quarta-feira, 18 de março de 2009

Criacionismo(s) x evolucionismo: algumas informações e algumas reflexões


O criacionismo é a ideia segundo a qual a vida em geral e em cada manifestação singular teria sido criada por Deus. O criacionismo se desdobra em duas vertentes. Apresentemos, inicialmente, a sua versão tradicional ou clássica.
O criacionismo clássico interpreta de modo literal a narrativa bíblica do livro do Gênesis e, por esta razão, crê que o surgimento da vida não se deu há mais de 10.000 anos. Além disso, para o criacionismo clássico, todas as formas de vida, quando criadas do nada por Deus, já tinham as mesmas características que apresentam atualmente. Ele nega, portanto, a possibilidade de ter havido qualquer forma de evolução: nenhuma espécie teria se desenvolvido a partir de outra mais originária e menos complexa. Por fim, faz parte das crenças criacionistas a ideia de que o homem é o centro de toda a criação divina (ele haveria sido feito à imagem e semelhança de Deus).
A outra vertente criacionista (neocriacionismo) é conhecida como Designer Inteligente (ou ainda como Planejamento Inteligente). Esta corrente vem adquirindo notoriedade desde o início do século XIX quando o inglês William Paley publicou a obra “Teologia Natural” (1802). A tese fundamental do livro é a de que a existência da vida inteligente pressupõe necessariamente a existência de uma inteligência superior que a houvesse projetado, assim como a existência de um relógio requer a de um relojoeiro. Atualmente, o neocriacionismo cresce principalmente nos EUA. Alguns de seus principais defensores são cientistas que tentam conciliar a fé com a razão.
Um expoente do neocriacionismo é o professor universitário estadudinense Michael Behe. Foi ele, inclusive, quem cunhou a expressão Designer Inteligente. A originalidade do neocriacionismo não reside tanto na defesa da existência de uma Mente Suprema cuja inteligência teria projetado (ou criado) toda a realidade, da qual faz parte, obviamente, a vida (Tomás de Aquino, no século XIII, desenvolveu um argumento semelhante a este; Aristóteles, no século IV a.C., dizia que uma coisa que existe precisa ter, dentre outras, duas causa: uma final, isto é, uma finalidade, tem que existir para alguma coisa, e ainda, uma causa eficiente, ou seja, deve provir de algo ou de alguém que o concebeu com vistas a uma finalidade). O que há de novo, então, nesta teoria? A síntese ou a articulação entre ciência e religião, já que é por meio de interpretações de dados científicos que Behe e outros tentarão argumentar em favor da existência do Designer ou do Projetista superior. Exemplo deste tipo de argumentação: a complexa estrutura da íris e do cérebro dos seres humanos exige a existência de algo como uma inteligência criadora, ordenadora e sobrenatural.
Mas essa teoria não apenas afirma que deve haver um Projetista Universal. Além disso, ela tenta refutar a Teoria da Evolução das Espécies tal como formulada por Charles Darwin. Um dos pontos centrais do pensamento de Darwin afirma que todas as espécies de vida se originaram de um único e mesmo ancestral (o qual, segundo dados das ciências contemporâneas, supostamente viveu há alguns bilhões de anos).
Esse gigantesco período de tempo não assusta nem incomoda os defensores da Teoria do Designer Inteligente, porque eles não são literalistas, isto é, não tomam o Gênesis de modo literal, mas alegórico. No entanto, os criacionistas tradicionais (e há muitos deles no mundo) discordam totalmente das datações mais remotas do surgimento da vida, segundo as ciências. O que mais lhes incomoda é a hipótese de que a evolução das espécies tenha realmente ocorrido. Não lhes parece plausível que seres altamente complexos (como nós, os homo sapiens) evoluíram desde outros seres de constituição fisiológica extremamente rudimentar.
Uma das tantas formas pelas quais a Teoria do Designer Inteligente procura repudiar a Teoria da Evolução das Espécies é por meio do que Michael Behe chamou de Complexidade Irredutível. Em linhas gerais, isto significa que estruturas orgânicas altamente complexas não poderiam ter se originado a partir de outras estruturas de caráter mais simples. Para provar esta tese, afirmam o seguinte: qualquer estrutura orgânica complexa não pode jamais prescindir de nenhum dos seus elementos constitutivos sob risco de que toda a estrutura sofra e deixe de funcionar. Se for suprimida uma parte ou inativado um componente ou princípio da medula ou do sistema imunológico, por exemplo, toda a estrutura sofrerá danos severos, talvez mesmo irreversíveis e fatais. Como conceber, então, que estruturas orgânicas de alta complexidade tenham uma vez existido se para existirem precisam ser exatamente como são? Ou ainda: como seria possível que uma vasta gama de estruturas complexas tenham convergido, simultaneamente, numa evolução que resultaria na vida humana?
Claro está, para os fautores do neocriacionismo, que as perguntas acima são aporias insolúveis para os adeptos da Teoria da Evolução. Todavia, estes últimos, munidos de conhecimentos oriundos dos estudos genéticos, redarguem e a discussão adquire, conseguintemente, um aspecto eminentemente técnico que não convém aqui abordar.
Em suma, a ideia do neocriacionismo é a de que a ordem e a harmonia (cosmos) não podem provir senão de uma ordem e harmonia prévia. Os partidários da Teoria do Designer Inteligente diriam que seria um ilogismo gigantesco imaginar que o cosmos deriva do caos, a ordem da desordem (ou que a evolução ocorre aleatoriamente ou ao sabor das sempre imprevisíveis mutações genéticas). A título ilustrativo, admitir que a hipótese anterior é pertinente, é o mesmo que supor que uma bomba deflagrada numa antiga tipografia (com tipos móveis) geraria, após a explosão, um ordenamento tão perfeito das letras que estaria gerada neste instante uma obra literária de excelso e sublime valor artístico. Ou seja, a probabilidade seria irrisória.
Mas esses argumentos dos neocriacionistas não parecem ser irrefutáveis para aqueles que professam a Teoria da Evolução das Espécies (para estes últimos, o neocriacionismo é pseudocientífico). Em primeiro lugar, eles asseguram que o processo evolutivo não é tão casual como acusam os seus críticos. Sim, há uma parte casual, aleatória, neste processo (a mutação genética), mas que apenas é fixada e transmitida se as condições de interação entre os indivíduos de uma espécie e o ambiente forem “harmônicas”. Não é por acaso que a teoria também é chamada de “seleção natural”. Qualquer traço de ordem na natureza seria resultante de uma ordem autoestabelecida pela própria natureza e jamais, portanto, uma seleção sobrenatural.
Em segundo lugar, é possível questionar se há mesmo uma ordem na natureza tal como afirmam os neocriacionistas. De fato, seria sandice negar que há uma certa ordem na natureza, de outro modo mal seríamos capazes de transformá-la e, além disso, viveríamos num constante torpor no qual ninguém seria capaz de distinguir sequer a si mesmo. O problema crucial é saber até onde vão os limites desta ordem, desta harmonia. Exemplificando: por que aproximadamente 90 % das espécies vivas do planeta Terra já se extinguiram? Ou ainda: seria a natureza dotada de um caráter ético? E os tsunamis e os cataclismos em geral seriam expressão de uma ordem subjacente à estrutura ordenada da realidade? Que ordem seria essa? Que Designer Inteligente é esse que não pode ou não quer evitar toda a desordem que sempre está, ameaçadoramente, à espreita.
Em terceiro lugar, dizem os adversários do neocriacionismo, nada há que autorize a inferir que o Designer Inteligente, na eventualidade de sua existência ser efetiva, é o Deus judaico-cristão. Isto é um salto lógico arriscado, perigoso. O Designer Inteligente não precisaria estar além da sua obra criada, além da natureza (ser um ser sobrenatural). Ele não poderia ser, a um só tempo, a própria natureza e o Designer Inteligente, o designer de si mesmo?
Finalmente, é oportuno evocar o filósofo alemão Immanuel Kant, para quem, conhecer Deus (assim como conhecemos os objetos científicos) está para além das possibilidades da razão, o que não implica na inexistência de Deus (o próprio Kant, aliás, era muito religioso). A relação de um indivíduo com Deus seria, consoante esta ideia, mediada pela fé e não pela razão [1].
Ou seja, o (Neo)Criacionismo e a Teoria da Evolução das Espécies se antagonizam enormemente, de tal modo que quem toma uma das linhas explicativas como verdadeira ou mais coerente tende a desconsiderar o valor da outra. Bem, isso é quase sempre válido. Quase sempre porque há ainda uma terceira forma de abordar a questão da origem da vida. A terceira via, em resumo, sintetiza as duas posições extremadas, daí ser conhecida como Evolucionismo Teísta [2]. Para este grupo de estudiosos, a evolução das espécies é um fato, porém um fato que foi arquitetado pelo Poder Divino: o processo evolutivo estaria, em última instância, sob o controle de Deus.
O que importa ressaltar é que ciência e religião não precisam ser necessariamente antípodas. Há inúmeros exemplos de grandes cientistas (como Copérnico, Newton e Einstein) que tinham fé na existência de Deus. Naturalmente, essa conciliação só é possível na medida em que os textos sagrados não são lidos de modo muito estrito, literal, naquilo que diz respeito à origem da vida. Pareceu ser esta a postura do Papa João Paulo II quando afirmou que a Teoria da Evolução é bem mais do que uma simples teoria (1996) e, além disso, que não seria papel da Igreja Católica ou de qualquer outra explicar como o céu foi criado, mas elevar os indivíduos até o mesmo.



[1] À guisa de curiosidade, e talvez para polemizar, é conveniente apresentar a definição de fé do filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard: “a fé é um passo no escuro”.
[2] Um exemplo de cientista que advoga em favor desta síntese é o do renomado geneticista Francis Collins que publicou há alguns anos o livro A linguagem de Deus: um cientista apresenta evidências de que Ele existe.

6 comentários:

Agnon Fabiano disse...

Muito bom!

Joarlem disse...

Gostei do texto. Muito bom.
Mas eu fico com o Criacionismo.
Nada de Evolucionismo e Neocriacionismo.

Deus criou o mundo e tudo que nele habita. Deus também deu sabedoria ao homem, a ciência é fruto desta sabedoria. Mas essa, é limitada e Deus o concedeu somente para ser usada aqui, para termos uma melhor qualidade de vida.
Mas quando o homem ultrapassa seu limite (querendo saber de onde veio e para onde vai)não consegue chegar a uma certeza, tudo não passa de hipotéses baseadas em lógicas de acontecimentos reais aqui na terra. O que está na terra foi cabível ao homem descobrir e entender os processos, como por exemplo: quando vai chover, as estações do ano, a cura de doenças, etc., tudo isto para melhor condição de vida humana.
O que não foi cabível ao homem descobrir Deus revelou na sua Palavra de onde ele veio e para onde vai (dependendo da escolha).
A teoria do Criacionismo tem mais razão do que a do Evolucionismo.

Joarlem disse...

Gostei do texto. Muito bom.
Mas eu fico com o Criacionismo.
Nada de Evolucionismo e Neocriacionismo.

Deus criou o mundo e tudo que nele habita. Deus também deu sabedoria ao homem, a ciência é fruto desta sabedoria. Mas essa, é limitada e Deus o concedeu somente para ser usada aqui, para termos uma melhor qualidade de vida.
Mas quando o homem ultrapassa seu limite (querendo saber de onde veio e para onde vai)não consegue chegar a uma certeza, tudo não passa de hipotéses baseadas em lógicas de acontecimentos reais aqui na terra. O que está na terra foi cabível ao homem descobrir e entender os processos, como por exemplo: quando vai chover, as estações do ano, a cura de doenças, etc., tudo isto para melhor condição de vida humana.
O que não foi cabível ao homem descobrir Deus revelou na sua Palavra de onde ele veio e para onde vai (dependendo da escolha).
A teoria do Criacionismo tem mais razão do que a do Evolucionismo.

Lucas disse...

ótimo esse texto sobre o neocriacionismo retrata bem a história.

Kassiopires disse...

se vc se enteressa por evolução e criação,veja como os dois são a mesma coisa ,veja que a teoria do homem ja foi escrita na biblia a muito tempo atras. leia e critique se quiser ou aplauda minha ideia
http://kassiopires.blogspot.com/2010/03/este-e-um-projeto-meu-em-que-eu-me.html

Anônimo disse...

CARAMBA JEFFERSON, É O PRIMEIRO TEXTO MESMO QUE LEIO SEU.. E JÁ TIVE UMA BOA IMPRESSÃO, PARABÉNS MESMO, VOCÊ É UMA PESSOA MUITO SÁBIA, SABE ARGUMENTAR SEM EXPOR SUA OPINIÃO, ADMIRO MT ISSO, A PARTIR DE AGORA LEREI MAIS SEUS TEXTOS, GOSTEI MUITO MESMO... TAMBÉM ME INSPIREI PARA MUDAR MAIS, PARA APROFUNDAR MAIS MEUS CONHECIMENTOS, NÃO APENAS SOBRE ESSE ASSUNTO, SOBRE UM TODO.. ALGUMA SUGESTÃO PARA INICIANTE LEITORA?