quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

As cores da gente



O simples também merece ser reafirmado. Por isso, digo: se gente fosse cor, não seria uma cor estabelecida para todo o sempre. As pessoas azuis, por exemplo, revelariam diferentes tonalidades de azul, a depender do dia e de outros tantos fatores.
A gente azul – ou de quaisquer outras cores – teria a mágica qualidade de não se apresentar apenas a partir de variadas matizes da referida cor. Poderia – algumas vezes quando quisesse, outras à revelia do seu querer – adquirir a pigmentação de todas as outras cores. Na verdade, a gente azul só é azul do mesmo modo que uma nuvem é uma baleia: alguns instantes bastam para que ela se transmute num golfinho ou num jacaré.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Piscar de Olhos


Ressalto, de antemão, que não falo alemão: “ainda estou nas aulinhas de inglês”. Contudo, conheço umas palavrinhas da língua teutônica (que, aliás, sempre parecem palavrões). É o caso de Augenblick, a qual, vertida para o nosso vernáculo, quer dizer “instante”.
Não sei por que motivo nem com que argumentos Heidegger afirmou em algum lugar que só é possível filosofar em alemão. Por arranhar o inglês, respondo a esta idéia com uma palavra apenas: bullshit! Assim, muito embora discorde da tese heideggeriana, tenho de reconhecer a riqueza da língua alemã no que se refere, sobretudo, à vasta gama de sentidos que perpassam as suas palavras. Como exemplo desta abastança semântica cito, mais uma vez, Augenblick. Ela é uma aglutinação, isto é, uma palavra composta. Literalmente significa “piscar de olhos”.
Resumindo: no alemão “piscar de olhos” e “instante” se dizem da mesma forma. E, a respeito do instante, Heidegger teceu considerações interessantíssimas. Em sua obra capital, Ser e Tempo, ele defende que o tempo não é uma sucessão de “agoras” isolados. Em cada instante, somos nosso tempo totalmente: as três dimensões do tempo se interpenetram. O que foi ainda vigora no agora que é, por sua vez, pura possibilidade, ou seja, abertura para o porvir. Bem, foi mais ou menos assim que entendi.
Mas mesmo que eu tenha cagado o pau na compreensão do hermético texto de Heidegger, o que importa é a imagem que se me assomou à mente. Envergonho-me da sua obviedade, mas que posso fazer se não a havia visto assim antes? Piscar os olhos não é apenas cerrá-los (como quase sempre pensei). Qualquer piscar de olhos é formado por dois instantes – um em que os olhos vão se fechando e outro no qual vão se abrindo. Fiz questão de usar o gerúndio para enfatizar o jogo ligeiro e contínuo entre o movimento e o contramovimento das pálpebras. Enquanto vão se fechando, parece que os olhos nos dizem que algo está passando. Mas, ao se abrirem, eles nos dizem que há qualquer coisa que se aproxima.
E o presente, onde fica? Creio que ele fica no entre. Ali, meio esmagadinho pelo passado e na esteira do futuro. Ele é a percepção da memória e da expectativa; é o desejo que se projeta tanto para o já conhecido como para o desconhecido; é a consciência de que o já ido não se vai completamente e de que o ainda não vindo em parte já chegou. Mas o presente é efêmero. Ele é, tal qual o instante, fugidio, irrefreável e inapreensível. Esvai-se assim como quase todos os piscares de olhos: imperceptivelmente.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Ano-novo


Retirei esta poesia que tava no Orkut. Fica arquivada aqui, então.


Inspirado por esse clima de ano-novo, fiz um poeminha. As rimas são pobres mas são sinceras...


O meu ano-novo

Invade-me um forte desejo

De fazer-me do novo.

Há algo belo que vejo

Vindo e rompendo a casca do ovo.


Guardo, por um instante,

Todos os meus receios

E a mim mesmo ordeno: - cante!

Canto à Vida e beijo os seus seios.


Quero, no ano-novo,

O que querem todos:

Enamorar-me, de novo,

Da Vida e de seus filhos todos.

domingo, 20 de janeiro de 2008

...

Mais uma vez me ocorre uma idéia incomum e corro para registrá-la nesta página virtual dedicada aos leitores e às leitoras virtuais. É uma idéia que, em princípio, parece macabra, tenebrosa, mas que, se analisada cautelosamente, revelará sua razoabilidade.
Eis, então, a minha idéia: penso que carregamos em nossa mente uma plêiade infinda de gente morta. Mas não me refiro necessariamente àqueles e àquelas que passaram dessa para uma melhor (talvez tenham passado para uma pior ou mesmo para canto nenhum). Creio que a maior parte dos cadáveres plantados em nossa cabeça estão vivíssimos. Quantas vezes não percebemos que um fulano ou uma fulana de quem gostamos bastante não se interessa mais por nós? É quando assumimos o luto de uma morte já ocorrida às vezes há muito tempo.
Acreditamos guardar no nosso intelecto uma cópia fiel de quem conosco se relaciona, mas penso que, muito provavelmente, não se trata senão de espectros. Essas imagens fantasmagóricas ficam encerradas em cada pedacinho da nossa cabeça e delas não nos livramos facilmente. Mas temos de sepultá-las. Contudo, só o conseguiremos quando percebermos que, por mais doloroso que isto seja, as pessoas nunca correspondem à imagem que delas nutrimos. Quer dizer, os mortos que se amontoam em nossa mente foram mortos por nós mesmos, pelo hábito horrendo segundo o qual tendemos a colocar em cativeiro quem cativamos. Se os víssemos como seres em processo, isto é, seres vivos, não os prenderíamos em nossas bem intencionadas imagens. Então, muito provavelmente teríamos a alegria de vê-los renascendo para nós.

...


Para finalizar a limpeza da minha gaveta mágica, apresento aos leitores e às leitoras deste blog uma outra poesia surgida das minhas entranhas em 2007. Quero salientar que nem ela nem a anterior refletem o meu humor atual. Publico-as apenas porque nada tenho além delas para saciar o meu desejo incontido de expor qualquer coisa (sou filho da sociedade em que todos e todas querem os seus 15 minutos de fama!). O quadro que embeleza esta postagem - pra quem não sabe - chama-se "O Grito" e foi pintado pelo norueguês Edvard Munch.



Tintas que não sei pintar:
Arte que me falta à garganta;
Fome infinda, sede do mar;
Secura de voz que não canta.

A esterilidade é o meu desalento.
Dissonância e descompasso
Me roubam todo talento.
Deus meu! Que faço? Que faço?

06/2007

TÉDIO


Dou continuidade à limpeza da gaveta. Publico mais um poeminha sem muita graça escrito no ano que se foi (os anos nunca se vão completamente...). "Roubei" do Google a bela imagem que ilustra este post: http://aliceprina.files.wordpress.com/2007/06/tedio.jpg


Acompanhado pelo tédio
Tenho vivido os meus dias.
Mas não busco remédio:
Dele não tenho alergias.

O tédio me impulsiona
A rever e a planejar atos.
Não é uma atitude cafona,
Não é como viver entre ratos.

Afinal, da vida, que farei?
A dançar, talvez aprenda;
Talvez dite minha própria lei...
Lei sem sanção senão prenda.

E enquanto durar tal ânimo
O tédio fruirá seu repouso.
Então, revigorado, após o gozo,
Volverá a mim – magnânimo.

Jefferson Tadeu 25/08/2006

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Insights


Que coisa mais misteriosa é esse tal de insight! Ele entra na cabeça da gente como um raio; de repente tudo se ilumina. Tive um desses horas atrás e fiz questão de registrá-lo neste espaço que Deus sabe quem o visita!

Advirto, de antemão, àqueles e àquelas que pelejam contra o tempo que meu insight é uma coisinha filosofante, meio pretensiosa (ou seria pretensiosa e meio?). De antemão, digo também que acabei de ter outro insight enquanto escrevo e ele é mui válido pra "encher" lingüiça. Ele é: putz, como eu gosto de me delongar!

Well, como havia dito, linhas acimas, tive um insight. Mas antes de colocá-lo à disposição da curiosidade incomensurável de quem me lê, pergunto-me e estendo a questão a quem não tem nada melhor pra fazer do que despender sua valiosa visão sobre estas mal traçadas linhas: não parece que depois de nosso juízo haver sido iluminado por esse clarão repentino que é o insight segue-se um súbito blackout? É assim comigo, ao menos... Parece que se instaura um quebra-pau do cacete na minha cachola. Uma parte de mim é completa alegria por ter vislumbrado algo que até então lhe estava velado; outra parte de mim, porém, só quer ser a Tropa de Elite, estraga prazeres e coisas do tipo. Essa força das trevas alcunhada por Freud de Superego tenta colocar minha nova descoberta pra debaixo do tapete, mas quase nunca consegue.

Ok, é chegada a grande hora. Meu insight é o seguinte - deveríamos, em respeito à fluidez da realidade pronunciar a famigerada palavra "verdade" diferentemente do que temos feito até os dias hodiernos. Sei lá, talvez devêssemos dizê-la doravante mais ou menos assim: veidadri, vridadi ou coisa que o valha...

Nóia? Decerto. Mas uma nóia salutar (lembrei-me do professor Vincenzo que disse que somos todos - e eu acrescentaria todas - "normopatas". Minha nóia salutar tem um pingo de plausibilidade. Concedam-me um pouco mais de tempo para defendê-la com argumentos poderosos.

Vejam bem, lembrem-se de Heráclito. Ele diz (e todo mundo repete!) qualquer coisa sobre o rio -dá sede só de lembrar mais uma vez desta estória (ou seria História?). Mas calma, tá acabando. Dêem-me um pouco mais de atenção. Entonces, como tava dizendo, tudo passa, tudo muda, blá blá blá, logo não há fixidez na realidade; o que é já não é mais do jeito que era etc e tal. Logo, seria uma bela manifestação de humildade da nossa parte se nos resignássemos a abrir mão da pretensão de, com uma palavra, alcançar a verdade sobre as coisas. Não dá mesmo, nem fudendo! Proponho, portanto, que recriemos um novo termo para designar as nossas limitadas convicções; um termo que denote o caráter sempre provisório, insuficiente, das nossas elucubrações. Convenci alguém?

domingo, 13 de janeiro de 2008

Flor do Mandacaru


Tá chovendo e eu estou ouvindo Cordel. Lá vai então:


Quando chove no sertão

O sol deita e a água rola

O sapo vomita espuma

Onde um boi pisa se atola

E a fartura esconde o saco

Que a fome pedia esmola


João Paraibano

POETA

O POETA É UMA LUPA:
AMPLIA QUANDO AMA.
MAS, SOB IRA, À CHAMA
LANÇA SEM LHE DOER A CULPA.

Homem

Homem, curiosíssima criatura
Que ao buscar na literatura
O bálsamo de toda má augura
Encobre sua face, pois não a atura.

Singularidade

A singularidade, que é isso?
Ousará defini-la alguém? Quem?
Que gênio e seu pensamento fixo
Conseguirá dizê-la a outrem?

sábado, 12 de janeiro de 2008

Sentimentos Ambivalentes

Volvo ao tema da ambivalência dos sentimentos. Freud escreve páginas memoráveis acerca disso. Ele nos faz ver, por exemplo, a gênese do sentimento do luto a partir do conflito entre as pulsões de vida e de morte.
Quando morre um ente querido ficamos tristes, obviamente, mas em alguma parte do inconsciente há certa alegria, satisfação. Que loucura! O luto advém, então, da necessidade que temos de permanecer escondendo para nós mesmos e para os outros esse ligeiro júbilo que assoma em alguma parte recôndita da nossa psyché. É assim mesmo? Psicanalistas de plantão corrijam-me caso eu tenha dito besteira.
Mas mesmo que eu tenha escrito bobagem ao descrever a gênese do mecanismo de defesa conhecido como luto, o que importa aqui é que sentimentos ambivalentes são vivenciados por todos e por todas. E o que desejo mesmo com este textículo é partilhar com quem o lê uma divagação que me assaltou poucos dias atrás sobre a origem de um caso específico de sentimento ambivalente.
Nossos vizinhos têm um filhinho que acabou de completar um aninho. Eu e Sheila costumamos brincar com a criança todos os dias. Quando não é possível, por qualquer motivo, dedicar ao menininho uns 10 minutos ao menos, fico com a sensação de vazio antes de dormir. Brincar com Ernesto me faz, ao mesmo tempo, rir e querer chorar (estou confessando isto pela vez primeira!). Não sei por que motivo me derreto internamente (tenho de lutar para não verter lágrimas). Talvez porque a criança um dia se torne homem e eu não sei se isto será bom ou ruim; talvez ainda porque desejasse que ele fosse meu filho... Não sei, mas eis mais um exemplo de sentimentos ambivalentes.
Mas o caso específico de sentimento ambivalente que no parágrafo antecedente ao anterior eu havia prometido abordar o abordarei doravante. É o seguinte: Ernesto, às vezes, nos dá uns tapas na cara. Sei que o velho Freud também já convenceu meio mundo acerca da existência extremamente precoce da agressividade (ou pulsão de morte – Thanatos) entre as crianças. Seria tolo se o negasse. Contudo, arrisco-me a forjar uma outra teoria, teoria esta calcada na fumaça bruxuleante do cachimbo do pai da psicanálise.
Creio que quando o nenê nos dá os seus tapinhas, ele pode estar querendo nos acarinhar. Falta-lhe apenas coordenação motora e o movimento, portanto, mostra-se brusco, tosco. É evidente que às vezes ele quer é bater mesmo, quer protestar contra o preço do nosso hálito ou da nossa mão que o aperta sem muita delicadeza. Mas quase sempre o seu movimento intercala os carinhos que lhe dedicamos. Por esta razão, penso que seus tapinhas são, na verdade, o seu feedback. Por que não?
E onde haveria sentimentos ambivalentes por aqui? Lá vai minha teoria, completando-se. É mais ou menos assim: quando o bebê “bate”, brigam os pais. Sua intenção não era má, não era destrutiva. Mas ele acaba introjetando o sentimento de culpa. Desde esse momento a infância deixa de ser tenra e torna-se também espinhosa. Não seria este o pecado original que carregamos pelo resto da nossa vida?
Aí está como penso que a culpa, a má consciência, ficará indelével em nosso espírito. Nunca mais teremos sentimentos “puros”. Ambivalência. Ambivalência.


Voltarei a falar sobre isso. Mais tarde colocarei um outro texto.
Sala de aula

Um dia, estava eu a falar numa sala de aula para algumas crianças. Nem lembro se parolava acerca da Independência do Brasil ou da Lei Áurea. Nevermind! Crente que tava abafando, eu falava tanto que até babava de vez em quando. Inopinadamente, um aluno levantou a mão.

- Professor?
- Diga, meu filho.
- Por que o senhor não dá uma aula diferente?
- Diferente?
- É, diferente.
- Ah, é simples! Vamos fazer assim: eu falo e você presta atenção. Vai ser uma aula muito diferente!

Passados alguns anos – uns cinco – essa cena me veio à mente. E não sei o que pensar a seu respeito. Apenas sinto uma culpa mesclada com alegria numa ambivalência que me dá náusea.

Dor nº 2

Não sei o que acontece comigo. Estou percebendo que tenho uma obsessão pela dor, pois no ano passado escrevi um poeminha a respeito. Lá vai o dito cujo diretamente do fundo do baú:

Não finjo dores quaisquer,
Senão as de um parto
Duro que tem a mulher
Do ventre mais farto.

06/2007

Acho que devo encerrar essa temática com uma pequena piada.

"O masoquista, cheio de tesão, vestido com uma roupa de couro preta, disse sussurando no ouvido do sádico:
- Bate, bate gostoso!
O sádico, mostrando os dentes com um sorriso maligno e com um ar superior respondeu:
- Nãooo!"

os bons

Escrevi a poesia que se segue em novembro de 2005. Ela tava meio esquecida no hd do meu computador. De novembro pra cá, no entanto, eu a redescobri. Com tristeza... Dedico-a ao meu amigo Zoltan.

É verdade que se vão os bons
Assim como os frutos - de repente.
Mas deixam, sempre, seus dons:
O sumo, o sabor e a semente.

07/11/05

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Dor

Cheguei a duas conclusões inusitadas agora há pouco: percebi que filosofia e dor são incompatíveis e também que a dor tem o estranho poder de causar ilusões de ótica.
Trocando em miúdos, posso dizer, inicialmente, que a filosofia tem pretensões de universalidade enquanto que a dor somente é dor singularmente. A dor é avessa a todo desindividualizar. Compreendo sempre precariamente a dor dos outros, pois tenho em mente apenas a minha própria dor. Isto, no entanto, não me desresposabiliza do cuidado com quem sofre. Em minha cabeça, nós, seres humanos, irmanamo-nos na dor e na resistência que a ela opomos, quer dizer, na compaixão. Minha compaixão, entretanto, é parcialmente cega: sei que o outro – ou a outra – sofre e que o sofrimento é ruim, mas não sei a sua medida exata. Felizmente, reitero, não é necessário saber para agir...
Ademais, penso que ninguém discordará do meu segundo insight: quando a dor me lancina o mundo parece pequeno, ao passo que a parte de mim que dói adquire dimensões gigantescas. O pedacinho de meu corpo – ou de minha alma – que me aperreia é inversamente proporcional ao mundo exterior.
Dei-me conta dessa última “verdade” ao sair da dentista: uma dor excruciante no meu segundo molar inferior do lado esquerdo da boca me torturava. Ao voltar para casa, de ônibus, sentei-me ao lado de um rapaz que lia qualquer coisa. Quer dizer, ao lançar rapidamente um olhar para o objeto que ele manipulava, tive a impressão de se tratar de um dicionário escolar ou de uma pequena bíblia. Contudo, após alguns minutos a dor ofereceu-me uma breve trégua e naquele momento voltei a observar o livro carregado pelo jovem ao meu lado. Que surpresa a minha ao perceber as suas dimensões bem avantajadas. Compreendi a armadilha em que caí devido à dor que me compungia o juízo.
Jefferson Tadeu 10/01/2008

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Vida e Literatura

Há um abismo incrível entre vida e literatura, assim como entre aquela e a filosofia. Não sou o primeiro a dizê-lo e espero não ser o último. Necessário se faz repisar de vez em quando esta idéia para que os presunçosos literatos e filósofos não se arvorem como gênios.
É inegável que há gênios entre escritores e pensadores profissionais, mas na mesma medida em que há paz em Gaza. Inveja? Despeito? Talvez. Não vou negar que adoraria ver lançado sobre mim o epíteto de gênio. Afinal ser gênio abre os caminhos, desde que não seja uma genialidade reconhecida apenas postumamente.
Mas estava eu a falar a respeito da enorme distância entre literatura e vida. Ora, na Genealogia Nietzsche nos diz que Homero não escreveria a Ilíada nem Goethe nos presentearia com Fausto se as experiências relatadas em suas obras houvessem sido suas. Não discordo do bigodudo. Neste ponto ele parece extravagantemente sensato.
Se a vida de Homero não foi tão homérica assim e a de Goethe não foi marcada com pelejas contra um Mefistófeles, não é de se esperar que a de nossos mestres-escolas que vivem à sombra daqueles gênios seja menos prosaica. Ou será que me equivoco?
É possível que nossos professores de literatura – assim como os de filosofia – não tenham se tornado gênios porque suas vidas tão plenas de energia e experiências incomuns sejam incompatíveis com o ofício miserável de castigar o papel com belas palavras.
Não sei onde li, certa vez, que Hemingway libertava-se do álcool apenas quando se entregava aos caprichos da literatura. Lembro-me também que o autor ou a autora daquele texto disso concluiu que as paixões são ciumentas, são excludentes e coisas semelhantes. Eu, por minha conta, prefiro crer que não se pode servir a mais de um senhor.
Sim, creio não ser possível servir a mais de um senhor. Não queria conspurcar meu texto com obviedades – no fundo desejo ser um grande escritor – mas é evidente que os escritores todos escreveram em vida. Contudo, vida homérica e literatura, penso, não se conjugam e mesmo Hemingway não foi senão coadjuvante durante a Guerra Civil Espanhola. Do mesmo modo, sabemos perfeitamente que não respingou sequer uma gota de sangue ou de lágrima sobre o paletó de Churchill durante a Segunda Guerra.
Pode parecer estranho a alguns que eu esteja associando vida à tragicidade, a eventos grandiosos etc. Não sou tão estúpido que aprecie e louve apenas esse tipo de vida, mas me parece quase sempre belo quem se entrega aos ditames das suas paixões; parece-me encantador aquele que é todo ação no sentido de efetivar o que o desejo lhe impõe. Encanto-me porque sou fraco. Encanto-me porque sou afeito ao conforto, mas ele não é irmão da coragem.
Todavia, reconheço e me embriago com a beleza de outros modos de vida: a honesta simplicidade; a ambição veraz, mas não desmedida. Reconheço beleza na vida dos fracos, não na dos resignados. Reconheço beleza nos ingênuos, não nos imbecis. Reconheço beleza na vida de um mestre-escola, não na de um impostor que arrota bobagens. Reconheço beleza na literatura vulgar, não genial.
Reconheço beleza no meu desejo ingênuo e provavelmente fadado ao malogro de tornar-me romancista. Reconheço beleza em minha própria vida tão desprovida de realizações, tão pálida de inventividades. Consigo reconhecer beleza mesmo na minha vida sem literatura.

Jefferson Tadeu 08/01/2008