quinta-feira, 26 de março de 2009

Responsabilidade x irresponsabilidade: pequeno ensaio acerca da violência banalizada.

Não sou um moralista inveterado e quem me conhece pode dar o aval acerca do que digo. No entanto, há assuntos que exigem de mim (e de todos) um pronunciamento enérgico e, no caso específico ao qual farei referência, não é razoável outro posicionamento senão o de repúdio absoluto. De que se trata?

Da difusão do jogo de video game de origem japonesa (Rapelay) no qual o jogador, para cumprir o seu objetivo, tem de estuprar uma mulher e duas meninas.

A banalização da violência e mais especificamente da violência contra as mulheres e contra as crianças atinge com o tal jogo o cume absoluto e com isso ultrapassa qualquer limite de perversidade. Quantas mentes doentias! Algumas para projetar, outras para investir, outras ainda para difundir via comércio e, no fim deste ciclo infernal, outras tantas para consumir e deliciar-se com as cenas terríveis do jogo.

Como categorizar a mente de alguém que de algum modo patrocina práticas tão terríveis senão com o conceito de “doente”? É isso: alguém que fomenta a violência degradante só pode ser um doente. Mas será mesmo?

O termo “doente” sugere ausência de responsabilidade por parte de um infrator, o qual, para eximir-se da culpa, pode alegar em sua defesa que a condição de doente lhe impossibilita desenvolver o controle necessário sobre os seus atos. Ou seja, o doente seria irresponsável tanto no plano moral quanto no âmbito legal.

Por isso, sugiro a todos a prudência de não tratar alguém que incorreu num crime desta natureza como doente, a menos que esteja seguro do juízo que faz (o que não garante a veracidade da opinião).

Proponho também que não enfatizemos um dos sentidos do termo “irresponsabilidade” (e, conseqüentemente, do seu derivado: “irresponsável”).

Uma das formas pela qual compreendemos vulgarmente a referida palavra é, num exemplo, a de quem não precisa prestar contas daquilo que faz: por ser doente, não pode não fazer o que faz. Não pode decidir, escolher, em resumo, não tem livre arbítrio e, por esta razão, é completamente refém dos seus ímpetos e arroubos nefastos.

Qual o sentido que devemos ressaltar, então?

Irresponsável é qualquer criminoso comum justamente condenado, mas também é qualquer cidadão (qualquer homem de bem!) injustamente impune. Portanto, irresponsável pode ser também aquele que se exime de fazer o que deve fazer ou que faz o que deveria evitar fazer. Mais do que isto: irresponsável é aquele que, deliberadamente, faz ou deixa de fazer o que a obrigação lhe impõe. Irresponsável é o transgressor consciente e não acidental de uma regra de valor inquestionável segundo o bom senso. Neste sentido, o irresponsável responde pelos seus atos. Ele é irresponsável porque poderia não sê-lo. É, portanto, culpável.

O irresponsável que de alguma forma contribui para a propagação do referido jogo não pode ser qualificado como doente. Não pode porque normalmente os doentes deste tipo não rasgam dinheiro nem jogam as moedas fora. Quem é são para contar e fazer dinheiro se multiplicar, não pode ser doente para outras coisas...

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