sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Prisão perpétua

Há criminosos a quem deve ser vetado para sempre a participação na sociedade civil. Quem, mais esxatamente? Qualquer um que tenha atentado contra a vida.
Creio até que é possível que se arrependam. De fato, às vezes é o que ocorre. No entanto, esse tipo de criminoso não pode nos convencer apresentando-nos como fiador apenas a si mesmo. Não nos devemos obrigar a assumir o risco de lhe conceder a liberdade, porque ele mesmo já assumiu o risco de perdê-la quando executou a ação criminosa.
Mesmo na hipótese de que o criminoso esteja completamente arrependido (o que nunca saberemos ao certo) a sociedade civil não pode ser penalizada ao tê-lo entre os demais cidadãos. Um estuprador arrependido? Um estuprador curado? Quem pagará para ver? Se quer se retratar, que trabalhe de graça na prisão até morrer.
É óbvio que algumas pessoas podem se recuperar. Mas em alguns casos é arriscadao demais a aposta nessa transformação. É lógico que o meu discurso estabelece uma hierarquia, uma escala de gravidade dos delitos. É inevitável. Insisto: crimes que atentam contra a vida devem ser combatidos com a extinção da vida civil dos seus autores. Outros tipos de crime não devem ter penas tão severas, naturalmente.
Um exemplo de ação abjeta que deve ser exemplarmente punida é a do famoso crime do colarinho branco (cometido exclusivamente por diplomados). Numa canetada são definidos - para o mal - os destinos de multidões. Pena merecida? Confinamento até o fim da vida. Como disse antes: é arriscado demais permitir a um pústula que se imiscua novamente na vida pública, por mais arrependido e santo que tenha se tornado. Santos e arrependidos, aliás, prezam bastante a culpa que sentem.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Idéias

As idéias não são algo evanescente: elas jamais serão coisas destituídas de concretude. Por elas, alguns morrem e, às vezes, matam. (In) felizmente, a maioria de nós não vai tão longe para defendê-las: nós costumamos apenas rir e chorar por e com elas, o que não é pouco.

Filosofar

A atitude filosófica é mais do que apresentar argumentos para convencer os outros; é, na verdade, ser coerente o suficiente para convencer-se a si mesmo diante de bons argumentos, mesmo que demovam crenças desde há muito enraizadas; é, ainda, manter-se humilde diante da possibilidade de que os argumentos, por melhores que possam parecer, podem ser errados.

Biógrafo

Para ser biógrafo é preciso ter - não apenas isto, é claro - discernimento no uso dos adjetivos.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

A verdade de Drummond


A Verdade (Carlos Drummond de Andrade)


A porta da verdade estava aberta,

Mas só deixava passar

Meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,

Porque a meia pessoa que entrava

Só trazia o perfil de meia verdade,

E a sua segunda metade

Voltava igualmente com meios perfis

E os meios perfis não coincidiam verdade...

Arrebentaram a porta.

Derrubaram a porta,

Chegaram ao lugar luminoso

Onde a verdade esplendia seus fogos.

Era dividida em metades

Diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.

Nenhuma das duas era totalmente bela

E carecia optar.

Cada um optou conforme

Seu capricho,

sua ilusão,

sua miopia.

Urbanidade

Uma pessoa civilizada, vitoriana, não consegue confessar o desejo de matar alguém. Ela usa um eufemismo, então: "por mim, fulano nem sequer teria nascido".

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Domingo


O domingo, à tardinha, é um precipício. Daí a vertigem.

Pirandello



Não sei por que sorte de mecanismo psíquicos veio-me à mente agora há pouco a lembrança de uma série de imagens do livro Um, nenhum e cem mil de Luigi Pirandello (1867-1936). Leitura antiga. Já se vão uns bons quatro anos desde que o li.

Não traçarei, nem em linhas gerais, detalhes da trama. É importante que cada leitor enrede-se sozinho nas malhas surpreendentes da narrativa. Recomendo a leitura deste livro porque nele se delineia, de modo leve, porém profundo, questões de caráter filosófico (ou seria sociológico?) da maior relevância, tais como, por exemplo, o problema da identidade. Quem somos nós, afinal? Esta questiúncula básica se nos apresenta tão logo findemos o livro. E somos nós mesmos que nos perguntamos, de maneira totalmente original, que(m) diabos somos nós.

Aliás, algo me diz que este problema atravessa a obra de Pirandello. Lembro-me agora de leituras ainda mais remotas. Em Seis personagens à procura de um autor e O Falecido Mattia Pascal, o escritor italiano não nos parece fazer outro questionamento senão: somos nós o papel que ocupamos na sociedade em que vivemos? Somos algo além ou aquém disto?

Esse problema mui árido, demasiadamente deprimente, assaz insosso, é revestido nestes textos de um quê que nem sei dizer direito; um quê temperado por um humor agudo. Por esta razão, ou justamente pela sua falta, seus textos extasiam e nos pendulam ora para a euforia, ora para a angústia.


sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Érico Veríssimo e a universidade



Érico Veríssimo é um dos escritores de que mais gosto. Tive a felicidade de ter o contato com ele ainda na adolescência, pois meu pai possuía a coleção de todas as suas obras. Passei momentos de intensa emoção ao acompanhar leituras como "Incidente em Antares", "Olhai os Lírios do Campo", "México", "O Senhor Embaixador", "Clarissa" e os incomparáveis volumes de "O tempo e o vento". Um mestre. Por toda a minha vida levarei em minha mente as excelentes histórias e ensinamentos que jorram de seus livros.
Tamanho era o seu talento que, mesmo tendo apenas o curso secundário, dava aulas no Mills College (Oakland, Califórnia) de Literatura e História do Brasil. No nosso país, porém, ele jamais poderia lecionar numa universidade. Este fato me faz pensar que nos concursos para docente nas universidades públicas brasileiras deveria haver espaço para pessoas como Érico, desde que passassem por um concurso público rigoroso, inlusive disputado contra doutores. Afinal, como ouvi certa vez da boca do autor do colossal O Romance da Pedra do Reino (que, aliás, também lecionou em turmas formadas por alunos com mais titulação do que ele), há doutores que não são doutos e doutos que não são doutores.

Crônica de Machado de Assis




Texto-fonte:
Obra Completa de Machado de Assis.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, Vol. III, 1994.

Publicado originalmente na Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, de 02/07/1883 a 04/01/1886.

http://portal.mec.gov.br/machado/arquivos/html/cronica/macr10.htm


5 de outubro

Mal adivinham os leitores onde estive sexta-feira. Lá vai; estive na sala da Federação Espírita Brasileira, onde ouvi a conferência que fez o Sr. M. F. Figueira sobre o espiritismo.

Sei que isto, que é uma novidade para os leitores, não o é menos para própria Federação, que me não viu, nem me convidou; mas foi isto mesmo que me converteu à doutrina, foi este caso inesperado de lá entrar, ficar, ouvir e sair, sem que ninguém desse pela coisa.

Confesso a minha verdade. Desde que li em um artigo de um ilustre amigo meu, distinto médico, a lista das pessoas eminentes que na Europa acreditam no espiritismo, comecei a duvidar da minha dúvida. Eu, em geral, creio em tudo aquilo que na Europa é acreditado. Será obcecação, preconceito, mania, mas é assim mesmo, e já agora não mudo, nem que me rachem. Portanto, duvidei, e ainda bem que duvidei de mim.

Estava à porta do espiritismo; a conferência de sexta-feira abriu-me a sala de verdade.

Achava-me em casa, e disse comigo, dentro d'alma, que, se me fosse dado ir em espírito à sala da Federação, assistir à conferência, jurava converter-me à doutrina nova.

De repente, senti uma coisa subir-me pelas pernas acima, enquanto outra coisa descia pela espinha abaixo; dei um estalo e achei-me em espírito, no ar. No chão jazia o meu triste corpo, feito cadáver. Olhei para um espelho, a ver se me via, e não vi nada; estava totalmente espiritual. Corri à janela, saí, atravessei a cidade, por cima das casas, até entrara na sala da Federação.

Lá não vi ninguém, mas é certo que a sala estava cheia de espíritos, repimpados em cadeiras abstratas. O presidente, por meio de uma campainha teórica, chamou a atenção de todos e declarou abertos os trabalhos. O conferente subiu à tribuna, traste puramente racional, levantaram-lhe um copo d’água hipotético, e começou o discurso.

Não ponho aqui o discurso, mas um só argumento. O orador combateu as religiões do passado, que têm de ser substituídas todas pelo espiritismo, e mostrou que as concepções delas não podem mais ser admitidas, por não permiti-lo a instrução do homem; tal é, por exemplo, a existência do diabo. Quando ouvi isto, acreditei deveras. Mandei o diabo ao diabo, e aceitei a doutrina nova, como a última e definitiva.

Depois, para que não dessem por mim (porque desejo uma iniciação em regra), esgueirei-me por uma fechadura, atravessei o espaço e cheguei a casa, onde... Ah! que não sei de nojo como o conte! Juro por Allan-Kardec, que tudo o que vou dizer é verdade pura, e ao mesmo tempo a prova de que as conversações recentes não limpam logo o espírito, de certas ilusões antigas.

Vi o meu corpo sentado e rindo. Parei, recuei, avancei e disse-lhe que era meu, que, se estava ocupado por alguém, esse alguém que saísse e mo restituísse. E vi que a minha cara ria, que as minhas pernas cruzavam-se, ora a esquerda sobre a direita, ora esta sobre aquela, e que as minhas mãos abriam uma caixa de rapé, que os meus dedos tiravam uma pitada, que a inseriam nas minhas ventas. Feitas todas essas coisas, disse a minha voz.

— Já lhe restituo o corpo. Nem entrei nele senão para descansar um bocadinho, coisa rara, agora que ando a sós...

— Mas quem é você?

— Sou o diabo, para o servir.

— Impossível! Você é uma concepção do passado, que o homem...

— Do passado, é certo. Concepção vá ele! Lá porque estão outros no poder, e tiram-me o emprego, que não era de confiança, não é motivo para dizer-me nomes.

— Mas Allan-Kardec...

Aqui, o diabo sorriu tristemente com a minha boca, levantou-se e foi à mesa, onde estavam as folhas do dia. Tirou uma e mostrou-me o anúncio de um medicamento novo, o rábano iodado, com esta declaração no alto, em letras grandes: “Não mais óleo de fígado de bacalhau”. E leu-me que o rábano curava todas as doenças que o óleo de fígado já não podia curar — pretensão de todo medicamento novo. Talvez quisesse fazer nisto alguma alusão ao espiritismo. O que sei é que, antes de restituir-me o corpo, estendeu-me cordialmente a mão, e despedimo-nos como amigos velhos:

— Adeus, rábano!

— Adeus, fígado!