terça-feira, 21 de abril de 2009

Passageiro


Peço licença àqueles que estão fartos de tanta coisa ruim e negativa para falar um pouco sobre as minhas experiências nos coletivos da cidade do Recife.
A rigor, essas experiências não são totalmente minhas, mas de uma multidão de indivíduos que utilizam esse serviço diariamente. São minhas apenas em parte ou a partir do momento que a minha subjetividade as interpreta ao seu modo.
Falarei de uma de tantas coisas sobre as quais poderia e espero falar no futuro, como da violência neste meio de transporte, violência que vitimou, semana passada, um amigo e também meu pai. Agora, no entanto, falarei apenas sobre um aspecto particular e dos mais intrigantes para mim.
Falo do caso das pessoas que sobem nos ônibus para ganhar algum dinheiro, quer pedindo, quer comerciando algo. O caso de que começo a falar é dos mais comuns nas grandes cidades. Falo com certa propriedade, pois além de espectador experiente, habituado demais a testemunhar eventos desta natureza, já fiz breves incursões pelos coletivos com a finalidade de ganhar um troco com a venda de incensos.
Minha experiência como vendedor ambulante em coletivos não foi das mais emocionantes, nem tão bem sucedida assim. Na verdade, foi efêmera. Mas vale um parágrafo.
Meu trabalho em ônibus remonta à época em que fui um devoto de Krishna. Eu estava desempregado naquele tempo (por volta de 2005 ou 2006, não me lembro bem) e me veio à mente a ideia de ganhar um troco do modo como muitos outros hares faziam e fazem: fui vender incensos. Eu não vendia apenas nos ônibus, na verdade eu quase não vendia nos ônibus. Eles continuavam sendo para mim um meio de transporte que me levavam ao ponto que escolhi para trabalhar. Poucas vezes me senti à vontade de oferecer o produto que vendia às pessoas que viajavam comigo e quando o fiz, eu o oferecia apenas a algumas poucas dessas pessoas. Eu tinha certa vergonha, o que não sentia na rua.
Um dia talvez eu escreva sobre o que vi e vivi vendendo incensos nas ruas do centro Recife. Agora, porém, quero incorporar o papel de usuário dos ônibus coletivos, quero incorporar o papel de cronista, "quero pegar da pena e castigar o papel".
Hoje cedo fui chamado de besta por uma cobradora de um dos tantos ônibus do Recife. Tudo isso porque dei duas moedinhas a um rapazinho de uns quinze anos aproximadamente. É, estou sendo infiel ao desenrolar dos fatos. Foi assim...
Eu ia para o belo Parque da Jaqueira e tinha ao meu lado a não menos bela Sheilinha. Conversávamos entretidos em não sei o quê. Subiu, pela porta traseira, o mancebo. Pediu-nos um trocado com toda a polidez que lhe era possível, ou seja, praticamente nos ameaçando. Dei-lhe vinte centavos. Ele recolheu mais algumas moedas de outros passageiros e gritou: "abre aí motô". Foi prontamente atendido. Antes de descer, todavia, teve tempo de atender o seu celular. Pude ver-lhe as feições logo após ter descido do transporte público e juro que ele falava e gesticulava com uma desenvoltura típica de pessoas bem posicionadas na sociedade.
"E tem besta que ainda dá!". Se não foi isso, foi quase isso que a cobradora falou. Ri interiormente de mim mesmo. Quer dizer, não sei o porquê do meu riso, mas ri e relevei, no momento, só no momento, pois cá estou eu agora a relatar o que se passou. E se relato é porque não relevei embora não consiga até agora expressar exatamente o que senti e o que sinto.
Não é a primeira vez que algo do tipo acontece comigo. Para falar a verdade, nem de longe experiências desse tipo são as mais marcantes que vivi nos coletivos do Recife. Já vi tanta coisa... Contudo, quero falar um pouco mais sobre isto, relatando brevemente outros dois casos semelhantes. Não. Relatarei só mais um caso. Tenho de aprender a lidar com o meu jeito prolixo de ser.
Pensando bem, para cumprir o que a mim mesmo instituí e exercitar a arte da concisão, não direi mais o que pretendia dizer, direi apenas que costumo acreditar nas mais toscas dramatizações que acontecem nos ônibus. Sempre escuto piadinhas de outros passageiros ou do cobrador que denunciam a minha ingenuidade (prefiro crer que se trata de boa-fé!).
Encerro, por ora, então, o relato dos meus causos de interior... de ônibus.






Um comentário:

Anônimo disse...
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