terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Suicídio

Não quero (nem poderia) retirar da vida a dor. Imagino que a partir de alguma faixa de sofrimento (que ainda não sei muito bem qual é) eu não conseguiria continuar vivendo. Adoro viver, mas não viveria a qualquer custo, em qualquer circunstância.

Se limitações físicas severas me privassem definitivamente de pequenos prazeres cotidianos, eu colocaria um fim à minha jornada sem titubear. O que mais receio é que meu corpo possa vir a ficar tão debilitado que eu venha a depender totalmente da ajuda de alguém para finalizar a minha existência.

Já ouvi de alguns conhecidos a ideia de que quem dá cabo dos seus dias atenta contra a própria vida, desrespeita toda a humanidade. Creio que assim seja apenas quando o suicida é declaradamente misófobo. Para todos os outros casos, a explicação é excessivamente simplória por reduzir a complexidade dos motivos psíquicos e sociais que levam alguém ao ato mais extremo de sua vida.

Se tivesse tetraplegia, por exemplo, recusaria-me a ficar vivo. Rogaria a alguma alma caridosa que de algum modo não doloroso me fizesse morrer. Neste caso, retirar-me-ia sem ressentimentos. E àqueles que me dissessem que atento contra a vida, responderia-lhes que o meu ato seria decorrente do amor que nutro pela Vida e, mais especialmente, pela minha vida. Com dignidade, minha última atitude devolver-me-ia as rédeas da minha "existência".

domingo, 27 de dezembro de 2009

Vida e metáfora

Não se pode ter um lampejo de compreensão acerca do que é a vida sem o auxílio de metáforas, embora nenhuma (nem todas) possa traduzi-la completamente, até mesmo porque a vida é a fonte de qualquer metáfora. Assim ainda, digo que a vida é um nó cego. Cabe-nos desatá-lo.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Beleza e feiúra

Ninguém tem culpa por ser feio nem mérito por ser belo. Beleza não é virtude e feiúra não é vício.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Texto para ser lido quando se está com sono

Escrevi o texto abaixo há mais de dois anos e já nem me lembrava mais da sua existência. Não vale a pena buscar qualquer nexo entre as suas frases.


TEXTO PARA SER LIDO QUANDO SE ESTÁ COM SONO



No país das margarinas, lá onde a porca torce o rabo, havia um rapaz – de nome Michael – que gostava de andar de skate. Todas as vezes que ele se preparava pra pegar uma onda chovia forte e ele não podia jogar futebol. Então, totalmente decidido a ingressar na universidade para estudar halterofilismo, comprou um livro e arranjou uma namorada. Namorava onde morava, isto é, no rabo da porca e esse namoro, portanto, só podia dar em merda: nove meses depois e já não sabia andar de skate, além de levar caldo de tudo quanto é marola. Mas o mais mágico mesmo é que ele obteve o grau de doutor em halterofilismo neste período de nove e meia semanas de amor. Ninguém acreditava no que via e ele vivia desacreditando de si mesmo também. Até que um dia ele teve um sonho psicodélico: sonhou que vivia convencionalmente e que só fazia sexo ao telefone, sem nenhuma preocupação com a conta. A economia, aliás, ia bem, na medida do possível e o impossível é sempre relativo ao momento que, por sua vez, não vem ao caso. O caso, diga-se de passagem, é o do seu casario, tão monogâmico que não admitia casos extraconjugais. Tudo era uma questão de diálogo, como se vê, e ele permanecia acreditando que algo aconteceria, independente da fé que não tinha. Se tivesse de dormir, não ficaria acordado pensando em como seria se estivesse dormindo, mas acordado ficaria imaginando qualquer coisa outra que não o fizesse pensar em como o sono é revigorante. Seu sonho era, como logo se deduz, muito misterioso. Misterioso de um modo tal que não lhe ocorria querer saber em que se ...

sábado, 28 de novembro de 2009

Corrução

Nessa madrugada acordei perturbado. Sonhei que vivia numa terra de incorrutíveis corrutos. Ainda bem que foi apenas um pesadelo.

Cinismo

Há sempre uma porção de cinismo nos poderosos.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Sofrimento, ficção e confissão

Em suas Confissões, Santo Agostinho nos diz que a sua conversão ao cristianismo lhe tirou o hábito de frequentar os teatros, pois neles não podia praticar as virtudes cristãs para cuidar das desditas das personagens. Não quero esse fanatismo para mim. Mas não quero, tampouco, ir ao outro pólo e sentir-me indiferente ao que se passa no palco ou na tela.

Dias atrás, enquanto assistia a Bastardos Inglórios , o mais recente filme de Tarantino, estranhei por um instante a mim mesmo na situação em que me encontrava. Numa das cenas em que os soldados nazistas eram escalpelados eu me percebi comendo pipoca e lambendo os dedos. E não é porque nazistas sofriam que fiquei indiferente. A seguir os solilóquios da minha mente entediada numa tarde de sábado.

"Que saco! Tem P.N. pra fazer. Vou ver um filme no Shopping pra me oxigenar."

Depois de convidar a minha consorte, rumamos ao mercado climatizado pós-moderno. E a mente não para de ...

"Vou ver o filme que tiver mais ação. Eita pipoca cara da bexiga! É phoda! Mas eu vou levar uma assim mesmo, e com um refrigerante de 1 litro só pra mim!!!"

Se Agostinho fez Confissões, e eu rogo ao seu Deus que o santo tenha sido perdoado, então me confessarei, sem, no entanto, almejar a indulgência de qualquer divindidade. Para mim, muitas vezes, o sofrimento no palco ou na tela não passa de espetáculo. Rogo, a mim mesmo, que o sofrimento em carne, osso e consciência que vejo na vida dos outros não se torne também espetáculo.

domingo, 22 de novembro de 2009

Palíndromo

video

http://www.youtube.com/watch?v=HL4pHJ_AcBE

O excelente curta nacional Palíndromo, de Philippe Barcinski, trata da relação homem-tempo de maneira muito criativa. Recomendo.

sábado, 21 de novembro de 2009

"Ex-fumante receberá US$ 300 milhões" - Redução ao absurdo




Logo abaixo, segue a transcrição na íntegra de uma pequena reportagem do Jornal do Commercio de 21/11/2009.

A produtora de tabaco americana Philip Morris USA foi condenada por um tribunal da Flórida, nos EUA, a pagar US$ 300 milhões (cerca de R$ 513 milhões) a uma ex-fumante de 61 anos, que sofre de uma doença nas vias respiratória (sic). É a multa mais alta já pronunciada contra uma produtora de tabaco na Flórida. Cindy Naugle, que desenvolveu um enfisema, se desloca numa cadediras de rodas e precissa de assitência respiratória permanente. Ela parou de fumar em 1993, após 25 anos de tabagismo. A empresa anunciou em comunicado a intenção de "examinar" o veredicto, e considerou a multa "extremamente excessiva". Em março, a Philip Morris USA foi condenada a pagar US$ 145 milhões (R$248 milhões) à viúva de um ex-fumante.


Não creio ser justa a punição à empresa que produz cigarros pelo simples fato de que qualquer fumante conhece os riscos aos quais se submete (mesmo em 1968). Além disso, uma vez dependente químico, resta a possibilidade à pessoa de procurar assitência médica para abandonar o vício. O Estado, por meio do judiciário, não pode punir a indústria de cigarros por essas razões e, também, porque ele mesmo não pôde impedir o funcionamento da indústria tabagista. Para ser coerente consigo mesmo, o Estado deveria punir a citada empresa com a multa e com o seu fechamento definitivo. Mas não apenas isso. O Estado, em contrapartida, deveria impor a si mesmo uma sanção, a de indenizar todos os fumantes, bem como todas as indústrias que um dia obtiveram licença para produzir cigarros.

Till - A saga de um herói torto



Peça maravilhosa apresentada ontem e antes de ontem no Festival de Teatro do Recife, na Praça do Arsenal da Marinha. Abaixo a sinopse da peça retirada do site da companhia que monta o espetáculo (Grupo Galpão - BH, MG). Espero que essa peça rode o Brasil e inteiro. Depois da sinopse, alguns comentários meus.

Um dia, na eternidade, o Demônio aposta com Deus que se tirasse do homem algumas qualidades, ele cairia em perdição. Deus, aceitando o desafio, resolve trazer ao mundo a alma de Till. Vivendo em uma Alemanha miserável, povoada de personagens grotescos e espertalhões, logo de início nosso protagonista é abandonado em meio ao frio e a fome e descobre que a única maneira de sobreviver naquele lugar é se tornar ainda mais esperto e enganador. Assim começa sua saga cheia de presepadas e velhacarias.Criado pela cultura popular alemã da Idade Média, Till é o típico anti-herói cheio de artimanhas e dotado de um irresistível charme. Um personagem que tem parentesco com outros tipos de várias culturas, por exemplo, que se assemelha muito ao nosso Macunaíma ou ao ibérico Pedro Malasartes. Além de Till e uma infinidade de rústicos personagens medievais, a peça conta também a história de três cegos andarilhos que buscam a redenção, sonhando alcançar as torres de Jerusalém e salvar o Santo Sepulcro das mãos dos infiéis.Num mundo em que é cada vez mais marcante a presença dos excluídos e dos desprovidos de qualquer suporte material, a parábola das aventuras do anti-herói Till Eulenspiegel torna-se de uma atualidade inquietante.

http://www.grupogalpao.com.br/port/espetaculos/sinopse.php?espetaculo=till

Há uma velha e bela metáfora que tenta descrever o caráter sui generis das artes cênicas. Ao fim de uma apresentação teatral, não obstante todas as emoções que tenha insuflado no público, a peça consome a si mesma como uma chama, não deixando, senão na mente de quem a assistiu, quaisquer resquícios de sua efêmera existência.

Esse caráter trágico do espetáculo cênico, no entanto, é um dos fatores que lhe conferem toda a magia que ele representa. Os espetáculos são singulares, não apenas da perspectiva da recepção, mas da montagem, da atuação. Ninguém jamais verá Till como Recife o viu na noite de 18/11, na Praça do Arsenal da Marinha, à beira do porto. As fagulhas que se precipitaram da fogueira acesa por Till na pele do pernambucano eram apagadas imediatamente pela brisa do mar dos arrecifes. Foi sensacional!

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Os antibióticos e a história




Noite dessas num teatro, ouvi de um falastrão eminente do Recife que, em havendo antibóticos em meados do século XIX, mais precisamente o composto de Sulfametoxazol com Trimetoprima (Bactrim), o Brasil seria uma monarquia até hoje. Explico. Segundo o conversador, as vidas dos dois filhos de D. Pedro II foram ceifadas precocemente devido a crises fulminantes de amigdalite. Se o Imperador tivesse um herdeiro homem, em vez de uma filha casada com o estrangeiro Conde d´Eu, a República não teria nascido. Quanto reducionismo!

À semelhança da maioria dos sinistros aéreos, os processos históricos não podem ser explicados nem compreendidos apenas a partir de um fator isolado.Diferentemente disso, as transformações no curso da história são o resultado de uma confluência de fatores(econômicos, políticos, ideológicos, religiosos etc.). Cada um destes fatores é necessário, e nenhum é suficiente para conferir inteligibilidade ao passado. Qualquer obra especializada sobre a decadência do Império há de confirmar o que digo.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Milk




Depois de assistir a este belíssimo filme de Gus Van Sant, disse a Sheila o seguinte: "todas as pessoas que participam de movimentos sociais deveriam assisti-lo", ao que ela me respondeu em seguida: "todo mundo deveria".

Milk reacendeu em mim o desejo de fazer política.

Link para um belo texto sobre a atuação de Sean Penn em Milk:

http://www.consciencia.org/neiduclos/SEAN-PENN-EM-MILK/

Derrida on animals

video
http://www.youtube.com/watch?v=Neu4kI_Yi0A



A perspicácia de Derrida é fascinante ao perceber essa sutileza da linguagem que reduz a incrível pluralidade de seres distintos à categoria "animais". Caso semelhante se dá quando utilizamos algumas vezes o termo "africanos" e desconsideramos todas as diferenças entre os nascidos na África. Em ambos os casos citados, estabelece-se uma dominação ancorada na linguagem.

domingo, 15 de novembro de 2009

Paciência

A paciência do botão
Para vir a ser rosa
É a varinha de condão
Que faz a vida formosa.

Críticos

Carta que encontrei num banco de um ônibus que peguei no centro da cidade ontem à tarde. Queria tê-la escrito.

"Me sinto como um imbecil. A minha geração só tem doutores. Se lhes falo sobre a música X, o filme Y ou o livro Z, eles me respondem do alto da sua afetação com um 'hã?!' acompanhado de caras e bocas com os quais resumem a crítica negativa da obra da qual lhes falei. Ah, como queria ser afetado também!"

Livro da vida

No volumoso livro da vida
Há um central capítulo
Dedicado à lida
De quem anula o nulo.

sábado, 14 de novembro de 2009

Solitário Anônimo




Indico mais um filme de Débora Diniz. Depois de tê-lo assistido, fiquei com muita coisa para escrever. Não sei nem por onde começar. Em breve postarei um texto a respeito deste curta-documentário (18 minutos) que aborda o polêmico tema do direito de morrer.

Links.

Parte 1: http://www.youtube.com/watch?v=Uw6_zvieFw0
Parte 2: http://www.youtube.com/watch?v=VoK53p4AXvI

sábado, 7 de novembro de 2009

Diversidade musical

A diversidade musical reflete a diversidade espiritual existente no mundo. Tantas são as músicas quantos são os homens.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

A casa dos mortos / Uma história severina





A casa dos mortos é um filme feliz sobre uma realidade infeliz, cruel. Os personagens desta história são os internos de um hospital psiquiátrico de Salvador. Um destes internos, numa triste e bela poesia, narra as desventuras que acometem a si mesmo e aos seus companheiros.

A diretora Débora Diniz (que é antropóloga e professora da UNB) mais uma vez conseguiu chamar a atenção para o sofrimento de quem é mais vulnerável às rebordosas da nossa (des)organização social.

Digo "mais uma vez" porque Uma história severina retrata as agruras de uma mulher da Zona da Mata de Pernambuco refém de um sistema judiciário caótico que lhe obstou por sete meses a interrupção da gravidez de um feto anencéfalo.

Link para A casa dos mortos
http://www.youtube.com/watch?v=FLuZVLojKJw

Link para Uma história severina
http://video.google.com/videoplay?docid=-5477027628085705086#

domingo, 18 de outubro de 2009

Música para crianças (e adultos nostálgicos da infância)




Há alguns dias meu amigo Victor escreveu em seu blog um belo texto sobre música infantil. Ele ainda fez a gentileza de postar o link para baixar o disco de Toquinho chamado "Casa de Briquedos". O disco é excelente.

Outro disco genial para crianças de todas as idades é "Os saltimbancos" de Chico Buarque.

Vale ouvi-los sem qualquer pena.

Link para "Os saltimbancos" :
http://www.4shared.com/file/62106064/bf0a753d/Os_saltimbancos_-_Chico_Buarque.html?s=1

O link para "Casa de Brinquedos" está no blog de Victor. Confiram:
http://jossa-blog.blogspot.com/

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Vinícus e Baden

Devo-vos um dia
De imensa paz.
Foi só alegria
Sem poder mais.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Os afro sambas



Um disco magnífico. Não me diverti tanto ouvindo outro disco este ano. Deleite total.

O link para quem quiser baixar:
http://www.4shared.com/file/69728034/8c3c12cc/Baden_Powell_e_Vinicius_de_Moraes_-_Os_Afro_Sambas.html?s=1

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Simulação e dissimulação

Quem simula competência dissimula incompetência.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

sede

um trago do teu vinho
para aplacar a sede
dum'alma sem caminho
que só vaga e só pede
...
...

poem

my eyes aren´t the same
when i stare at you
and i thank god you came
not late but pretty soon

sábado, 26 de setembro de 2009

Réquiem

A vida gesta a morte
Em cada e toda parte.
A morte é um corte,
Sem adeus de quem parte.

No instante sem volta
Hei de ler para ninguém
Como ode à vida morta
Meu próprio réquiem.

O sábio

Conheci alguém muito incomum ontem à tarde na rua do Hospício. Um jovem agarrou-me pelo braço e disse que precisava transmitir-me o legado de sua vida que estava prestes a acabar. Parei, propus-lhe uma cerveja e sentamos num bar defronte ao Teatro do Parque. Disse-me o rapaz mais ou menos o seguinte:

"Sou o maior gênio que já pôs o pé neste canto do mundo e talvez em toda a Terra. Descobri a cura de cânceres e de mil viri*. Solucionei problemas matemáticos e criei outros tantos cujas suluções permanecerão incógnitas para todo o sempre. Apontei todos os erros dos filósofos. Compus epopéias que mesmo Homero e Camões desejariam tê-las escrito..."

"Meu problema é que não registrei tais façanhas noutro lugar fora da minha memória e ela já não é mais a mesma. Eu planejava escrever e publicar toda a minha sabedoria num único compêndio, mas apenas iniciaria a compilação quando resolvesse um último problema teórico, o que logrei há alguns dias. Mas imediatamente tudo sumiu. Não me lembro de mais nada. Estou desesperado. Quando finalmente cheguei ao cume do saber, me vi como um ignorante. O que devo fazer?"

Estarrecido estava, atônito fiquei. Finalmente veio-me à mente a idéia de oferecer-lhe um brinde. Pedi para que ele tomasse aquele gesto (e a cerveja também) como sinal de reconhecimento e de gratidão pela sua prodigiosa inteligência e pelos serviços virtualmente prestados à humanidade. Brindamos, bebemos em silêncio e disse-lhe que tinha de ir para casa estudar filosofia.

Agradeceu-me e me disse lastimando - "só sei que nada sei".

Parti.

* Plural de vírus (eu não sabia!)

Estofo

O céu se desidratava lá em cima e com isso castigava aqui embaixo essa cidade construida sobre a lama. Salvei-me num táxi cujo condutor falou-me sobre o velho estofo do sofá de sua casa e o valor que teria de empregar para concertá-lo. Disse-lhe o que pensava, paguei e fui embora. Meses depois disso, num dia de febre do céu, peguei um táxi refrigerado e o motorista voltou a falar sobre o ainda mais velho estofo do sofá da sua sala. Dei-lhe os mesmos conselhos, paguei a corrida e desci do carro, ruminando meus velhos problemas, envolto no estofo roto da minha vida.

Livros

E... comprava livros como quem respira. Para juntar dinheiro para comprá-los E... vivia quase como um asceta: trabalhava demasiadamente e se divertia pouco, aliás, não se divertia. Nas horas vagas, ele tirava a poeira dos livros...

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Jogo do bicho

Numa das tantas esquinas de Recife flagrei há um tempo um diálogo entre uma senhora e um senhor. A conversa girava em torno do jogo do bicho.

A - Eita seu Fulano, deu a milhar do senhor ontem, num foi?!
B - Foi dona Sicrana, mas nem joguei.
C - Mas menino, num diga um negócio desse não.
B - Foi... Jogo essa danada todo dia, mas ontem não joguei e deu. Eu não tinha um real.
A - E o senhor deixou de jogar por isso? Fale comigo numa situação dessa.
B - Quero incomodar não.
A - Olhe, seu Fulano, é muita safadeza dessas banca de jogo. Quando o camarada não joga eles dão a milhar. É muita picaretice.
B - É mermo. Já fazia tempo que não dava ela não. É safadeza demais.
A - Nem me conte! É safadeza e da grande, seu Fulano! E o senhor já jogou hoje?
B - Inda agorinha. Peguei um trocadinho ontem de noite pelo biscate na casa de dona Beltrana. E a senhora já fez uma fezinha hoje?
A - E eu vou deixar de jogar pra deixar eles fazerem safadeza de novo?

domingo, 20 de setembro de 2009

Uma lágrima

Uma lágrima solitária
basta para afogar a alma.

sábado, 19 de setembro de 2009

Tempo é briga... (Sou meu tempo)

Depois do antes tem um agora
E todo instante é sempre hora
De chegar, ficar e ir embora:
Tempo é briga de ocaso e aurora.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Estética - A obra de arte

Não pretendo definir o que é a arte - não aqui nem agora. Quero apenas compartilhar com quem me lê uma constatação que fiz há poucos dias. Há quem pense que arte é tudo que sensibiliza, mesmo que não tenha sido feito por um artista nem com esta intenção.

Uma cachoeira e um cardume de peixes a revolutear nas águas claras do mar seriam autênticas obras de arte porque têm o poder de emocionar, de aguçar a imaginação.

Se um macaco pincela uma tela e a tela pincela a sensibilidade de alguém, então ela é arte. Se o canto de um canário encanta, por que não seria ele artístico?

Essa concepção, que não me agrada, institui como critério único do que é arte a comovedora beleza. Seu epíteto poderia ser "o que é belo, arte é". Assim sendo, a existência da obra de arte pode prescindir da do artista - salvo se creia que exista um Artista Supremo.

Como disse, não direi o que é a arte. Mas me parece que o critério da beleza é insuficiente para defini-la porque é um contra-senso dizer que pode haver a obra sem o autor. Um cardume não cria arte, mas nada.

Outra inconsistência que essa noção institui, possivelmente sem se dar conta, é a de que se arte é o que é belo, arte e artista se identificam completamente. Mas uma cachoeira não é artista e arte ao mesmo tempo; ela é qualquer coisa que nem sei definir muito bem, mas não é artista nem arte, muito menos ao mesmo tempo.

Se a arte pressupõe, ou melhor, exige um artista que a tenha concebido, então seria possível ser um artista sem disso saber? E o macaco? Saberá ele que o pincel é pincel? Saberá ele algo além de que colocar algumas cores num papel significa colocar algumas bananas na barriga?

A filosofia e o clichê

A filosofia esforça-se para ir além do clichê, o que nem sempre é fácil ou possível. Clichê é pátria e, como tal, é confortável.

A agonia da filosofia é que ela também tem o seu clichê, que é o de ir além dos clichês.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Vinícius




Assisti três vezes.

Juca Kfoury a respeito de Robinho...

"Robinho mais parece hoje em dia um triatleta que pedala, corre e...nada..."
Juca Kfoury.

Um dedinho da prosa de Rosa...

"[...] Do demo? Não gloso. Senhor pergunte aos moradores. Em falso receio, desfalam no nome dele - dizem só: o Que-diga. Vote! não... Quem muito se evita, se convive."

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Desespero

O desespero torna a alma asmática.

O tempo da música

Aí vai a diagnose de um mal que me aflige: não tenho tempo para só ouvir música. Ouço música enquanto faço outras coisas, enquanto me reparto em mil. Receio que cada vez mais um número menor de pessoas pode reservar algum momento do dia para ouvir os seus próprios espíritos mediante a experiência musical.

sábado, 5 de setembro de 2009

Resposta a Millôr

Comentário a respeito do texto "Pau neles, compadre!" de Millôr Fernandes que transcrevi na postagem anterior.

Qual o propósito de Millôr Fernandes ao reduzir a história humana à violência que os seres humanos infligem uns contra os outros? Parece que ele pretende nos convencer do equívoco da visão romântica que eventualmente tenhamos sobre nós mesmos. Então ele estaria tentando nos persuadir de que somos pela nossa própria natureza maus? Tudo me leva a crer que sim, afinal ele nos apresenta um desfile interminável de horrores (desfile que ele não parece lamentar); mostra-nos as páginas mais sanguinolentas da história e com isso possivelmente nos quer convencer de que definitivamente não prestamos.

Se de fato for essa a sua intenção, então ela é passível de crítica. Millôr Fernandes - qualquer um, aliás, - tem todo o direito de defender a sua concepção negativa a respeito do ser humano. Tal concepção, inclusive, é a mais fácil de sustentar devido à longa série de atrocidades e crimes praticados pelo homem contra o homem e que desde tempos imemoriais maculam a dignidade humana. Contudo, o ser humano não tem apenas semeado violência e colhido dor ao longo da história.

Mesmo que na balança da história o prato da violência pendesse mais que o do amor, não estaria com isso provada a maldade ontológica do ser humano, o qual realmente pode ser e é mau em muitos dos seus atos, mas não é, em essência, mau.

Só conhecemos o mal pelo bem e vice-versa. Se o ser humano fosse essencialmente mau, jamais nos indignaríamos com alguma maldade. Ao contrário disso, sempre que a violência campeia, irrompem imediatamente a indignação contra o mal e os atos que procuram anular os seus efeitos, como a solidariedade e o cuidado.

Mas se Millôr Fernandes está realmente convicto a respeito da maldade humana, aconselho àqueles que dele se aproximarem numa rua qualquer que tenham muito cuidado. Se o homem não presta, isto também é válido para o grande escritor.

Pau neles, compadre! - Millôr Fernandes

Transcrição de artigo de Millôr Fernandes publicado na Veja de 2 de setembro de 2009. Acima meu texto a respeito do de Millôr.

Pau neles, compadre!

Vocês, que continuam com visão româmntica do homem (atualmente chamado ser humano - como se fosse! - por imposição feminista), tirem o cavalinho idiota da chuva. Repito-me: o ser humano é um animal inviável. Em bando então, em grupo, em congressom em Congresso, na assim dita coletividade, a guerra é certa, escravizar o irmão tentação irresistível, o assalto ao mais fraco compulsivo. A milícia protetora cria o milico e feroz. A mais famosa fraternidade ainda é a de Caim.

A generosidade dura apenas - se - o tempo do primitivismo. Até o paleolítico o petecantropo só podia ser comunista. A carne apodrecia rapidamente (cheirava mal) e reparti-la era inevitável. No neolítico, quando se inventaram os vasilhames, o comunismo foi pro brejo, imenso, na época.

Deem uma leiturinha na história, deesde os horrores da Mesopotâmia - ressuscitados hoje, brilhantemente, por Saddam e Bush -, passando pela Grécia de sangueiras e traições transformadas em glóia e mito pelo tanlento homérico, passem pela impertérrita Inglaterra, cuja "revolução industrial" se alicerçou no tráfico de escraves e no saque (muito de nosso ouro, via Portugal). E nos Estados Unidos, esse gigante democrático, como foi? Perguntem a Búffalo Bill e ao general Custer, se não querem perguntar aos mexicanos. Ah, não se esqueçam de Hiroshima e Nagasaki. A Espanha, Deus do céu!; as touradas são apenas jogos infantis diante da sua colonização (Montezuma que o diga) nos quatro ou cinco cantos do mundo. E não vamos esquecer da Inquisição, Santa, aliás. A Holanda só não tem diques contra a própria e permanente cupidez. A Alemanha, pra só falar nos tempos atuais, inventou os campos de concentração, adotados rapidamente em todo o mundo democrático. Mas a revelação dos campodes de concentração é um fato pós-guerra. Se os alemães tivessem vencido, isso jamais apareceria e vocês iam ficar estarrecidos com os horrores aplicados pelos "nossos". Na Rússia da sempiterna crueldade, o homem sempre foi o lobo da estepe do homem. Quantas pessoas Stalin matou: dez, vinte, trinta, quarenta milhões? E os tzares? Foram uns querubins?

Dinamarca, os ingleses primitivos que o digam, Etiópia, onde há pouco mais de vinte anos os marxistas acabaram com uma das mais antigas aristocracias do mundo, Egito, aquele, dos Faraós, África do Sul, aquela, do Apartheid. E desçam pela América Central, revejam Incas, Maias e Astecas e constatem que esses povos, quando não estavam sendo violentados pelos europeus, estavam praticando as suas próprias barbaridades diuturnas em forma até de ritual sagrado. De violência em violência cheguem ao Brasil, esseoásis, antiga residência do homem cordial, atualmente pátria do bom selvagem, que vende as matas aos madereiros, explora os companheiros e, de vez em quando, como lazer, violenta uma branca distraída. No passado não foi pior apenas por incompetência - só inventou bordunas. Mas para que servem bordunas? Pra dar bordunadas.

Aos que acham que a violência do nosso tempo é maior do que jamais foi, devido ao excesso de população, estou parcialmente de acordo com eles. Não é só o excesso, é a concentração. Noutro dia fui andar na Avenida Copacabana e toda a superpopulação estava na rua.

E só existe um controle populacional infalível - a prosperidade. Portanto temos que acabar com a pobreza, de preferência eliminando os pobres. Pobre transa demais, gente!

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Velório

Lendo a respeito de mitos e ritos me dei conta de que o velório também é um rito de passagem. O sujeito velado passa da vida para a morte ou para outra forma de vida. Dependendo da fé, a passagem é, literalmente, dessa para uma melhor...

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Desigualdade e disparidade


Não devemos negar que a desigualdade entre os seres humanos é um fato. Há desigualdade em inúmeras esferas, como a intelectual, a de caráter, a de carisma etc. Tais desigualdades até podem justificar a desigualdade econômica, mas não podem jamais legitimar uma disparidade material exagerada. A desigualdade em todos os aspectos não pode ser abolida entre os seres humanos, enquanto que a miséria não pode tardar para ser extinta. O estado deplorável de miserabilidade não pode ser explicado pela incompetência dos indivíduos, mas pela crueldade da sociedade.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

A busca

A busca é como a alma
De água sedenta.
Sem pingo de calma
Barris arrebenta.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Uma resposta...

Busco rimas a todo momento.
Mas uma coisa agora saliento:
O cerne do meu poético experimento
Não é o mero rimar, mas o sentimento.

Música

Quem nos dera se a vida fosse música
A tocar a cada e a todo ínfimo instante.
E o embalo louco dos pés a nossa rubrica
Firmando a terra, a pele de nossa amante.

sábado, 22 de agosto de 2009

La teta asustada


Se tivesse de rotular o filme "La teta asustada" com apenas um adjetivo eu não relutaria em classificá-lo com um genérico "belíssimo". Por sorte,todavia, não estou obrigado a limitar numa síntese qualquer todo o conjunto da obra. Por essa razão tentarei explicar brevemente o porquê de ter achado esta "película" "peruana" tão bela.

O filme desabrocha numa metáfora do processo de colonização ainda em curso. Os conflitos e as negociações entre as culturas ameríndia e européia são reeditados vigorosomante na vida de uma jovem cindida interiormente pelo embate entre o imaginário mágico ancestral e o imaginário eclético contemporâneo. E tanto num quanto noutro é sempre a mulher a sofrer o que neles há de pior. Pior que em vários e preciosos instantes é transubstancializado em beleza nas canções do filme.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Dois destinos conspirados


Tiradentes esquartejado

E numa praça pendurado.

Silvério Reis perdoado,

Pelo plano ter delatado.

domingo, 16 de agosto de 2009

História


O fogo que renova a história

Apenas se mantém aceso

Na medida em que a memória

Vive, mas não como sobrepeso.

Política

Numa terra distante da nossa, vivia um rapaz de vinte cinco anos cuja vida consistia basicamente na leitura dos clássicos do pensamento da sua cultura. Ele era regrado, obstinado e infatigável. Devorava religiosamente duzentas páginas por dias e já se dedicava a este labor há exatos dez anos, de modo que neste intervalo leu um pouco mais de 730 mil páginas. Era, portanto, um sábio na apreciação da população.

De acordo com os costumes, o jovem sábio foi apresentado ao velho sábio daquela sociedade, para poder deste obter a consagração definitiva mediante uma complexa arguição. O diploma assinado pelo punho do mestre ancião concedia ao jovem os títulos de Mestre em Mistérios Insondáveis, Doutor em Ciência dos Paradoxos e Pós-Doutor em Caosmoslogia. Terminado o rito, o vetusto sábio retirou-se da sua função oficial de Asceta do Estado e deu posse, para substitui-lo, ao novo Asceta. Tudo isso se passou, coincidentemente, no mesmo dia em que na nossa própria pátria um brilhante professor passou a faixa presidencial para um operário sindicalista.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Dúvida estética



Haverá diferença substancial

Entre uma partícula do Belo

Brotada do seio do natural

E outra criada pelo cerebelo?

O inferno

O inferno deve ser um mundo de eternos insones.

O Ser da arte...

De tudo aquilo quanto há
Nada deixa de ser parte
Do Insondável Ser que se dá
A ver modicamente na arte.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Livros


Entre um e outro livro

Vou e volto ao México,

Outras tantas vidas vivo

E ainda amplio o léxico.

domingo, 9 de agosto de 2009

Há tanto tempo que te amo

O papel da protagonista é perturbador. Ela pareceu-me uma mulher de força descomunal, por um lado, e demasiadamente frágil, por outro. Na sua pele, faria o que fez, transgrediria o tabu, mas não me entregaria como um bode expiatório. De qualquer modo, são apenas conjecturas e um julgameno, e felizmente a beleza do filme não se constrói a partir deles.

Cultura do medo

Hoje cedo - em pleno dia dos pais - fui visitar aquela que ao mundo me trouxe. Na entrada do edifício, fui abordado por uma senhora que me perguntou num tom um tanto quanto ríspido se lá eu residia, ao que lhe respondi que não, que estava a visitar a minha mãe. A mulher não se satisfez e me perguntou em que andar morava minha mama e eu não relutei em lhe dar a informação. Enfim, ela saiu e eu entrei. Com esse episódio banal me vieram dois pensamentos à mente.

O primeiro: quanta ingenuidade! Se eu estivesse mentindo, o que poderia a senhora fazer? Gritar, apenas. Ela não conseguiria me deter e muito menos impediria um bandido desejoso de lá entrar por qualquer má razão. O segundo pensamento me diz que aquilo foi uma reação autmomática, um impulso imediato decorrente do medo que nos envolve a todos nesses dias difíceis em que o nosso olhar já não mais é livre para simplesmente olhar, porque se tornou cativo ao ter de ser vigilante.

Eugène Ionesco - A título de registro


Há uma semana eu não sabia quem era Eugène Ionesco, até que li um texto em que o seu compatriota Mircea Eliade a ele se referiu. Fiquei curioso. Para minha surpresa, vi que a peça "A lição" estava em cartaz num teatro aqui de Recife (o teatro Hermilo Borba Filho). Assisti ontem à noite à última apresentação do Grupo Osicran (formado por jovens atores) e gostei bastante. É incrível como o absurdo, que deveria ser aquilo que é completamente destituído de sentido, é, pelo contrário, significativamente carregado de sentidos quando manejado por um autor como Ionesco. Toda a insensatez encenada remete imediatamente à raiz da racionalidade que somos o apelo de revisarmos nossas crenças e atitudes, nosso ser neste mundo.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Ezra Pound - ABC DA LITERATURA

Duas citações:

"Literatura é novidade que PERMANECE novidade". P. 33

"A música apodrece quando se afasta muito da dança. A poesia se atrofia quando se afasta muito da música". P.61

Editora Cultrix, 2006

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Bachianas Brasileiras

Bachianas Brasileiras: BBeleza Universal...

Idade

Beirando os trinta anos, quero ter a maturidade dos homens de quarenta e o vigor dos de vinte.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Prazer, Alegria, Felicidade

O prazer é um piscar de olhos da felicidade; a alegria, por sua vez, é um suspiro da felicidade.

Nietzsche

"Para ver uma coisa por completo, o homem precisa ter dois olhos, um do amor e outro do ódio"
Nietzsche
Fragmento 16 [53] - 1876

Será que devo comentar?

Variações de Secos e Molhados

Quem cativa minha alma cativa?

Solidão

Não há câncer mais cruel
Que a involuntária solidão.
É como um amplo e belo céu
Sem aves, sol, núvens, avião.

domingo, 26 de julho de 2009

Eu estrangeiro

Certa vez pisei em solo estrangeiro. Era um solo tão frio que me queimava o espírito. Meus passos naquela terra eram ainda mais trôpegos do que os usuais. Meus olhos vagavam em vão como uma pluma ao vento e nada de conhecido havia em que pudessem pousar. Meu nariz tentava sem sucesso sequestrar um odor conhecido, um cheiro reconfortante. Minha língua congelava, fazendo dos meus pensamentos blocos de pedras brancas. Minha pele não mais era a porta que me abria ao mundo, mas um muro, o invólucro circundante do não-ser em que me tornava. À beira da anulação, veio-me em socorro um anjo. Antes de me afogar no terrível Lago do Nada, fui salvo por esta entidade sobrenatural. Meus ouvidos se agarraram a ela como um náufrago se prende a uma bóia. Meus ouvidos me salvaram ao se agarrarem a uma palavra que repentinamente soou mais alto, palavra até vulgar, chã, suja, mas familiar.

Contrastes humanos

Um passeio público sujo com muitas poças de água imunda, muito papel, muita miséria. Pés apressados, vozes entrecortadas, multidão, barulho, confusão.

Nesse vórtice em que se remoe toda a bestialidade humana, um transeunte caminha como que alheado deste pandemônio em que está mergulhado. Sua face irradia vida. Sua mão esquerda carrega uma rosa; sua outra mão, dois anéis; sua mente, uma ilusão.

Equilíbrio humano

Em cada um de nós se conjuga em perfeita proporção o previsível e o surpreendente.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Controle

O desejo de tudo controlar pode ser um sintoma de uma absoluta ausência de controle sobre si mesmo.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Sirene

O que é o soar de uma sirene?
É um canto de ninar?
É a voz da morte?
É um atalho no trânsito
...
da vida?

Cinema

Desde a sua infância mais remota, quando sonham, todos os homens se exercitam na arte de criar roteiros. Até a sua morte, porém, apenas alguns revelar-se-ão exímios diretores; apenas alguns dominarão a técnica da lapidação da pedra bruta do sonho.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Conflito

No mais íntimo de cada homem há sempre um transgressor de mãos dadas com um juiz...

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Mito

Excerto extraído do livro "O poder do mito" de Joseph Campbell

A mitologia é a música. É a música da imaginação, inspirada nas energias do
corpo. Uma vez um mestre zen parou diante de seus discípulos, prestes a proferir um
sermão. No instante em que ele ia abrir a boca, um pássaro cantou. E ele disse: “O sermão já foi proferido”.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Man on Wire - O Equilibrista





O melhor filme que vi este ano...

Desabafo de uma rua

Carrego um peso pesadíssimo. Andam, correm, pulam sobre mim. Fogem, dançam, caem, arrastam-se sobre o que sou. Sou esteio e sou chão. Sou abrigo. Sou também via, passagem, caminho. Mas os pés sempre estão lá, nunca deixam de se apoiar sobre mim. Pisam-me o ser. Sou de todos. Todos me possuem, poucos me notam e ninguém me beija.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Paciência



Sou tão paciente quanto uma onda que urge para arrebentar.

terça-feira, 7 de julho de 2009

A palavra "saudade"

Quem nunca ouviu dizer que a palavra "saudade" é intraduzível? Não seria possível vertê-la para outros vernáculos porque, segundo se crê por aí, ela é prerrogativa exclusiva da língua portuguesa. Pode ser, vá lá... Mas isto não significa que dois indivíduos ao usarem a palavra "saudade" para expressar o que julgam sentir, representem exatamente a mesma disposição anímica. Isto tampouco significa que quem não usa a palavra "saudade" para traduzir para si mesmo e para o mundo exterior o seu estado psíquico não esteja representando simbolicamente algo assim como a saudade.




Fila


Todos têm um caminho e todos os caminhos começam com uma fila.

domingo, 5 de julho de 2009

Descomeço - Manoel de Barros

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é a voz do poeta, que é a voz
de fazer nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.

Manoel de Barros

Hamlet



O texto foi concebido para o teatro, sem dúvidas, mas creio que encená-lo é conspurcá-lo...

sábado, 4 de julho de 2009

Casa Blanca


Magnífico

Gnôthi Seauton

Gnôthi seauton (conhece-te a ti mesmo) era o dístico afixado na entrada do Oráculo de Delfos; era também a divisa dileta de alguns dos sábios mais excelsos da Antiguidade.

Confesso, no entanto, que peno para fazer o que a máxima recomenda. Peno, peno e o que colho é apenas malogro. Não sei o que me ocorre, mas quando direciono o meu olhar para mim mesmo sinto que a minha miopia agrava-se absurdamente, de modo que a minha percepção progressivamente vai se debilitando mais e mais na mesma medida em que me torno hipermetrope e astigmata.

Vezes há em que ao tentar ter de mim mesmo uma visão profunda, fico com a impressão de que me vejo num daqueles espelhos que nos deformam a figura. Minha tarefa nessas ocasiões é buscar, em vão, recompor-me.



domingo, 28 de junho de 2009

É ISTO UM HOMEM?

Vocês que vivem seguros
em suas cálidas casas,
vocês que, voltando à noite,
encontram comida quente e rostos amigos,

pensem bem se isto é um homem
que trabalha no meio do barro,
que não conhece a paz,
que luta por um pedaço de pão,
que morre por um sim ou um não.
Pensem bem se isto é uma mulher,
sem cabelos e sem nome,
sem mais força para lembrar,
vazios os olhos, frio o ventre,
como um sapo no inverno.

Pensem que isto aconteceu:
eu lhes mando estas palavras.
Gravem-nas em seus corações,
estando em casa, andando na rua,
ao deitar, ao levantar;
repitam-nas a seus filhos.

Ou, senão, desmorone-se a sua casa,
a doença os torne invalidos, os seus filhos virem o rosto para não vê-los.


Primo Levi

sábado, 27 de junho de 2009

sábado, 20 de junho de 2009

Desrespeito

Há uma prática sutil e cruel de desrespeito: a indiferença aos que merecem e necessitam de cuidado.




sexta-feira, 19 de junho de 2009

Símbolo

Um símbolo é a natureza humana a se espargir pelo cosmos. E dentre todos os símbolos isolados ou combinados, nenhum há que espelhe mais fidedignamente esta natureza que a ?.

Anticorpo

O marginalizado é a encarnação máxima da figura do outro; seu corpo é uma ameaça; o marginalizado é o anticidadão, é o anticorpo da urbe.

Comprar

Nos dias solitários da contemporaneidade, comprar se afigura muitas vezes como uma experiência afirmativa do ego.

ps: pensando bem, depende do bar...

terça-feira, 16 de junho de 2009

Velhice

Com a velhice não chegam necessariamente a virtude e a honradez. A idade avançada não faz de um crápula um santo.


Spinoza



"[...] por estarem conscientes de suas volições e apetites, os homens se crêem livres, mas nem em sonho pensam nas causas que os dispõem a ter essas vontades e esses apetites, porque as ignoram."


segunda-feira, 15 de junho de 2009

Amanhã

Incógnito é o amanhã
Que se avizinha de mim.
De nada adianta o afã
De sondar a face do fim.

Uma mão

Em treva profunda
Me perdi uma vez.
Mas uma mão rotunda
No abismo encontrei.

Riso

O riso é a arma maior que nos pode livrar da loucura.

domingo, 14 de junho de 2009

Walt Whitman - To you

A você

Forasteiro, se, enquanto passas, desejares falar comigo,
Por que não o farias?
Por que eu não haveria de ter contigo?

Livre tradução

quarta-feira, 29 de abril de 2009

A vencedora


Maria Sheila Bezerra da Silva, és uma das vencedoras na categoria artigo científico de alunos de pós-graduação.
Mereces muito este prêmio.
Tenho tanto orgulho de ti...
Te amo amando-te demais.

O concreto da minha cidade


O que há de concreto na minha cidade são as dores e as alegrias que nela vivi: não há cimento, ferro ou tijolo que se lhes comparem.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Estranha Criatura

Sou todo alegria,
Mesmo frustrado.
Sou todo agonia,
Mesmo logrado.

sábado, 25 de abril de 2009

Zumbi

Relutei um tanto antes de decidir contar o que a seguir contarei. Relutei porque o fato de que falarei - a vida de um homem pobre - parece prosaico demais, destituído de importância. Todavia, toda vida é digna de ser objeto de reflexão.

Desde pequeno registrei em minha memória a existência singular de um indivíduo intrigante. Em Boa Viagem, no ponto em que eu costumava esperar o coletivo quando deixava a escola e ia para casa, havia um senhor moreno, gordo, de cabelos assanhados, roupas sujas e amassadas a vender num tabuleiro amendoim, pipoca e outros petiscos. O curioso é que ele quase sempre estava dormindo. O tabuleiro ficava exposto, totalmente vulnerável e o seu dono permanecia dormindo num banquinho com o tronco curvado, como se todo o peso do tabuleiro lhe vergasse. Poucas vezes o vi acordado.

Uma certa tarde, quando voltava para casa depois da aula, tive um grande susto. Caminhando em direção à parada de ônibus, passava eu ao lado de uma árvore bem alta quando algo pesado despencou de cima dela: era o senhor que vendia amendoim. Ele estava dormindo sobre um galho que cedeu ao seu peso. Vi quando ele se levantou atordoado, mas ileso. Caiu sobre um carro que ficou ligeiramente amassado.

Guardei as imagens narradas acima durante muitos anos. Mas, com o tempo, elas deixaram de ser recorrentes; decerto porque eu não mais transitava com regularidade por aquele local em que costumava ver aquele senhor quase sempre a dormir.

Há uns quinze dias, quando voltava da praia com Sheila, ouvi uma voz bocejante dizendo: "ai que sono!". Olhei para trás e naquele instante exato vieram-me à mente, condensadas, a imagem atual e as imagens remotas daquele senhor desgrenhado e sonolento ao lado do seu velho tabuleiro.

Penso agora.

Que existência pesada a daquele homem! Parece um zumbi; parece não ter um lugar para repousar o corpo; parece errar interminavelmente pelos rios de asfalto desta cidade indiferente. Meu fardo não é leve, mas, comparado com o daquele homem, parece insignificante.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Passageiro


Peço licença àqueles que estão fartos de tanta coisa ruim e negativa para falar um pouco sobre as minhas experiências nos coletivos da cidade do Recife.
A rigor, essas experiências não são totalmente minhas, mas de uma multidão de indivíduos que utilizam esse serviço diariamente. São minhas apenas em parte ou a partir do momento que a minha subjetividade as interpreta ao seu modo.
Falarei de uma de tantas coisas sobre as quais poderia e espero falar no futuro, como da violência neste meio de transporte, violência que vitimou, semana passada, um amigo e também meu pai. Agora, no entanto, falarei apenas sobre um aspecto particular e dos mais intrigantes para mim.
Falo do caso das pessoas que sobem nos ônibus para ganhar algum dinheiro, quer pedindo, quer comerciando algo. O caso de que começo a falar é dos mais comuns nas grandes cidades. Falo com certa propriedade, pois além de espectador experiente, habituado demais a testemunhar eventos desta natureza, já fiz breves incursões pelos coletivos com a finalidade de ganhar um troco com a venda de incensos.
Minha experiência como vendedor ambulante em coletivos não foi das mais emocionantes, nem tão bem sucedida assim. Na verdade, foi efêmera. Mas vale um parágrafo.
Meu trabalho em ônibus remonta à época em que fui um devoto de Krishna. Eu estava desempregado naquele tempo (por volta de 2005 ou 2006, não me lembro bem) e me veio à mente a ideia de ganhar um troco do modo como muitos outros hares faziam e fazem: fui vender incensos. Eu não vendia apenas nos ônibus, na verdade eu quase não vendia nos ônibus. Eles continuavam sendo para mim um meio de transporte que me levavam ao ponto que escolhi para trabalhar. Poucas vezes me senti à vontade de oferecer o produto que vendia às pessoas que viajavam comigo e quando o fiz, eu o oferecia apenas a algumas poucas dessas pessoas. Eu tinha certa vergonha, o que não sentia na rua.
Um dia talvez eu escreva sobre o que vi e vivi vendendo incensos nas ruas do centro Recife. Agora, porém, quero incorporar o papel de usuário dos ônibus coletivos, quero incorporar o papel de cronista, "quero pegar da pena e castigar o papel".
Hoje cedo fui chamado de besta por uma cobradora de um dos tantos ônibus do Recife. Tudo isso porque dei duas moedinhas a um rapazinho de uns quinze anos aproximadamente. É, estou sendo infiel ao desenrolar dos fatos. Foi assim...
Eu ia para o belo Parque da Jaqueira e tinha ao meu lado a não menos bela Sheilinha. Conversávamos entretidos em não sei o quê. Subiu, pela porta traseira, o mancebo. Pediu-nos um trocado com toda a polidez que lhe era possível, ou seja, praticamente nos ameaçando. Dei-lhe vinte centavos. Ele recolheu mais algumas moedas de outros passageiros e gritou: "abre aí motô". Foi prontamente atendido. Antes de descer, todavia, teve tempo de atender o seu celular. Pude ver-lhe as feições logo após ter descido do transporte público e juro que ele falava e gesticulava com uma desenvoltura típica de pessoas bem posicionadas na sociedade.
"E tem besta que ainda dá!". Se não foi isso, foi quase isso que a cobradora falou. Ri interiormente de mim mesmo. Quer dizer, não sei o porquê do meu riso, mas ri e relevei, no momento, só no momento, pois cá estou eu agora a relatar o que se passou. E se relato é porque não relevei embora não consiga até agora expressar exatamente o que senti e o que sinto.
Não é a primeira vez que algo do tipo acontece comigo. Para falar a verdade, nem de longe experiências desse tipo são as mais marcantes que vivi nos coletivos do Recife. Já vi tanta coisa... Contudo, quero falar um pouco mais sobre isto, relatando brevemente outros dois casos semelhantes. Não. Relatarei só mais um caso. Tenho de aprender a lidar com o meu jeito prolixo de ser.
Pensando bem, para cumprir o que a mim mesmo instituí e exercitar a arte da concisão, não direi mais o que pretendia dizer, direi apenas que costumo acreditar nas mais toscas dramatizações que acontecem nos ônibus. Sempre escuto piadinhas de outros passageiros ou do cobrador que denunciam a minha ingenuidade (prefiro crer que se trata de boa-fé!).
Encerro, por ora, então, o relato dos meus causos de interior... de ônibus.






domingo, 19 de abril de 2009

O Cavaleiro Inexistente


Está ficando comum, mas não posso não recomendar o que gosto a quem gosta de mim.

Balbucio



O desejo de ver cada coisa o tempo todo no seu devido lugar oblitera a capacidade do indivíduo de ver o seu lugar devido, qual seja, o de rapace de elementos do caos e de artesão de imagens para o cosmo.

Pode ser diferente? Deve ser... Mas não nos é possível nesta matéria senão especular e desejar num afã desesperado que nossos eternos balbucios acabem por nos convencer de que o que ansiamos é a excelsa maravilha.

O desejo por uma pátria idílica na qual é e será possível fazer repousar as dúvidas e inquietações de toda ordem não assegura que a mesma seja um lugar efetivamente real.

A necessidade por uma terra da certeza em que o branco é branco e o preto é preto e nunca de outro modo e sempre em prefeita harmonia esconde uma insegurança indigna de louvor, já que ela - a insegurança - se pretende fazer passar por uma sábia senhora segura de cada palavra que lhe sai da boca.

A inexorabilidade do erro advém da natureza débil e melindrosa do nosso intelecto, assim como a necessidade da verdade também é oriunda desta mesma natureza débil e melindrosa do nosso pensamento. Se essa afirmação tropeça em si mesma é porque ela ama a coerência de desdizer-se e a contradição de coerir-se.

Ideia e mundo não são absolutamente estranhos a ponto de não se relacionarem de alguma forma, mas disso não deriva a necessidade de o oposto ser verdade: pensamento e realidade não coincidem absolutamente a ponto de o dizer ser algo além do que a representação da coisa dita. Desta situação sui generis decorre, em adição à razão acima apresentada, a necessidade do erro e da contradição. Erro e contradição, aliás, que construíram coisas abomináveis e admiráveis em nossa história.

Nem todas as pessoas concordam com o que foi dito acima. Isto é um indício de que nossos intelectos são confusos, débeis e contraditórios. Não é indício, porém, de que a malfadada concepção maniqueísta tem necessariamente razão, não significa que uns (ou a maioria) são tolos ignorantes responsáveis por todas as mazelas mundanas e outros (bem poucos) são os iluminados e virtuosos sábios capazes de pingar uma gota de lenitivo na ferida aberta que julgam ser o mundo.










sábado, 18 de abril de 2009

Convicção

Um certo guru de qual luto para desgarrar-me disse com as suas próprias palavras que a convicção e a certeza são meros sentimentos e não podem ser, por essa razão, argumentos em prol da verdade. Estar convicto a respeito da natureza de algo só prova verdadeiramente uma coisa: que se está convicto e nada mais...

sábado, 11 de abril de 2009

Guias




Estou absolutamente farto

De todos os grandes guias.

Não me incomodo: parto

E sigo por tortuosas vias.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Sugestão: Os Girassóis da Rússia


Nem sempre consigo dizer o porquê de algo me ter feito bem ou mal. É o caso deste filme de Vittorio de Sica que recomendo peremptoriamente por me ter feito bem demais.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

no escape

between a word and other
i go through nowhere.
i left father and mother
i´m lost in a close square.

love

don´t go away from my mind
i got to got ya with me all time
otherwise i'm gonna find
or fall down in the last line.

i need no mercy

sometimes i wish i could get out of this messy
sometimes i feel i have something to add
but i won´t ask again for any mercy
to any god or government. i need no aid.

Ego

Há mesmo algo
Entre um desejo
E outro: Meu ego,
Pequeno lampejo.

domingo, 5 de abril de 2009

A terapia de um domingo à noite

Terapia é ter a pia
Suja depois do jantar.
As roupas amassadas
E ainda por passar.

Outro mundo

Ontem à noite, numa praça que atualmente está muito bela devido à reforma recente por que passou, a Praça do Derby, vi dois homens num banco, um apoiava a cabeça no colo do outro. Entre afagos gentis, conversavam, riam e... pareciam felizes naquela esquina da Terra, naquele pedacinho do Tempo.
Um desses rapazes me viu e se assustou um pouco quando deles me aproximei. Fiquei constrangido, confesso. Não por eles, mas por mim mesmo: constrangido por não ter cogitado verdadeiramente que um dia presenciaria uma cena como aquela e que a ela reagiria com a "naturalidade" do respeito; constrangido por saber que a minha figura representou uma ameaça ao bem-estar alheio, bem-estar que não me causava mal-estar algum, a não ser...
A não ser por mim mesmo. O mal-estar e o constrangimento que senti tinham como substrato os meus próprios preconceitos. Os rapazes não faziam nada de diferente que um casal apaixonado costuma fazer, não me ameaçavam, portanto. Seus gestos, como disse, eram carinhosos e como tais devem ser louvados e incentivados, mas jamais recriminados. Carinho, cuidado, respeito, atenção é tudo o que precisamos.
É verdade que ninguém é obrigado a gostar de ver dois homens ou duas mulheres de mãos dadas, beijando-se carinhosamente. Mas ninguém deveria ser obrigado a ocultar seus gestos de carinho e de amor para com outrem porque há quem se sinta afetado negativamente por isso.

Boas Maneiras

Desde um tempo para cá, desde que Sheila apareceu em minha vida há pouco mais de dois anos e meio, para ser preciso, venho adquirindo uma percepção inusitada dos acontecimentos de um evento quase que banal. Percebo-o diferentemente graças às conversas que tive com Sheila. Se ela não abrisse a boca para reclamar e para me educar, certamente tudo estaria igual.
Estranha-me mesmo o fato de a mulher ser tratada como um mero apêndice do homem numa mesa de um bar ou na de um restaurante. Na absoluta maioria das vezes que saímos para jantar, os funcionários desses estabelecimentos se dirigem apenas a mim, quer para ouvir o que desejamos comer, quer para entregar-me a conta ou mesmo, pasmem, desejar um "boa noite". Tudo costuma acontecer como se a presença de Sheila - a mulher - fosse inexpressiva, ou melhor (dizendo), como se ela não existisse.
Com que espanto reagem alguns desses garçons quando Sheila paga a conta! Parece-me que isso - a mulher pagar a conta - não é mais algo tão incomum nos dias atuais, mas mesmo assim eles insistem no procedimento de descondideração, mais que isso, de desrespeito para com as mulheres.
Há, é verdade, uma penca de mulheres que não se incomodam com isso. Porém, se não se incomodam é porque sequer conseguem perceber-se desprestigiadas. Engolem o engodo das boas maneiras, da cortesia e demais látegos sutis.
A mim não me parece haver maior demonstração de boa educação que a de tratar com deferência equilibrada os outros e as outras.

Meu peito

Às vezes minha dor é tão dorida, que chego a crer que o coração do mundo bate em meu peito.

Corrida

Se buscássemos nas modalidades esportivas alguma que se comparasse com a vida, é provável que a corrida se prestasse muito bem a esse cotejamento (e é possível que outros ainda servissem). A peculiaridade da vida é que nem sempre sabemos a extensão desta corrida: trata-se de uma prova de quantos metros, afinal? Tampouco sabemos, embora suspeitemos, da nossa real posição nessa disputa que travamos com o nosso próprio corpo.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

De filho para pai

Hoje cedo, num noticiário de grande audiência, foi exibida uma reportagem muito bonita sobre torcedores de futebol, torcedores mirins, na verdade. A grande questão em pauta na referida reportagem era: “como escolhemos um time?”. Várias suposições foram aventadas, mas, a mais recorrente foi a de que tendemos a adotar o time de alguém que admiramos muito na infância, geralmente nossos pais. Talvez isto explique muitos casos, porém outros tantos há que escapolem ao pressuposto básico desta hipótese. O fato é que há algo de mágico na relação entre um torcedor e o seu time estimado e, por conta deste elemento mágico ou do imaginário profundo, paira um grande mistério sobre a lógica de funcionamento da mente de um torcedor enamorado por um time. Há qualquer coisa de inefável nisso tudo (é possível que sociólogos ou outros acadêmicos discordem daquilo que afirmei e reduzam o fenômeno à uma fórmula simples, talvez até calhe a famigerada “pão e circo”!).
Bem, o que quero mesmo é relatar uma historieta a mim relatada por meu pai, cujo protagonista sou eu mesmo, embora na ocasião eu fosse apenas um infante. Eis a breve narrativa do fato: um dia, quando eu tinha uns nove anos de idade, mais ou menos, recém convertido ao Sport, aproximei-me de meu pai e lhe disse. “Você agora é Santa Cruz. Quero alguém pra torcer contra o meu time”.
Como não me lembrasse de ter por decreto declarado meu pai tricolor, cresci ouvindo-o dizer-se torcedor do Santa Cruz. Eu não compreendia aquilo, afinal não consigo imaginar ninguém mais avesso ao futebol que o meu pai. Tenho algumas fortes imagens na memória que me induzem a pensar assim: levou-me à Ilha do Retiro e mesmo ao Arruda algumas vezes, mas não prestava atenção aos jogos, preferia ler o jornal e beber a sua cervejinha. Outro caso: dormiu durante os jogos do Brasil na Copa de 1994, inclusive na grande final.
Minha história talvez sirva para mostrar que a hipótese, para alguns uma tese comprovada, de que os pais determinam a paixão dos filhos por um time não é necessariamente verdadeira. No meu caso, determinei, não diria a paixão, mas a simpatia do meu pai pelo tricolor do Arruda. O caminho foi inverso, duas vezes: além de a influência ter sido de filho para pai, foi de um time para outro. Hoje, certamente, tentaria convencê-lo da conveniência de ser rubro-negro: festejamos mais do que qualquer outro time nordestino.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Sugestão


Entre os muros da escola. Sem comentários!

Sono

O Sono é o senhor dos sequestradores. Quando resolve agir, por mais que às vezes demore a dar o ar de sua graça, age de modo tão sorrateiro que nunca percebemos o instante exato em que dá o bote e nos leva embora a consciência.

sábado, 28 de março de 2009

Jogar conversa fora

“Jogar conversa fora”, ao pé da letra, significa ter uma conversa despropositada , casual e sem um fim prático em vista. Mas, para mim, não há conversação mais salutar, agradável e importante do que aquela em que jogo conversa fora ao lado de uma pessoa querida.

Ps: “Ao pé da letra” é uma estranha expressão de caráter metafórico usada para salientar que não se deve compreender uma outra expressão de modo metafórico.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Responsabilidade x irresponsabilidade: pequeno ensaio acerca da violência banalizada.

Não sou um moralista inveterado e quem me conhece pode dar o aval acerca do que digo. No entanto, há assuntos que exigem de mim (e de todos) um pronunciamento enérgico e, no caso específico ao qual farei referência, não é razoável outro posicionamento senão o de repúdio absoluto. De que se trata?

Da difusão do jogo de video game de origem japonesa (Rapelay) no qual o jogador, para cumprir o seu objetivo, tem de estuprar uma mulher e duas meninas.

A banalização da violência e mais especificamente da violência contra as mulheres e contra as crianças atinge com o tal jogo o cume absoluto e com isso ultrapassa qualquer limite de perversidade. Quantas mentes doentias! Algumas para projetar, outras para investir, outras ainda para difundir via comércio e, no fim deste ciclo infernal, outras tantas para consumir e deliciar-se com as cenas terríveis do jogo.

Como categorizar a mente de alguém que de algum modo patrocina práticas tão terríveis senão com o conceito de “doente”? É isso: alguém que fomenta a violência degradante só pode ser um doente. Mas será mesmo?

O termo “doente” sugere ausência de responsabilidade por parte de um infrator, o qual, para eximir-se da culpa, pode alegar em sua defesa que a condição de doente lhe impossibilita desenvolver o controle necessário sobre os seus atos. Ou seja, o doente seria irresponsável tanto no plano moral quanto no âmbito legal.

Por isso, sugiro a todos a prudência de não tratar alguém que incorreu num crime desta natureza como doente, a menos que esteja seguro do juízo que faz (o que não garante a veracidade da opinião).

Proponho também que não enfatizemos um dos sentidos do termo “irresponsabilidade” (e, conseqüentemente, do seu derivado: “irresponsável”).

Uma das formas pela qual compreendemos vulgarmente a referida palavra é, num exemplo, a de quem não precisa prestar contas daquilo que faz: por ser doente, não pode não fazer o que faz. Não pode decidir, escolher, em resumo, não tem livre arbítrio e, por esta razão, é completamente refém dos seus ímpetos e arroubos nefastos.

Qual o sentido que devemos ressaltar, então?

Irresponsável é qualquer criminoso comum justamente condenado, mas também é qualquer cidadão (qualquer homem de bem!) injustamente impune. Portanto, irresponsável pode ser também aquele que se exime de fazer o que deve fazer ou que faz o que deveria evitar fazer. Mais do que isto: irresponsável é aquele que, deliberadamente, faz ou deixa de fazer o que a obrigação lhe impõe. Irresponsável é o transgressor consciente e não acidental de uma regra de valor inquestionável segundo o bom senso. Neste sentido, o irresponsável responde pelos seus atos. Ele é irresponsável porque poderia não sê-lo. É, portanto, culpável.

O irresponsável que de alguma forma contribui para a propagação do referido jogo não pode ser qualificado como doente. Não pode porque normalmente os doentes deste tipo não rasgam dinheiro nem jogam as moedas fora. Quem é são para contar e fazer dinheiro se multiplicar, não pode ser doente para outras coisas...

Slumdog Millionaire


Algumas palavras acerca de "Quem quer ser um milionário?". Se você, leitor virtual, ainda não viu o filme, não leia o meu texto.

Bom filme. Na verdade, na escala hierárquica dos adjetivos recomendada pelo meu Inmetro, ele me parece ser mais do que simplesmente bom e menos do que absolutamente excelente. Em suma, vale a pena (que é o ingresso caro) vê-lo na telona.

Vale a pena porque o Bem, no final, triunfa sobre o Mal. O feijão com arroz, essa fórmula antiga e tão nutritiva preparada pelos enlatados, se não mata, fortalece... Enfim, é possível perseverar na esperança. Se não está tudo bem, é porque o fim ainda não chegou...

Vale a pena também porque o filme é um passeio de trem por uma Índia que não passa na novela das oito. Vale ressaltar que os trens da índia são superlotados (talvez por isso Sheila tenha ficado nauseada).

Ainda vale a pena ver o filme porque ele é envolvente (o que não diz muita coisa). Envolvente porque ele faz com que nos ocorra, ao mesmo tempo, uma série extensa de sentimentos. É bem verdade que isto é já quase vulgar na sétima arte. De todo modo, nunca é demais sentir-se receoso, esperançoso, eufórico, enraivecido e outras tantas coisas concamitantemente. Qual a finalidade de buscar esse tipo de experiência? É possível que para uns, e talvez eu me inclua neste grupo, a película os ajude a (ir)romper (d)o letárgico compasso da vida. Bem, não sei se esta resposta satisfaz, mas o que me importa, e deveria importar aos meus leitores virtuais, é que o filme satisfaz de alguma maneira misteriosa a muita gente (sei que isso não é argumento, mas parece ser verdadeiro pelo menos para mim, arremedo de crítico!).

Mas não falei quase nada do filme. Nem o farei. Afinal, escrevo para quem o assistiu. Não vou desfiar o enredo para quem já o conhece. Mas pergunto para os tais espectadores, caros leitores meus: se Jamal tivesse errado a última pergunta, o filme teria sido tão agraciado na cerimônia do Oscar? Teria sido sequer indicado para concorrer a um prêmio que fosse em Hollywood? Eu confesso que não sei a resposta. Entendo pouco de cinema e ainda menos de realidades hipotéticas. Mas os leitores podem ser mais perspicazes do que eu...

Outra coisa digna de nota é a dança no final do filme. Já ouvi dizer que ela é uma lei, por paradoxal que pareça, consuetudinária nos cânones do cinema indiano. Isto me fez pensar que eu jamais poderia ser um astro de Bollywood.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Um filho

Hoje cedinho, na famosa e formosa praia de Boa Viagem, refrescava-me eu, em pé, com um côco em minhas mãos e Sheila ao meu lado. Estávamos diante do mar. De repente, aproximou-se de nós um rapaz que vendia óculos escuros. Pensei, de imediato e equivocadamente, que ele me ofereceria um dos óculos do seu mostruário. Nem o deixei falar, recusei com um aceno. Mas mesmo assim ele falou. Disse-me: "De longe eu vi uma criança nos seus braços, mas agora só vejo um côco. Acho que foi uma visão". Falou e foi embora, orgulhoso como um profeta! Na hora só me lembrei da música de Raul Seixas: "Quem não tem colírio, usa óculos escuros"!

quarta-feira, 18 de março de 2009

Criacionismo(s) x evolucionismo: algumas informações e algumas reflexões


O criacionismo é a ideia segundo a qual a vida em geral e em cada manifestação singular teria sido criada por Deus. O criacionismo se desdobra em duas vertentes. Apresentemos, inicialmente, a sua versão tradicional ou clássica.
O criacionismo clássico interpreta de modo literal a narrativa bíblica do livro do Gênesis e, por esta razão, crê que o surgimento da vida não se deu há mais de 10.000 anos. Além disso, para o criacionismo clássico, todas as formas de vida, quando criadas do nada por Deus, já tinham as mesmas características que apresentam atualmente. Ele nega, portanto, a possibilidade de ter havido qualquer forma de evolução: nenhuma espécie teria se desenvolvido a partir de outra mais originária e menos complexa. Por fim, faz parte das crenças criacionistas a ideia de que o homem é o centro de toda a criação divina (ele haveria sido feito à imagem e semelhança de Deus).
A outra vertente criacionista (neocriacionismo) é conhecida como Designer Inteligente (ou ainda como Planejamento Inteligente). Esta corrente vem adquirindo notoriedade desde o início do século XIX quando o inglês William Paley publicou a obra “Teologia Natural” (1802). A tese fundamental do livro é a de que a existência da vida inteligente pressupõe necessariamente a existência de uma inteligência superior que a houvesse projetado, assim como a existência de um relógio requer a de um relojoeiro. Atualmente, o neocriacionismo cresce principalmente nos EUA. Alguns de seus principais defensores são cientistas que tentam conciliar a fé com a razão.
Um expoente do neocriacionismo é o professor universitário estadudinense Michael Behe. Foi ele, inclusive, quem cunhou a expressão Designer Inteligente. A originalidade do neocriacionismo não reside tanto na defesa da existência de uma Mente Suprema cuja inteligência teria projetado (ou criado) toda a realidade, da qual faz parte, obviamente, a vida (Tomás de Aquino, no século XIII, desenvolveu um argumento semelhante a este; Aristóteles, no século IV a.C., dizia que uma coisa que existe precisa ter, dentre outras, duas causa: uma final, isto é, uma finalidade, tem que existir para alguma coisa, e ainda, uma causa eficiente, ou seja, deve provir de algo ou de alguém que o concebeu com vistas a uma finalidade). O que há de novo, então, nesta teoria? A síntese ou a articulação entre ciência e religião, já que é por meio de interpretações de dados científicos que Behe e outros tentarão argumentar em favor da existência do Designer ou do Projetista superior. Exemplo deste tipo de argumentação: a complexa estrutura da íris e do cérebro dos seres humanos exige a existência de algo como uma inteligência criadora, ordenadora e sobrenatural.
Mas essa teoria não apenas afirma que deve haver um Projetista Universal. Além disso, ela tenta refutar a Teoria da Evolução das Espécies tal como formulada por Charles Darwin. Um dos pontos centrais do pensamento de Darwin afirma que todas as espécies de vida se originaram de um único e mesmo ancestral (o qual, segundo dados das ciências contemporâneas, supostamente viveu há alguns bilhões de anos).
Esse gigantesco período de tempo não assusta nem incomoda os defensores da Teoria do Designer Inteligente, porque eles não são literalistas, isto é, não tomam o Gênesis de modo literal, mas alegórico. No entanto, os criacionistas tradicionais (e há muitos deles no mundo) discordam totalmente das datações mais remotas do surgimento da vida, segundo as ciências. O que mais lhes incomoda é a hipótese de que a evolução das espécies tenha realmente ocorrido. Não lhes parece plausível que seres altamente complexos (como nós, os homo sapiens) evoluíram desde outros seres de constituição fisiológica extremamente rudimentar.
Uma das tantas formas pelas quais a Teoria do Designer Inteligente procura repudiar a Teoria da Evolução das Espécies é por meio do que Michael Behe chamou de Complexidade Irredutível. Em linhas gerais, isto significa que estruturas orgânicas altamente complexas não poderiam ter se originado a partir de outras estruturas de caráter mais simples. Para provar esta tese, afirmam o seguinte: qualquer estrutura orgânica complexa não pode jamais prescindir de nenhum dos seus elementos constitutivos sob risco de que toda a estrutura sofra e deixe de funcionar. Se for suprimida uma parte ou inativado um componente ou princípio da medula ou do sistema imunológico, por exemplo, toda a estrutura sofrerá danos severos, talvez mesmo irreversíveis e fatais. Como conceber, então, que estruturas orgânicas de alta complexidade tenham uma vez existido se para existirem precisam ser exatamente como são? Ou ainda: como seria possível que uma vasta gama de estruturas complexas tenham convergido, simultaneamente, numa evolução que resultaria na vida humana?
Claro está, para os fautores do neocriacionismo, que as perguntas acima são aporias insolúveis para os adeptos da Teoria da Evolução. Todavia, estes últimos, munidos de conhecimentos oriundos dos estudos genéticos, redarguem e a discussão adquire, conseguintemente, um aspecto eminentemente técnico que não convém aqui abordar.
Em suma, a ideia do neocriacionismo é a de que a ordem e a harmonia (cosmos) não podem provir senão de uma ordem e harmonia prévia. Os partidários da Teoria do Designer Inteligente diriam que seria um ilogismo gigantesco imaginar que o cosmos deriva do caos, a ordem da desordem (ou que a evolução ocorre aleatoriamente ou ao sabor das sempre imprevisíveis mutações genéticas). A título ilustrativo, admitir que a hipótese anterior é pertinente, é o mesmo que supor que uma bomba deflagrada numa antiga tipografia (com tipos móveis) geraria, após a explosão, um ordenamento tão perfeito das letras que estaria gerada neste instante uma obra literária de excelso e sublime valor artístico. Ou seja, a probabilidade seria irrisória.
Mas esses argumentos dos neocriacionistas não parecem ser irrefutáveis para aqueles que professam a Teoria da Evolução das Espécies (para estes últimos, o neocriacionismo é pseudocientífico). Em primeiro lugar, eles asseguram que o processo evolutivo não é tão casual como acusam os seus críticos. Sim, há uma parte casual, aleatória, neste processo (a mutação genética), mas que apenas é fixada e transmitida se as condições de interação entre os indivíduos de uma espécie e o ambiente forem “harmônicas”. Não é por acaso que a teoria também é chamada de “seleção natural”. Qualquer traço de ordem na natureza seria resultante de uma ordem autoestabelecida pela própria natureza e jamais, portanto, uma seleção sobrenatural.
Em segundo lugar, é possível questionar se há mesmo uma ordem na natureza tal como afirmam os neocriacionistas. De fato, seria sandice negar que há uma certa ordem na natureza, de outro modo mal seríamos capazes de transformá-la e, além disso, viveríamos num constante torpor no qual ninguém seria capaz de distinguir sequer a si mesmo. O problema crucial é saber até onde vão os limites desta ordem, desta harmonia. Exemplificando: por que aproximadamente 90 % das espécies vivas do planeta Terra já se extinguiram? Ou ainda: seria a natureza dotada de um caráter ético? E os tsunamis e os cataclismos em geral seriam expressão de uma ordem subjacente à estrutura ordenada da realidade? Que ordem seria essa? Que Designer Inteligente é esse que não pode ou não quer evitar toda a desordem que sempre está, ameaçadoramente, à espreita.
Em terceiro lugar, dizem os adversários do neocriacionismo, nada há que autorize a inferir que o Designer Inteligente, na eventualidade de sua existência ser efetiva, é o Deus judaico-cristão. Isto é um salto lógico arriscado, perigoso. O Designer Inteligente não precisaria estar além da sua obra criada, além da natureza (ser um ser sobrenatural). Ele não poderia ser, a um só tempo, a própria natureza e o Designer Inteligente, o designer de si mesmo?
Finalmente, é oportuno evocar o filósofo alemão Immanuel Kant, para quem, conhecer Deus (assim como conhecemos os objetos científicos) está para além das possibilidades da razão, o que não implica na inexistência de Deus (o próprio Kant, aliás, era muito religioso). A relação de um indivíduo com Deus seria, consoante esta ideia, mediada pela fé e não pela razão [1].
Ou seja, o (Neo)Criacionismo e a Teoria da Evolução das Espécies se antagonizam enormemente, de tal modo que quem toma uma das linhas explicativas como verdadeira ou mais coerente tende a desconsiderar o valor da outra. Bem, isso é quase sempre válido. Quase sempre porque há ainda uma terceira forma de abordar a questão da origem da vida. A terceira via, em resumo, sintetiza as duas posições extremadas, daí ser conhecida como Evolucionismo Teísta [2]. Para este grupo de estudiosos, a evolução das espécies é um fato, porém um fato que foi arquitetado pelo Poder Divino: o processo evolutivo estaria, em última instância, sob o controle de Deus.
O que importa ressaltar é que ciência e religião não precisam ser necessariamente antípodas. Há inúmeros exemplos de grandes cientistas (como Copérnico, Newton e Einstein) que tinham fé na existência de Deus. Naturalmente, essa conciliação só é possível na medida em que os textos sagrados não são lidos de modo muito estrito, literal, naquilo que diz respeito à origem da vida. Pareceu ser esta a postura do Papa João Paulo II quando afirmou que a Teoria da Evolução é bem mais do que uma simples teoria (1996) e, além disso, que não seria papel da Igreja Católica ou de qualquer outra explicar como o céu foi criado, mas elevar os indivíduos até o mesmo.



[1] À guisa de curiosidade, e talvez para polemizar, é conveniente apresentar a definição de fé do filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard: “a fé é um passo no escuro”.
[2] Um exemplo de cientista que advoga em favor desta síntese é o do renomado geneticista Francis Collins que publicou há alguns anos o livro A linguagem de Deus: um cientista apresenta evidências de que Ele existe.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Se um se...

Veja bem: se um se fosse
Mesmo algo concreto assim
Como uma grande foice,
A revolução começaria por mim.

Fome

Na cidade não há fome?
Só se não houver homem...
Se houver, uns comem
E outros morrem.

lapso

na terra da fartura
farei jejum dia e noite
lembrando das duras
horas à beira da morte.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

A Pergunta


Mal aprendemos a falar e já bombardeamos os outros como uma série enorme de perguntas. Isso é bom e inevitável. Quando perguntamos algo a alguém ou a nós mesmos, estamos desejando saber mais e saber mais é sempre bom. Mas por que será que a pergunta é inevitável?
Perguntamos porque somos incompletos, isto é, somos finitos. Não somos seres que já sabem de tudo. Se soubéssemos de tudo, não precisaríamos perguntar nada e, na verdade, não precisaríamos nem mesmo falar com os outros, porque já seríamos completos sabedores, seríamos verdadeiramente sábios.
Todavia, como não somos sábios, mas finitos e incompletos, precisamos suprir muitas lacunas com conhecimento e por causa disso perguntamos. Perguntar não é uma opção. Não podemos evitar isso. É claro que às vezes não nos convém perguntar isso ou aquilo num momento específico, mas inevitavelmente temos que perguntar outras coisas em outros momentos.
Perguntar é expressar por meio da linguagem uma dúvida. E linguagem, aqui, deve ser compreendida de um modo bem amplo: linguagem não apenas oral ou escrita, mas também gestual, facial. Às vezes perguntamos com um franzir de sobrancelhas e sem nenhuma palavra. Com este gesto, deixamos claro para o nosso interlocutor que nem tudo está claro para nós e que temos, portanto, uma dúvida.
Perguntar é o modo de ser específico dos seres humanos. Isto quer dizer que é o ato de perguntar que nos torna humanos no sentido forte da palavra. Ou será que os animais também fazem perguntas? É claro que não, embora eles também sejam seres finitos e incompletos. A grande diferença entre nós, os seres humanos, e os animais é que estes não desejam expandir e aperfeiçoar as suas habilidades e capacidades como nós o fazemos geralmente por meio de perguntas.
A pergunta é a mola propulsora (ou o trampolim) que nos impulsiona nas pesquisas das mais variadas áreas de conhecimento. É tentando responder a algumas perguntas que toda a ciência se desenvolve. E com a filosofia se passa o mesmo. A pergunta (que é sempre a expressão de uma dúvida) é a chave para filosofar.
Mas quando uma pergunta é filosófica? Quando ela busca o sentido profundo nas coisas, quando ela quer conhecer a essência de algo. Uma característica interessante de uma pergunta filosófica é que ela normalmente não admite uma única resposta (o que não quer dizer que ela admita todas as respostas possíveis). A pergunta filosófica é tão radical que uma resposta jamais esgota a possibilidade de outras que a complementam, que a enriquecem. Exemplo disto é a clássica pergunta: “quem somos nós?”.