segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Pirandello



Não sei por que sorte de mecanismo psíquicos veio-me à mente agora há pouco a lembrança de uma série de imagens do livro Um, nenhum e cem mil de Luigi Pirandello (1867-1936). Leitura antiga. Já se vão uns bons quatro anos desde que o li.

Não traçarei, nem em linhas gerais, detalhes da trama. É importante que cada leitor enrede-se sozinho nas malhas surpreendentes da narrativa. Recomendo a leitura deste livro porque nele se delineia, de modo leve, porém profundo, questões de caráter filosófico (ou seria sociológico?) da maior relevância, tais como, por exemplo, o problema da identidade. Quem somos nós, afinal? Esta questiúncula básica se nos apresenta tão logo findemos o livro. E somos nós mesmos que nos perguntamos, de maneira totalmente original, que(m) diabos somos nós.

Aliás, algo me diz que este problema atravessa a obra de Pirandello. Lembro-me agora de leituras ainda mais remotas. Em Seis personagens à procura de um autor e O Falecido Mattia Pascal, o escritor italiano não nos parece fazer outro questionamento senão: somos nós o papel que ocupamos na sociedade em que vivemos? Somos algo além ou aquém disto?

Esse problema mui árido, demasiadamente deprimente, assaz insosso, é revestido nestes textos de um quê que nem sei dizer direito; um quê temperado por um humor agudo. Por esta razão, ou justamente pela sua falta, seus textos extasiam e nos pendulam ora para a euforia, ora para a angústia.


5 comentários:

Dodô disse...

Jéferson, me lembro que vc tava lendo um livro de Pirandello no bigode, há um bom tempo. Não sei se era esse. Naquele tempo vc tava passando por uma fase meio niilista, meio triste com a vida. Meu caro, admiro muito sua capacidade de mudar e tentar entender o mundo à partir de si próprio. Valeu grande irmão!

Tauá disse...

Jeff, linda reflexão sobre o livro de Pirandello... Meu primeiro livro em língua italiana, ao mesmo tempo em que tentava desbravar as palavras, eu me envolvia nessa trama extremamente delicada e desafiadora... E quando a gente não descobre partes de nós mesmos que para os outros é muito óbvio e visível? É normal se estranhar? Se perguntar o que os outros pensam de você... entrar em crise sobre a imagem que passamos aos amigos e parentes e se questionar se de fato é a que gostaríamos de divulgar!
Somos um, singulares, dentro de uma rede que fazemos parte, com características locais de onde nascemos e características globais do mundo no qual habitamos... Fica ainda o desafio de utilizar a critividade a favor desse movimento frenético de identidade e identificação! Um, nenhum, cem mil... LEIAM!!!!

germana disse...

Sabe um livro enredo de uma existência?
Eis a obra de Pirandello “Um, Nenhum, Cem Mil” a exemplificar – em modos e gradações diferentes – a minha trama existencial cotidiana.
Sendo esta UMA, a versar argumentos, a pensar em conformidade e coerência com determinada imagem, descubro-me/ descobrem-me diversa, por que não, adversa daquela.
Mas que direito tem um outro de extrapolar a imagem de uma personagem à qual intenciono/intencionamos dar a mim/nós mesma/o(s)?
Uma vez que nos dão cor e vida de acordo com as cores e traços produzidos no imaginário, não seria digno de riso acreditar-mos na utópica liberdade?
Estamos presos, enclausurados, sufocados pela figura que os outros detém de nós mesmos, sem garantia alguma de podermos sonhar com rebeliões e protestos, haja vista que a cada passo a confirmar a idéia daquilo que acreditamos que somos, os universos particulares fabricam mais enredos para nos cercar com
idéias suas daquilo que acreditam que somos.
Nesta roda-vida só podemos mesmo ser este UM, controverso e aflito a titubear face ao nosso destinamento; Nenhum, por não coincidir com nenhum daqueles que pensam que somos; e CEM MIL vezes um diferente a se construir e reconstruir nessa confusa e caótica humanidade.

Uma, Nenhuma, Cem Mil disse...

Jeff, escreveste este texto sobre o livro de Pirandello no dia do meu aniversário. :p

Uma, Nenhuma, Cem Mil disse...

Sabe um livro enredo de uma existência?
Eis a obra de Pirandello “Um, Nenhum, Cem Mil” a exemplificar – em modos e gradações diferentes – a minha trama existencial cotidiana.
Sendo esta UMA, a versar argumentos, a pensar em conformidade e coerência com determinada imagem, descubro-me/ descobrem-me diversa, por que não, adversa daquela.
Mas que direito tem um outro de extrapolar a imagem de uma personagem à qual intenciono/intencionamos dar a mim/nós mesma/o(s)?
Uma vez que nos dão cor e vida de acordo com as cores e traços produzidos no imaginário, não seria digno de riso acreditar-mos na utópica liberdade?
Estamos presos, enclausurados, sufocados pela figura que os outros detém de nós mesmos, sem garantia alguma de podermos sonhar com rebeliões e protestos, haja vista que a cada passo a confirmar a idéia daquilo que acreditamos que somos, os universos particulares fabricam mais enredos para nos cercar com
idéias suas daquilo que acreditam que somos.
Nesta roda-vida só podemos mesmo ser este UM, controverso e aflito a titubear face ao nosso destinamento; Nenhum, por não coincidir com nenhum daqueles que pensam que somos; e CEM MIL vezes um diferente a se construir e reconstruir nessa confusa e caótica humanidade.