sexta-feira, 3 de abril de 2009

De filho para pai

Hoje cedo, num noticiário de grande audiência, foi exibida uma reportagem muito bonita sobre torcedores de futebol, torcedores mirins, na verdade. A grande questão em pauta na referida reportagem era: “como escolhemos um time?”. Várias suposições foram aventadas, mas, a mais recorrente foi a de que tendemos a adotar o time de alguém que admiramos muito na infância, geralmente nossos pais. Talvez isto explique muitos casos, porém outros tantos há que escapolem ao pressuposto básico desta hipótese. O fato é que há algo de mágico na relação entre um torcedor e o seu time estimado e, por conta deste elemento mágico ou do imaginário profundo, paira um grande mistério sobre a lógica de funcionamento da mente de um torcedor enamorado por um time. Há qualquer coisa de inefável nisso tudo (é possível que sociólogos ou outros acadêmicos discordem daquilo que afirmei e reduzam o fenômeno à uma fórmula simples, talvez até calhe a famigerada “pão e circo”!).
Bem, o que quero mesmo é relatar uma historieta a mim relatada por meu pai, cujo protagonista sou eu mesmo, embora na ocasião eu fosse apenas um infante. Eis a breve narrativa do fato: um dia, quando eu tinha uns nove anos de idade, mais ou menos, recém convertido ao Sport, aproximei-me de meu pai e lhe disse. “Você agora é Santa Cruz. Quero alguém pra torcer contra o meu time”.
Como não me lembrasse de ter por decreto declarado meu pai tricolor, cresci ouvindo-o dizer-se torcedor do Santa Cruz. Eu não compreendia aquilo, afinal não consigo imaginar ninguém mais avesso ao futebol que o meu pai. Tenho algumas fortes imagens na memória que me induzem a pensar assim: levou-me à Ilha do Retiro e mesmo ao Arruda algumas vezes, mas não prestava atenção aos jogos, preferia ler o jornal e beber a sua cervejinha. Outro caso: dormiu durante os jogos do Brasil na Copa de 1994, inclusive na grande final.
Minha história talvez sirva para mostrar que a hipótese, para alguns uma tese comprovada, de que os pais determinam a paixão dos filhos por um time não é necessariamente verdadeira. No meu caso, determinei, não diria a paixão, mas a simpatia do meu pai pelo tricolor do Arruda. O caminho foi inverso, duas vezes: além de a influência ter sido de filho para pai, foi de um time para outro. Hoje, certamente, tentaria convencê-lo da conveniência de ser rubro-negro: festejamos mais do que qualquer outro time nordestino.

2 comentários:

JOSÉ RAFAEL MONTEIRO PESSOA disse...

Brother, certamente meu pai é mais avesso q o seu. Mas como um torcedor do Sport desde "infante" concordo com suas palavras.

Dodô disse...

Querido Jéfferson, mesmo sem ver-te com frequência, fico muito feliz em ler teus textos, pois parece que posso ouvir tua voz pausada narrando os acontecimentos. Não vou entrar no mérito da discussão futebolística porque sou alvirubro. Abraço, grande figura!