim!!!"

Se Agostinho fez Confissões, e eu rogo ao seu Deus que o santo tenha sido perdoado, então me confessarei, sem, no entanto, almejar a indulgência de qualquer divindidade. Para mim, muitas vezes, o sofrimento no palco ou na tela não passa de espetáculo. Rogo, a mim mesmo, que o sofrimento em carne, osso e consciência que vejo na vida dos outros não se torne também espetáculo.

2 comentários:

Biu disse...

Cuidado!! Stockhausen chamou o ataque terrorista do dia 11 de setembro de 2001 de obra de arte!!
Podes ler um pouco sobre isso se interessar aí:
http://velhoshabitos.blogspot.com/2008/03/11-de-setembro.html

Jefferson Góes disse...

Muito interessante o texto que você sugeriu, Biu. Não conhecia nem Stockhausen nem essa polêmica em torno de um tema tão espinhoso. Valeu pelo comentário e pala dica.
Abraço!!!