domingo, 19 de abril de 2009

Balbucio



O desejo de ver cada coisa o tempo todo no seu devido lugar oblitera a capacidade do indivíduo de ver o seu lugar devido, qual seja, o de rapace de elementos do caos e de artesão de imagens para o cosmo.

Pode ser diferente? Deve ser... Mas não nos é possível nesta matéria senão especular e desejar num afã desesperado que nossos eternos balbucios acabem por nos convencer de que o que ansiamos é a excelsa maravilha.

O desejo por uma pátria idílica na qual é e será possível fazer repousar as dúvidas e inquietações de toda ordem não assegura que a mesma seja um lugar efetivamente real.

A necessidade por uma terra da certeza em que o branco é branco e o preto é preto e nunca de outro modo e sempre em prefeita harmonia esconde uma insegurança indigna de louvor, já que ela - a insegurança - se pretende fazer passar por uma sábia senhora segura de cada palavra que lhe sai da boca.

A inexorabilidade do erro advém da natureza débil e melindrosa do nosso intelecto, assim como a necessidade da verdade também é oriunda desta mesma natureza débil e melindrosa do nosso pensamento. Se essa afirmação tropeça em si mesma é porque ela ama a coerência de desdizer-se e a contradição de coerir-se.

Ideia e mundo não são absolutamente estranhos a ponto de não se relacionarem de alguma forma, mas disso não deriva a necessidade de o oposto ser verdade: pensamento e realidade não coincidem absolutamente a ponto de o dizer ser algo além do que a representação da coisa dita. Desta situação sui generis decorre, em adição à razão acima apresentada, a necessidade do erro e da contradição. Erro e contradição, aliás, que construíram coisas abomináveis e admiráveis em nossa história.

Nem todas as pessoas concordam com o que foi dito acima. Isto é um indício de que nossos intelectos são confusos, débeis e contraditórios. Não é indício, porém, de que a malfadada concepção maniqueísta tem necessariamente razão, não significa que uns (ou a maioria) são tolos ignorantes responsáveis por todas as mazelas mundanas e outros (bem poucos) são os iluminados e virtuosos sábios capazes de pingar uma gota de lenitivo na ferida aberta que julgam ser o mundo.










Um comentário:

JOSÉ RAFAEL MONTEIRO PESSOA disse...

Genial, perdão,contraditório. Errado, mas, certíssimo. Confuso, ou melhor, eclarecedor. Lembra um diálogo meu com minha psiquiatra sobre o transtorno obsessivo compulsivo. Nas palavras de Herman Hesse: "Ao lidar com malucos, a melhor coisa que podemos fazer é fingir que somos sãos."