quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Filosofia

Alguns conhecidos meus, estudantes de filosofia, evidenciam-se mais pelo que não sabem do que pelo que presumem saber. E não se trata aqui de caso similar ao de Sócrates.
Quantas e quantas vezes não tive de ouvir comentários deselegantes proferidos por tais colegas quando se referiam ao filósofo A ou B estudado por algum outro aluno do curso de filosofia da UFPE? Essas invectivas, se submetidas a uma vivissecção, denotam, imediatamente, profundo desconhecimento daquilo de que se arvoram sabedores. Desconhecimento porque tendem, via de regra, a direcionar a sua energia contra os famigerados estereótipos dos pensadores: Nietzsche, o louco; Kant, o donzelo; Hegel, o padreco etc e etc. As piadinhas se proliferam como verme em carne putrefata.
Mais lamentável ainda é testemunhar tão abominável comportamento entre professores. Nada há de mais revoltante que ter de ouvir um doutor, como diria uma amiga, chafurdar no senso comum. Desonestidade intelectual é erva daninha que infelizmente grassa nalguns recantos do nosso departamento quando pessoas com titulação acadêmica elevada imprimem um selo sobre a obra de algum pensador e tentam apresentá-la a partir de então sempre sob um prisma reducionista qualquer.
Assim sendo, sem qualquer retórica proclamo a minha estultície. Mas também sem qualquer modéstia proclamo a minha vontade e o meu esforço para pensar, o que implica, necessariamente, pensar inclusive o que me desagrada por quaisquer que sejam os motivos. Prefiro que me conheçam pela meia dúzia de palavras plausíveis que possa dizer acerca de um filósofo e de três palavras arrazoadas que possa dizer por mim mesmo a notabilizar-me por meio de trocentas palavras canhestras e desreipetosas a respeito do pensamento de quem mal sei como se escreve o seu nome.

Amigo

Amigo é o lugar onde podemos repousar nossas dores e de onde retiramos todo ânimo

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Uma gotinha


Quando eu olhava para uma pessoa idosa, com os seus cabelos já brancos, nunca imaginava que houvesse muitos conflitos perpassando a sua alma. Talvez porque a cor de neve da sua cabeça me fizesse, inconscientemente, relacioná-la à serenidade, à paz de espírito. Quanta ingenuidade!
Há alguns meses estive em João Pessoa (a cidade onde desejo morar) por ocasião de um congresso de filosofia. Durante dois dias, hospedei-me na casa da madrinha de um grande amigo. Na manhã em que deveria ir embora, após o café, levantei-me da mesa e fui à cozinha, lavar, como de costume, os pratos e talheres de que me utilizei enquanto comia. Naquela instante, apresentou-se na cozinha, para entabular conversa comigo, a senhora, tia da madrinha do meu amigo. Ela tinha mais de 90 anos de idade.
A primeira coisa que a senhora me disse foi: “Onde tem mulher, homem não trabalha na cozinha. Deixe esses pratos, meu filho”. Ao que, sorrindo, respondi-lhe: “Não se preocupe. É rapidinho e não me custa nada!”. Ela me retribuiu o sorriso e me ofertou também um segredo, ou melhor, uma queixa que, certamente, havia muito estava latente: “O filho da minha sobrinha nunca tira um prato da mesa”.
O que mais me impressionou na fala da senhora foi a sua expressão facial. Seu olhar inicial, ao se aproximar de mim, era de pura gentileza e cortesia, embora também fosse de resignação. Após o nosso breve diálogo, no entanto, modificara-se: eu me entristeci ao perceber dois olhos ainda mais resignados com a ordem do mundo, a despeito, é verdade, de haver uma gota de indignação no seu olhar, mas uma indignação que parecia se envergonhar por existir. Uma gota de indignação, todavia, foi suficiente para que eu percebesse que a cabecinha branca daquela senhora era um verdadeiro campo de batalha. Afinal, não pode haver paz para as(os) vencidas(os).
Ao refletir sobre a cena, veio-me ao meu espírito uma gota de esperança, pois para que uma tempestade aconteça sempre há de cair uma primeira gota. E, para quem quer agir, não importa o tempo já percorrido ou que ainda terá de trilhar, porque o que está à mão é sempre o presente, que nada é senão uma gotinha.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Línguas

Estou estudando francês por um livro que orienta o estudante a seguir sozinho no aprendizado da língua. Eu estava bastante concentrado quando, de repente, tropecei numa pérola. Não pude conter o riso, pois sogra em francês se escreve belle-mère (bela mãe) e sogro beau-pere (belo pai).
Digno de nota nesta página de leitores virtuais é o comentário do autor do livro que me guia na aprendizagem da língua francesa. Após explicar que beau e belle se usam para os parentes por casamento, ele diz: "Este é um exemplo da politesse française". Bem, a mim me parece mais uma demonstração da ironie française.
A polidez das expressões francesas acentua-se bastante se comparada com a franqueza das suas "irmãs" da língua inglesa. Esta guarda para sogra a expressão mother-in-law (mãe segundo a lei) ao passo que reserva para sogro father-in-law (pai pela lei).
Depois de matutar um pouco acerca das supracitadas expressões das línguas francesa e inglesa, me ocorrem duas questões. A primeira: por que as palavras cunhadas para sogro e para sogra nessas duas línguas são aglutinações? A segunda: revelariam tais expressões algum traço do caráter desses povos, isto é, do seu ethos?
Não sou filólogo e quase não consegui obter a licença para lecionar história. Ou seja, não posso dar passos significativos no sentido de tentar solucionar as questões que apresentei acima. No entanto, como conjecturar não engorda, não deixarei de lançar mão de duas hipóteses para responder às perguntas.
Em primeiro lugar, creio que é possível que essas expressões não sejam as mais antigas designadas para designarem o que designam. Assim, algo que nos é desconhecido deve ter obrigado os ancestrais dos ingleses e dos franceses a forjarem as já tantas vezes citadas expressões somo sucedâneo de outras mais antigas. A adequação deve ter se dado tão perfeitamente que as precedentes expressões correspondentes caíram no olvidamento.
Em segundo lugar, embora eu não seja muito afeito aos estereótipos, lembro que eles não surgem por acaso. Uma parcela mínima da população de uma comunidade deve apresentar um comportamento parecido em alguma questão para que um desses rótulos medre e que passe a selar a alma de toda uma nação. Assim sendo, ou não sendo mesmo assim, acho que expressões do tipo belle-mére ou mother-in-law revelam bastante da cortesia e da diplomacia francesa assim como do pragmatismo inglês.
Mas posso estar viajnado na maionese...

Oscar Wilde II


Nothing can cure the soul but the senses, just as nothing can cure the senses but the soul

Frase oriunda de The Picture of Dorian Gray

Oscar Wilde


Words! Mere words! How terrible they were! How clear, and vivid and cruel! One could not escape from them. And yet what a subtle magic there was in them! They seemed to be able to give a plastic form to formless things, and to have a music of their own as sweet as that of viola or of lute. Mere words! Was there anything so real as words?


Trecho retirado de The Picture of Dorian Gray

Nota


Nota

Se eu fosse uma nota
De uma bela sinfonia,
Será que você me notaria
Ou me teria como alma morta?

Esperança

Gustav Klimt - Hope/Esperança



Esperança

Brisa na alma.
Brilho no olhar.
Impaciência calma.
Desejo sem par.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Viva a Alteridade!!!

Aos que querem ser ilhas, peço-lhes que se lembrem de que "eu" é uma palavra composta por duas letras, assim como "solidão", na qual vemos delineados sete símbolos do nosso alfabeto. Sábia língua portuguesa! Mesmo se quiséssemos, não poderíamos aniquilar completamente os outros(eles ainda restariam nalgum recôndito lugar da nossa mente). Somos seres relacionais por natureza. Baudrillard já disse, nalgum lugar, que o outro impede o eu de se repetir eternamente. Então viva a alteridade, mesmo quando dói.

Tristeza


Tristeza é temporal:
Repentino e avassalador.
O eu torna-se mau
E a vida perde sua cor.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Guaraná

O texto que se segue já deveria estar publicado há alguns dias. Mas a preguiça me impediu de digitá-lo.
Cenário: Sala de jantar na qual se destaca um mesa redonda tendo sobre si iguarias coloridas que exalam aromas convidativos.
Personagens: Eu e minha namorida, famintos...
Diálogo:
- Pô, Sheilinha, valeu a pena esperar, né?
- Valeu mesmo.
- Eu sou lento na cozinha, mas tenho um temperinho gostoso... É o amor, heheheheh
- Vai, besta.
- Meu amor, passa o Guaraná.
Inopinadamente, ao proferir a palavra "Guaraná", veio todo um "filme" na minha cabeça. Lembrei-me de ter lido, quando criança, um texto que contava a origem do guaraná. Em resumo, e de acordo com a lenda indígena, ele vinha do olho de um curumim morto enterrado pela própria mãe. Eu acreditei piamente na história e parei de tomar o refrigerante por um bom tempo, pois não o achava muito higiênico.
Diálogo 2:
- Jefferson?
- Hein?
- Que cara é essa?
- Hahahahahah
Tive de contar a Sheilinha toda a história. Estava adimirado com a redescoberta inesperada de algo tão significativo, para mim, na minha infância. Como nos prega peças o nosso cérebro?!!

Seis


Não sou um cara muito atento às datas. Mas me lembro agora que hoje é um dia especial. Há um ano e cinco meses eu beijava pela primeira vez a boca da minha amada, Sheilinha. Desde então um novo mundo, muito melhor, se descortinou para mim. A ela, dedico meu coração. Te amo, minha neguinha.

Santa Paciência...


Li, ontem, consternado, que, num edifício simples na periferia de uma grande cidade alemã ocorreu um incêndio: nove pessoas morreram e todas eram turcas. Há suspeitas de que o incêndio foi criminoso. Mas nesta tragédia houve um evento maravilhoso. No auge do seu desespero, um homem soltou, do alto do terceiro andar, o seu filho - uma criança de colo - que, felizmente, foi acolhida pelas mãos de um bombeiro no térreo. O bebê passa bem, "graças a Deus".
"Graças a Deus" e "foram as mãos de Deus" foram as frases mais recorrentes dos/as leitores/as de um site de notícias brasileiro ao comentarem o evento noticiado. Algo me parece estranho, todavia. Fiquei com a impressão de que o fantástico salvamento do bombeiro obnubilou completamente a vista de muitas pessoas para a morte absolutamente agoniante das outras nove vítimas, cinco das quais também eram crianças (o que Deus estava fazendo que não pôde dar uma mãozinha a esta gente?)
Sinceramente, não vejo a mão de Deus no maravilhoso salvamento do bebê. Vejo as mãos de um homem treinado e pago para tentar salvar as pessoas. Tampouco consigo ver as mãos de Deus entre as que neste momento medicam os seqüelados do incêndio.
Eu prefiro queimar no fogo do inferno a acreditar num Deus desses...