domingo, 30 de novembro de 2008

Bala


A cada bala disparada fica evidente a insuficiência e a fragilidade da razão e da palavra. Mas a cada bala disparada também fica evidente a necessidade da razão e da palavra.

Tom Zé


Cara criativo e tal é o Tom Zé. Letras interessantes, música que nos nina e embala ao mesmo tempo. Performances inusitadas, além de perfeitamente executadas com a participação dos outros artistas de sua banda. No entanto, fiquei com a impressão, no show que assisti sexta passada no teatro da UFPE, de que ele exagera, entre uma música e outra, no uso de estereótipos para fazer rir o público. Estereótipos regionais. Não creio que isto fosse necessário. Ficam registrados aqui o elogio ao músico e a crítica ao homem.

sábado, 29 de novembro de 2008

oirjhgo

Toma a minha mão
E dá-me o teu olhar.
Tens no coração
Algo a germinar.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Razão e Loucura


Sabe aquele cientista famoso que você admira bastante devido à sua grande capacidade de resolver problemas? Saiba que ele só é quem é graças à irracionalidade dos sonhos que lhe constituem. Não fossem os seus sonhos e seus desejos inconscientes ele não seria capaz de fazer o que faz. Se ele ficasse duas noites seguidas insone, isto é, sem se entregar à loucura enquanto dorme, não faria tudo aquilo que é tão incrível e que faz de você um fã do seu talento. Razão (mãe das ciências e da filosofia) e Loucura (mãe dos delírios, quer sãos, como as utopias, quer patológicos, como as neuroses) são inextrincáveis.

Novo paradigma das artes plásticas


Eu ouvi da boca de quem muito prezo e confio um relato que me deixou estarrecido. Eis a história. Uma fulaninha lá da UFPE (ressalto que a fulaninha é altamente instruída e de titulação à toda prova) andou dizendo que ouviu dizer e que estava convencida do seguinte: quem não consegue apreciar a foto de uma batida de carros com mais intensidade e prazer do que a foto de uma paisagem é insensível, estética e pleonasticamente falando. Quem não vê beleza em ferragens retorcidas manchadas de sangue é um ignorante em matéria de arte.
Nunca ouvi nada mais certo. Ao saber disso, disse para mim mesmo: "Eureca!". Tive aquela sensação de que era o que sempre pensava, mas que jamais pude enunciar. Depois desta idéia tão simples e profunda resolvi mudar radicalmente a minha vida. Como quero unir o útil ao agradável, estudarei para tornar-me policial rodoviário federal. Farei das rodovias brasileiras o maior museu de arte do mundo. Ou seria melhor eu me especializar no ramo dos ferros-velhos?
O que me incomoda quanto ao novo paradigma das artes plásticas é aquilo que diz respeito à autoria. Como definir o autor de uma obra em que dois ou mais carros colidem? Seria por intermédio das leis de trânsito? Seria mesmo o Código Nacional de Trânsito o novo cânone das artes plásticas? Mas seria um cânone brasileiro ou universal?
Por fim, sugiro como lema da novo paradigma das artes plásticas o seguinte: "faça você mesmo!". É um lema batido, é verdade, mas, como nunca, tão significativo e realizável. Só não sei ainda como deveríamos chamar este novo tipo de arte...
PS: dedico este texto à fulaninha de que falei e acho que lhe enviarei, por ocasião do Natal que se aproxima, um belíssimo cartão contendo a imagem que ilustra este escrito. Obra inimitável e que nem mesmo Picasso seria capaz de pari-la.

domingo, 23 de novembro de 2008

Bobo

Depois de morrer quero
Ser lembrado assim como
Um bobo. Sim, um mero
Bobo, mas um bobo que amou.

Cuidado


Uma mão, cinco dedos,
E um desejo imenso
De cuidar sem medo
E de modo intenso.

sábado, 22 de novembro de 2008

Inventário

Texto de autoria de meu pai em homenagem ao meu avô.


Inventário

Entre o pai e o filho
e entre aquele
e seu predecessor
além da genética e da cumplicidade
outra geração em andamento
e a intermitência dos réquiens.

Pai,
contemplar teu corpo frágil
envolto em linho roto
e distendido-quieto sobre madeira-sem-lei-nem-rei
muito me comoveu.

Pai,
tua presença remanesce
em mim empobrecida a título de saudade.

Pai,
o que esperar do teu legado
além do meu singular ser
pretenso arremedo dessa
reverenciada simploriedade?

Admirar-te já me satisfaz.

José Tadeu de Góes

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Meu desejo é a pilastra do futuro.
Mas, no que tange ao passado,
Não é sequer um pequeno furo:
Não há volta para relançar os dados.

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Meu desejo de ser outro
Só é menor que o de,
Por meio de um sopro,
Celebrar a vida numa ode...

A bolsa caiu

Segue abaixo um texto de um amigo muito querido (carinhosamente, chamo-o de Dodô) sobre a crise financeira internacional. Vale a pena ler. E quem quiser conhecer outros de seus textos pode acessar http://www.ceusemfronteiras.blogspot.com/


A bolsa caiu (segunda-feira, 17 de novembro de 2008)

Olá amigos que acompanham meu blog. Estive ausente nos últimos dias, pois estava bastante ocupado. Vocês sabem, pois assistem TV e lêem jornal, que o mundo está em crise. Hoje, oficialmente, o Japão admitiu estar em crise. Os japoneses perderam o costume de comprar uma televisão de 98 polegadas a cada ano. Agora, só comprarão de dois em dois anos. Nesse último fim de semana, praticamente não dormi, acompanhando o sobe e desce (mais desce do que sobe!) da bolsa de valores. Tentando me esquivar da crise que assola o sistema financeiro dos países do primeiro mundo, comprei ações das bolsas ditas periféricas. Meus amigos, não foi nada fácil! A bolsa de Macau fechou, na madrugada de sábado para domingo numa vertiginosa queda de 7.84% afetando minhas ações na Woo-Ping, empresa que fornece bamboos para os pandas chineses, normalmente lucrativa. Devido a essas intempéries, tive que me desfazer da metade das minhas terras na Suazilândia, vendendo parte da minha savana para uma empresa sulafricana de turismo.
O pior de tudo foi imaginar que enquanto muitas pessoas se divertiam em festas e eventos, eu tentava acompanhar, simultaneamente, o desenrolar das bolsas de Macau e Islamabad, através de uma rádio de Bangalore, que trata única e exclusivamente de assuntos ligados ao comércio internacional. Se não fosse esse tão importante meio de comunicação, com certeza absoluta, não restaria nem uma foto de zebra das minhas terras suazilandesas. A recessão continuará e quem não estiver engajado em defender seu patrimônio, como estou, poderá ficar à mingua do novo reinado de Genghis Khan que se aproxima. Sim, um império do oriente se aproxima mais uma vez e promete não aliviar com o ocidente. Logo agora, que o mundo judaico-cristão (que expressão batida) parece ter encontrado certa homogeneidade! A Europa, por exemplo, já não briga entre si e criou até uma União oficializada. Nos Estados Unidos, um negro foi eleito presidente e em breve os mexicanos poderão ser considerados cidadãos! Se até os Estados Unidos e o Japão estão em crise com a (pós) modernidade, que diremos nós pobres seres individuais, indefesos e tristes. O citibank vai fechar o halifax já embarcou dessa pra uma pior. Não existe crise sem mortes.
Meus amigos, sugiro que mantenham suas reservas de ouro e diamante para o ano de 2009, que promete ser o ponto culminante dessa crise. O barril de petróleo está por 55 dólares, uma ninharia! Ainda esta semana viajarei para Frankfurt para dar uma palestra para banqueiros estonianos e finlandeses, preocupados com a diminuição dos preços do pescado no Mar Báltico. Espero que nesses próximos dias o dólar se estabilize no Brasil, tenho grande confiança no meu amigo particular, Dr. Henrique Meirelles, que vai saber contornar a crise internacional sem mergulhar a nação emergente no buraco. Só volterei ao Recife no dia 26 de Outubro, precisamente para assistir o show de Tom Zé. Daqui pra lá, meu nome é trabalho! Os acionistas necessitam de minha especulação e minha agenda está cheia. Mas, prometo postar notícias dos lugares por onde andarei. Estou com a idéia de falar algo sobre a banda inglesa, Queen. Uma banda tão ímpar que o guitarrista Brian May foi o primeiro roqueiro da história a ser PhD em alguma coisa. Ele escreveu sobre a teoria do Big Bang. Isso é papo pra outra história. Falando em história, ninguém deu nome pra essa crise. O surgimento do universo é o Big Bang, a quebra da bolsa em 1929, ficou conhecida como o Crack de Nova Iorque. Aquí no Recife, a crise do Crack é outra e tem arrastado até fusquinha das ruas. Daqui pra Frankfurt vou propôr um nome oficial pra essa crise, quem sabe "Tsunami Financeira", "Aviões em Mannhattan", ou ainda "Nem Osama nem Obama, volta Bush de Lama". Daqui pra lá, espero que a minha fertilidade mental reapareça. Saudações alvirubras! 5x2. Pelas bandas dos Aflitos a crise se foi. Abraço.

Recife


Recife não é só ferro em brasa

A queimar e marcar a alma.

É também a dor quando passa:

O alívio, o sorriso e a calma.

A tautologia do nada

Nada nada no nada sem se afogar, em algum momento, na vacuidade...

Caminho


Meus passos seguem

Por uma terra árida,

Mas as lágrimas vertem

Sobre uma face impávida.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Mulher


"Que desgraça ser mulher! Entretanto, a pior desgraça quando se é mulher é, no fundo, não compreender que sê-lo é uma desgraça."


Frase de Kierkgaard que serve de epígrafe ao tomo 2 de O segundo sexo de Simone de Beauvoir

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Esperança

A esperança é uma estrela cadente...

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Sorriso

O sorriso é a língua franca entre os povos...

Entre o futuro e o presente

Entre o futuro incerto
E o presente indubitável,
Olho para o céu aberto
E desejo o mais improvável.

Não

O não é a via
Que faz voltar
O desejo que ia
Se realizar.

Música

A música é a impossibilidade do conceito.

Pensamento

De uma brisa para outra
Voa o meu pensamento:
Apreende, esquece; volta
E viaja ao sabor do vento.

Fé, Confiança, Crença etc.

Confiar em algo exige uma dose de possibilidades de que aquilo em que cremos não se realize como desejamos. Se há uma probabilidade muito grande de que o que esperamos ocorra, então não precisamos depositar muita confiança nesta questão. Por outro lado, se fortes indícios nos dizem que as chances de um evento se passar são remotas ou muito remotas, então precisamos crer muito mais naquilo que desejamos que aconteça. A fé é inversamente proporcional às probabilidades. Mas, por paradoxal que pareça, não seriam as probabilidades equivalentes às crenças?

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Breve biografia do brasileiro que tem como objeto de estudo o camelo

Depois de ter incursionado pelas universidades européias, o brasileiro regressará para a universidade pública da qual esteve licenciado e onde trabalhará com os seus alunos as sutis, porém relevantes, diferenças entre o fenômeno do camelo e o camelo em si.

Uma vez no solo pátrio, o pesquisador brasileiro logo organizará um grupo de estudos em que, sob as suas rédeas, digo, sob a sua batuta, alunos se esforçarão para demonstrar astuciosamente que são tão obtusos quanto os camelos. O pesquisador, para incentivar-lhes, recomendará a árida leitura dos manuais nos quais sorverão a fórmula mágica segundo a qual poderão eles mesmos se transmutar em pesquisadores: a subserviência de um camelo para suportar longos períodos sem idéias originais acrescida do fardo de um fado que não lhes permitirá trafegar senão pelas dunas formadas pelo pó dos livros escritos pelos pais fundadores da disciplina a que se dedicam.

Na verdade, o pesquisador brasileiro costuma ir à Europa para adquirir a sua segunda corcova, já que sai do Brasil apenas com o grau de mestre. Os que vão em busca da terceira saliência no dorso, isto é, do pós-doutorado, retornam apenas com as corcovas um pouco mais robustas, o que já é uma vantagem, evidentemente.

Disso se deduz que o camelo é a um só tempo o objeto de estudo e o estudioso mesmo. Se se descurou até hoje desta verdade primeira foi em virtude da viciada maneira de se analisar o fenômeno da camelidade que não foi suficientemente dialética, ou seja, apenas um ato metodologicamente falho. Porém, ao atingir tal grau de auto-reflexividade, o pesquisador já teve de percorrer longos caminhos e obrigado se vê a aposentar-se. É agraciado, naturalmente. Penduram-lhe nas corcovas algumas medalhas e lhe recomendam camelinhos que dele ouvirão os segredos de cada deserto. Alguns desses camelinhos ocuparão lugar de destaque na caravana que segue de “sei lá” com destino para “só Deus sabe”. Outros camelinhos serão ressentidos e escreverão textos desta jaez.

A casa

Era uma casa linda
Em que duas pessoas
Sonhavam ainda
Sobre coisas boas.

A pergunta

E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infância, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?

Almeida Garrett(1799-1854)

terça-feira, 4 de novembro de 2008

NÃO MATARÁS

O ENUNCIADO "não matarás" tem a força de uma máxima moral. É lícito concluir, no entanto, que se trata de algo que expresse uma verdade? Ou seria o caso de ter em mente que o valor desta máxima decorre da sua utilidade?
DE INÍCIO, afirmo que o princípio me parece indispensável às sociedades, muito embora, em casos especiais, ele possa e deva ser suspendido. De fato, poderiam objetar-me de que nestes casos ele já não seria mais um princípio ou uma máxima. Sim, seria uma máxima não observada "maximamente", mas ainda assim uma máxima. Em geral, é o que ocorre com freqüencia: uma lei (e a lei pretende ser universal) costuma prescrever os casos em que ela não deve ser observada.
ASSIM, se a máxima em questão é de fato indispensável, é porque ela resguardaria a vida da humanidade em geral e a minha própria em particular. Quer me parecer que este raciocínio é presente na mente de quem tem em alta conta o "não matarás". Todavia, o que mais me interessa agora é: o valor deste imperativo ético é fruto da sua utilidade para a humanidade ou se deve ao fato de que ele se encontra inscrito na essência e na ordem mais íntima de toda a realidade?
SE MATASSE alguém (e aqui não discuto, não por não a considerar relevante, a questão do especismo), eu estaria atentando contra a ordem humana ou contra o cosmos? Ao matar alguém firo a harmonia universal ou "apenas" maculo a paz e, portanto, transgrido uma das normas mais importantes da sociedade? É bem verdade que a primeira alternativa não exclui a segunda...
Em todo caso, não me parece haver qualquer indicativo indiscutível de que a própria ordem - quer "divina", quer cosmológica - impõe à humanidade o dever de não matar. Ao contrário disto, é perfeitamente razoável, ao se estudar o cosmos, inferir que o universo incita o humano a matar. Não é de modo algum uma aberração lógica de uma mente demente deduzir da observação dos corpos celestes que a violência é o substrato de toda a realidade. Contudo e felizmente esta inferência não é corriqueira...
O DEVER de não matar não tem sua origem num horizonte extra-humano. Ele não paira, inconcusso, sobre a cabeça da humanidade, mas precisamente em seu interior. Se se advoga o oposto, isto é, que o "não matarás" (assim como outras tantas máximas) foi herdado pelos homens sapientes a partir de algo que se encontra além da esfera humanóide, deve-se pôr à prova tal pressuposição, ao passo que o ônus de provar a gênese deste e doutros princípios na psiquê não chega a ser um fardo insuportável, se é que sequer pesa uma grama. Eis aqui uma verdade?
CONFESSO que não me incomodaria nem um pouco com a hipótese esdrúxula de a humanidade em peso proclamar as minhas últimas palavras como verdadeiras. O que está em questão, entretanto, é o seguinte: se se alude a um algo extra-humano para se fundamentar o "não matarás", deve-se aventar simultaneamente uma evidência em favor de tal idéia. Em contrapartida, se afirmo - e afirmo que afirmo mesmo - que as máximas morais nascem das idéias humanas só tenho que provar que não é plausível concebê-las com seguranga senão deste modo. Se não se me afigura, por insuficiência de indícios, que as máximas morais tenham sido dadivadas por Deus ou por qualquer outra criatura etérea aos primatas que jogam futebol, nada mais provável que concluir que o lugar no qual germinaram outro não foi senão a cabeça daqueles seres que quebram suas próprias cabeças em investigações de natureza semelhante a esta de que aqui trato.
À IDÉIA segundo a qual as máximas morais têm um DNA humano cheguei por eliminação de alternativas. Não a afirmaria categoricamente, embora o meu desejo de isto fazer se assemelhe ao desejo de quem pensa o contrário e afirma o contrário. Mas o que mais quero querer é que ninguém pense que negar a procedência extra-humana e, por conseguinte, o predicado "verdadeiro" (porquanto a sua procedência) aos princípios morais implique na assunção de um relativismo.
DE MODO ALGUM. Em vez disto, ratifico o caráter de máxima do "não matarás". Ressalto apenas que esta máxima já se sustenta sem que se tenha que apelar para algo transcendente. Não se trata, portanto, de discutir a sua verdade, mas a pertinência de tê-la como verdade humana, ou seja, criada e usada pelos homens e mulheres.

domingo, 2 de novembro de 2008

Reinaldo de Azevedo

O Reinaldo de Azevedo
Nada tem de rei.
É um arruinado azedo
Que à literatura nada fez.