domingo, 16 de março de 2008

Ar-condicionado, o sopro da vida

Pra finalizar a publicação da série de antigos poemas que escrevi.


Ar-condicionado, o sopro da Vida

Arranha-céu:
Ar-condicionado,
Gravata, sorriso,
Gestos, sim senhor,
Tudo condicionado.
Repartição Pública:
Ar-condicionado.
Condiciona-se, convenciona-se.

A Figueira Triste

Uma poesia de 2004 em homenagem a uma velha figueira que havia lá no centro do Recife (faz tempo que não passo por lá, não sei ela ainda está de pé). Pense num texto rebuscado! Onde é que eu tava com a cabeça?


A FIGUEIRA TRISTE

Ave! Nossa Santa Árvore.
Hoje Figueira derradeira,
Solitária, mas Tu és il cuore
De Gaia, portanto, eia!

Eia! Revela-nos o ontem
E, nele, revela-Te frondosa
Em Tua copa, copa-paragem.
Eia, pois, Árvore copiosa.

Comprazem-se sob Tua sombra
As maltratadas turbas da cidade.
Vê, pois, como nos assombra
Imaginar-Te senil, pois és beldade.

Eia Figueira! Nunca foste solipsa.
Por isto o Teu pai Sol,
Solícito, jamais a Ti se eclipsa
E seus raios dadiva a Ti, só.

As nuvens, seres sem recato,
Devotam a Ti todo um ritual:
Estando em êxtase lá no alto
Pranteiam e vem temporal.

Somos todos tuas vestais,
Há uma, porém, precípua:
Prostra-se a Ti qual arrás,
É a terra a vestal conspícua.

Eia! Interjeição nossa!
Anima-Te, anima-nos!
Não és velha, és moça,
Anda, semeia-nos!


Jefferson Tadeu 23/06/2004

Poética da catarse sinestésica.

Poesia de 2003 (quando eu tinha um Deus).

Poética da catarse sinestésica.


Aquela poesia que desce
Ao menos à superfície
Do Intangível Ser, se desse,
Desejaria ser seu artífice.

Respirar Suas cores,
Lamber seus odores,
Aliviar minhas dores,
Curar meus torpores.

IX/VII/MMIII

Chegada



Chegue quando for a hora.
Chegue quando quiser.
Mas vê se não demora,
Cansei de ficar em pé.

Vida

Tu me vens entrementes –
Entre mentes tristes e alegres.
Pasmo e não creio que mentes
Quando me falas de milagres.

Amizade


Há mais de um ano e meio fiz um poema para o meu amor, a Sheilinha. Como ele é bem pessoal, não o publicarei por inteiro. Mas dele destaco um trecho que pode ser dito a qualquer um e qualquer uma, desde que seja dito com sinceridade:


Amizade é ponte entre almas
Sobre rio de risos e dores.

sábado, 15 de março de 2008

Quem sou?

Eu sou um raio
Que clareia a noite.
De bem alto caio
Sobre a tua sorte.

Eu sou a água
Que tu bebes.
Sou mar e as vagas
Em que te perdes.

As vias duma vida

Além do cajado, carregava uma trouxa de sentimentos. Olhava as pedras no caminho e não sabia se indicavam esperança ou desespero. Caminhava para longe, para qualquer lugar, e a poeira que subia até as suas narinas era ainda mais sufocante que o ar quente e seco de sempre das suas noites solitárias. Caminhava como quem se arrasta e, ao cair da noite, tinha como testemunha apenas as estrelas e a lua.
De repente percebeu bem diante de si uma explosão silenciosa cuja luminosidade deixou-o por um instante cego e também receoso. Não fugiu, todavia. Não havia naquela caatinga lugar para onde pudesse correr para se guardar do perigo ao qual, em princípio, presumiu estivesse exposto.
Não lhe restando muito o que fazer, resolveu fitar, então, a luz que àquela ocasião já minguara consideravelmente. Seus olhos se postaram fixamente num ponto pequenino como uma bola de gude. Como a luzinha não se movimentava resolveu entao tê-la entre os dedos.
Um ar leve como o da infância envolveu todo o seu corpo; um perfume de todas e de especificamente nenhuma das rosas inebriou a sua mente; o som dos mais belos aboios entrecortados pelo barulho das ondas que jamais vira e ladainhas de procissão conduziram seu corpo calejado por alamedas de eucaliptos. Caminhava ainda, portanto. Mas caminhava como quem baila, como quem vive.
Acordou. Sede, fome, cansaço. Calor, seca, lágrimas. Mais uma jornada: novos passos pelos mesmos espaços.