sábado, 25 de abril de 2009

Zumbi

Relutei um tanto antes de decidir contar o que a seguir contarei. Relutei porque o fato de que falarei - a vida de um homem pobre - parece prosaico demais, destituído de importância. Todavia, toda vida é digna de ser objeto de reflexão.

Desde pequeno registrei em minha memória a existência singular de um indivíduo intrigante. Em Boa Viagem, no ponto em que eu costumava esperar o coletivo quando deixava a escola e ia para casa, havia um senhor moreno, gordo, de cabelos assanhados, roupas sujas e amassadas a vender num tabuleiro amendoim, pipoca e outros petiscos. O curioso é que ele quase sempre estava dormindo. O tabuleiro ficava exposto, totalmente vulnerável e o seu dono permanecia dormindo num banquinho com o tronco curvado, como se todo o peso do tabuleiro lhe vergasse. Poucas vezes o vi acordado.

Uma certa tarde, quando voltava para casa depois da aula, tive um grande susto. Caminhando em direção à parada de ônibus, passava eu ao lado de uma árvore bem alta quando algo pesado despencou de cima dela: era o senhor que vendia amendoim. Ele estava dormindo sobre um galho que cedeu ao seu peso. Vi quando ele se levantou atordoado, mas ileso. Caiu sobre um carro que ficou ligeiramente amassado.

Guardei as imagens narradas acima durante muitos anos. Mas, com o tempo, elas deixaram de ser recorrentes; decerto porque eu não mais transitava com regularidade por aquele local em que costumava ver aquele senhor quase sempre a dormir.

Há uns quinze dias, quando voltava da praia com Sheila, ouvi uma voz bocejante dizendo: "ai que sono!". Olhei para trás e naquele instante exato vieram-me à mente, condensadas, a imagem atual e as imagens remotas daquele senhor desgrenhado e sonolento ao lado do seu velho tabuleiro.

Penso agora.

Que existência pesada a daquele homem! Parece um zumbi; parece não ter um lugar para repousar o corpo; parece errar interminavelmente pelos rios de asfalto desta cidade indiferente. Meu fardo não é leve, mas, comparado com o daquele homem, parece insignificante.

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