quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Fé, Confiança, Crença etc.

Confiar em algo exige uma dose de possibilidades de que aquilo em que cremos não se realize como desejamos. Se há uma probabilidade muito grande de que o que esperamos ocorra, então não precisamos depositar muita confiança nesta questão. Por outro lado, se fortes indícios nos dizem que as chances de um evento se passar são remotas ou muito remotas, então precisamos crer muito mais naquilo que desejamos que aconteça. A fé é inversamente proporcional às probabilidades. Mas, por paradoxal que pareça, não seriam as probabilidades equivalentes às crenças?

2 comentários:

Agnon Fabiano disse...

Jefferson, tenho uma visão diferente.

Acho que "confiar", "crer" e "ter fé", não podem se confundir para os fins do que você quis demonstrar. Como sua conclusão (“A fé é inversamente proporcional às probabilidades”) vem a partir de premissas usando “confiar” e “crer”, acredito que você tenha usado essas três palavras como sinônimas.

Mesmo assim, considerando sinônimas, eu teria outra visão. "Confiar" não depende das possibilidades, mas sim das consequências. Às vezes ela é confundida com uma mera aceitação intelectual. Por exemplo, um garoto sobe em um muro através de uma escada. Porém, o trabalhador, dono da escada, passa e a leva, sem perceber que o garoto havia subido na laje. O garoto fica chorando e chamando pelo pai. O pai chega e pergunta:

- Meu filho, você confia no papai? Confia que o papai é forte e pode segurá-lo?
- Sim - diz garoto.
- Então pula que o papai segura você - retrunca o pai.
- Não - responde o garoto.
- Mas você não disse que confia no papai?
- Sim, mas não pulo - responde o garoto.

Só sabemos o quanto confiamos em alguma coisa quando algo que prezamos muito está em jogo. Posso confiar numa corda para puxar uma caixa de 100kg até minha janela no segundo andar, mas pensarei duas vezes em ter confiança nela para me pendurar num precipício.

Confio no meu equilíbrio ao caminhar em cima do meio-fio, mas não confio tanto assim nele, caso tenha que caminhar no parapeito da cobertura de um edifício de 15 andares, mesmo que esse parapeito tenha o triplo da largura de um paralelepípeto.

Portanto, em vez de relacionar a confiança à probabilidade de algo ocorrer ou não, eu a relacionaria com o “valor” do que está em jogo. Confiar num galho não seria apostar se ele suporta ou não 80kg, mas saber se esses 80kg que ele terá que suportar será o seu peso ou apenas o de um jarro. Posso confiar nele para pendurar a enorme samambaia, mas não para penduar um balanço pro meu filho.
Assim, a fé seria confiar, mas não “confiar em alguém ou em alguma coisa”, e sim “confiar alguma coisa à alguém”. Não seria “confiar na corda”, mas “confiar meu piano a essa corda”, não é simplesmente “confiar em Deus”, mas “confiar minha vida à Deus”. A fé seria diretamente proporcional ao valor daquilo que confiamos a outro.

Um colega, ontem, deixou a chave da casa dele com uma faxineira (que ele sequer conhecia) para ela fazer o serviço enquanto ele ia trabalhar. Quando eu perguntei se ele iria confiar em deixar a chave com ela, ele respondeu: “não tem nada de valor pra levar mesmo!”.

Abraço, amigo.

Jefferson Góes disse...

Parece-me fazer muito sentido o que você escreveu. Vou pensar mais a respeito disso. Obrigado!!