sábado, 26 de setembro de 2009

O sábio

Conheci alguém muito incomum ontem à tarde na rua do Hospício. Um jovem agarrou-me pelo braço e disse que precisava transmitir-me o legado de sua vida que estava prestes a acabar. Parei, propus-lhe uma cerveja e sentamos num bar defronte ao Teatro do Parque. Disse-me o rapaz mais ou menos o seguinte:

"Sou o maior gênio que já pôs o pé neste canto do mundo e talvez em toda a Terra. Descobri a cura de cânceres e de mil viri*. Solucionei problemas matemáticos e criei outros tantos cujas suluções permanecerão incógnitas para todo o sempre. Apontei todos os erros dos filósofos. Compus epopéias que mesmo Homero e Camões desejariam tê-las escrito..."

"Meu problema é que não registrei tais façanhas noutro lugar fora da minha memória e ela já não é mais a mesma. Eu planejava escrever e publicar toda a minha sabedoria num único compêndio, mas apenas iniciaria a compilação quando resolvesse um último problema teórico, o que logrei há alguns dias. Mas imediatamente tudo sumiu. Não me lembro de mais nada. Estou desesperado. Quando finalmente cheguei ao cume do saber, me vi como um ignorante. O que devo fazer?"

Estarrecido estava, atônito fiquei. Finalmente veio-me à mente a idéia de oferecer-lhe um brinde. Pedi para que ele tomasse aquele gesto (e a cerveja também) como sinal de reconhecimento e de gratidão pela sua prodigiosa inteligência e pelos serviços virtualmente prestados à humanidade. Brindamos, bebemos em silêncio e disse-lhe que tinha de ir para casa estudar filosofia.

Agradeceu-me e me disse lastimando - "só sei que nada sei".

Parti.

* Plural de vírus (eu não sabia!)

Um comentário:

Agnon Fabiano disse...

Fascinante, fantástico!