sábado, 5 de setembro de 2009

Resposta a Millôr

Comentário a respeito do texto "Pau neles, compadre!" de Millôr Fernandes que transcrevi na postagem anterior.

Qual o propósito de Millôr Fernandes ao reduzir a história humana à violência que os seres humanos infligem uns contra os outros? Parece que ele pretende nos convencer do equívoco da visão romântica que eventualmente tenhamos sobre nós mesmos. Então ele estaria tentando nos persuadir de que somos pela nossa própria natureza maus? Tudo me leva a crer que sim, afinal ele nos apresenta um desfile interminável de horrores (desfile que ele não parece lamentar); mostra-nos as páginas mais sanguinolentas da história e com isso possivelmente nos quer convencer de que definitivamente não prestamos.

Se de fato for essa a sua intenção, então ela é passível de crítica. Millôr Fernandes - qualquer um, aliás, - tem todo o direito de defender a sua concepção negativa a respeito do ser humano. Tal concepção, inclusive, é a mais fácil de sustentar devido à longa série de atrocidades e crimes praticados pelo homem contra o homem e que desde tempos imemoriais maculam a dignidade humana. Contudo, o ser humano não tem apenas semeado violência e colhido dor ao longo da história.

Mesmo que na balança da história o prato da violência pendesse mais que o do amor, não estaria com isso provada a maldade ontológica do ser humano, o qual realmente pode ser e é mau em muitos dos seus atos, mas não é, em essência, mau.

Só conhecemos o mal pelo bem e vice-versa. Se o ser humano fosse essencialmente mau, jamais nos indignaríamos com alguma maldade. Ao contrário disso, sempre que a violência campeia, irrompem imediatamente a indignação contra o mal e os atos que procuram anular os seus efeitos, como a solidariedade e o cuidado.

Mas se Millôr Fernandes está realmente convicto a respeito da maldade humana, aconselho àqueles que dele se aproximarem numa rua qualquer que tenham muito cuidado. Se o homem não presta, isto também é válido para o grande escritor.

Um comentário:

Agnon Fabiano disse...

Jefferson, gostei do seu texto e logo, logo ele me trouxe à mente algumas palavras do Chesterton sobre o pessimismo. Publiquei-o no meu blog. Dá uma olhada. Tem tudo a ver com o que você disse aqui.

Abraço.