terça-feira, 4 de novembro de 2008

NÃO MATARÁS

O ENUNCIADO "não matarás" tem a força de uma máxima moral. É lícito concluir, no entanto, que se trata de algo que expresse uma verdade? Ou seria o caso de ter em mente que o valor desta máxima decorre da sua utilidade?
DE INÍCIO, afirmo que o princípio me parece indispensável às sociedades, muito embora, em casos especiais, ele possa e deva ser suspendido. De fato, poderiam objetar-me de que nestes casos ele já não seria mais um princípio ou uma máxima. Sim, seria uma máxima não observada "maximamente", mas ainda assim uma máxima. Em geral, é o que ocorre com freqüencia: uma lei (e a lei pretende ser universal) costuma prescrever os casos em que ela não deve ser observada.
ASSIM, se a máxima em questão é de fato indispensável, é porque ela resguardaria a vida da humanidade em geral e a minha própria em particular. Quer me parecer que este raciocínio é presente na mente de quem tem em alta conta o "não matarás". Todavia, o que mais me interessa agora é: o valor deste imperativo ético é fruto da sua utilidade para a humanidade ou se deve ao fato de que ele se encontra inscrito na essência e na ordem mais íntima de toda a realidade?
SE MATASSE alguém (e aqui não discuto, não por não a considerar relevante, a questão do especismo), eu estaria atentando contra a ordem humana ou contra o cosmos? Ao matar alguém firo a harmonia universal ou "apenas" maculo a paz e, portanto, transgrido uma das normas mais importantes da sociedade? É bem verdade que a primeira alternativa não exclui a segunda...
Em todo caso, não me parece haver qualquer indicativo indiscutível de que a própria ordem - quer "divina", quer cosmológica - impõe à humanidade o dever de não matar. Ao contrário disto, é perfeitamente razoável, ao se estudar o cosmos, inferir que o universo incita o humano a matar. Não é de modo algum uma aberração lógica de uma mente demente deduzir da observação dos corpos celestes que a violência é o substrato de toda a realidade. Contudo e felizmente esta inferência não é corriqueira...
O DEVER de não matar não tem sua origem num horizonte extra-humano. Ele não paira, inconcusso, sobre a cabeça da humanidade, mas precisamente em seu interior. Se se advoga o oposto, isto é, que o "não matarás" (assim como outras tantas máximas) foi herdado pelos homens sapientes a partir de algo que se encontra além da esfera humanóide, deve-se pôr à prova tal pressuposição, ao passo que o ônus de provar a gênese deste e doutros princípios na psiquê não chega a ser um fardo insuportável, se é que sequer pesa uma grama. Eis aqui uma verdade?
CONFESSO que não me incomodaria nem um pouco com a hipótese esdrúxula de a humanidade em peso proclamar as minhas últimas palavras como verdadeiras. O que está em questão, entretanto, é o seguinte: se se alude a um algo extra-humano para se fundamentar o "não matarás", deve-se aventar simultaneamente uma evidência em favor de tal idéia. Em contrapartida, se afirmo - e afirmo que afirmo mesmo - que as máximas morais nascem das idéias humanas só tenho que provar que não é plausível concebê-las com seguranga senão deste modo. Se não se me afigura, por insuficiência de indícios, que as máximas morais tenham sido dadivadas por Deus ou por qualquer outra criatura etérea aos primatas que jogam futebol, nada mais provável que concluir que o lugar no qual germinaram outro não foi senão a cabeça daqueles seres que quebram suas próprias cabeças em investigações de natureza semelhante a esta de que aqui trato.
À IDÉIA segundo a qual as máximas morais têm um DNA humano cheguei por eliminação de alternativas. Não a afirmaria categoricamente, embora o meu desejo de isto fazer se assemelhe ao desejo de quem pensa o contrário e afirma o contrário. Mas o que mais quero querer é que ninguém pense que negar a procedência extra-humana e, por conseguinte, o predicado "verdadeiro" (porquanto a sua procedência) aos princípios morais implique na assunção de um relativismo.
DE MODO ALGUM. Em vez disto, ratifico o caráter de máxima do "não matarás". Ressalto apenas que esta máxima já se sustenta sem que se tenha que apelar para algo transcendente. Não se trata, portanto, de discutir a sua verdade, mas a pertinência de tê-la como verdade humana, ou seja, criada e usada pelos homens e mulheres.

Um comentário:

Agnon Fabiano disse...

"Todavia, o que mais me interessa agora é: o valor deste imperativo ético é fruto da sua utilidade para a humanidade ou se deve ao fato de que ele se encontra inscrito na essência e na ordem mais íntima de toda a realidade?"

Jefferson, isso tem me encucado bastante...
Já li alguns livros sobre os dois pontos de vista, mas ainda não estou seguro. Tenho mais alguns sobre o assunto, mas ainda estão na "fila" (rs)para serem lidos.
De qualquer forma, numa coisa eu acredito: que existe uma parte sobrenatural nessa "lei da consciência".

Abraço.