quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Breve biografia do brasileiro que tem como objeto de estudo o camelo

Depois de ter incursionado pelas universidades européias, o brasileiro regressará para a universidade pública da qual esteve licenciado e onde trabalhará com os seus alunos as sutis, porém relevantes, diferenças entre o fenômeno do camelo e o camelo em si.

Uma vez no solo pátrio, o pesquisador brasileiro logo organizará um grupo de estudos em que, sob as suas rédeas, digo, sob a sua batuta, alunos se esforçarão para demonstrar astuciosamente que são tão obtusos quanto os camelos. O pesquisador, para incentivar-lhes, recomendará a árida leitura dos manuais nos quais sorverão a fórmula mágica segundo a qual poderão eles mesmos se transmutar em pesquisadores: a subserviência de um camelo para suportar longos períodos sem idéias originais acrescida do fardo de um fado que não lhes permitirá trafegar senão pelas dunas formadas pelo pó dos livros escritos pelos pais fundadores da disciplina a que se dedicam.

Na verdade, o pesquisador brasileiro costuma ir à Europa para adquirir a sua segunda corcova, já que sai do Brasil apenas com o grau de mestre. Os que vão em busca da terceira saliência no dorso, isto é, do pós-doutorado, retornam apenas com as corcovas um pouco mais robustas, o que já é uma vantagem, evidentemente.

Disso se deduz que o camelo é a um só tempo o objeto de estudo e o estudioso mesmo. Se se descurou até hoje desta verdade primeira foi em virtude da viciada maneira de se analisar o fenômeno da camelidade que não foi suficientemente dialética, ou seja, apenas um ato metodologicamente falho. Porém, ao atingir tal grau de auto-reflexividade, o pesquisador já teve de percorrer longos caminhos e obrigado se vê a aposentar-se. É agraciado, naturalmente. Penduram-lhe nas corcovas algumas medalhas e lhe recomendam camelinhos que dele ouvirão os segredos de cada deserto. Alguns desses camelinhos ocuparão lugar de destaque na caravana que segue de “sei lá” com destino para “só Deus sabe”. Outros camelinhos serão ressentidos e escreverão textos desta jaez.

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