quinta-feira, 15 de maio de 2008

SENHORES E ESCRAVOS: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES A PARTIR DAS PERSPECTIVAS DE HEGEL E DE NIETZSCHE

Hegel louva a filosofia cartesiana por ela ter aflorado a partir do reconhecimento da subjetividade, do cogito. Entretanto, o pensador alemão critica Descartes – e aqueles que seguem o seu caminho, como Kant e Fichte – por este não avançar na compreensão de que o ‘eu’, embora seja importantíssimo como pilar da reflexão filosófica, é incapaz de, sozinho, radicar em si a filosofia.

Hegel extrapola sem refutar completamente a subjetividade, marco característico da filosofia moderna. Ou seja, ele reconhece, como dissemos acima, a relevância do procedimento cartesiano de estabelecer o cogito como base segura para a reflexão filosófica. No entanto, Hegel vai mais além de Descartes e lança à luz a intersubjetividade como ponto central a partir do qual pode a reflexão filosófica ter um terreno efetivamente sólido para se desenvolver[1].

Hegel, ao suprassumir[2] a idéia de subjetividade como foi posta por Descartes, demonstra uma compreensão, em meu entendimento, extremamente mais acurada da realidade efetiva, pois o sujeito se move sempre entre outros sujeitos. Meu eu se anularia se se retirasse da relação com os outros ‘eus’. Então, o outro é, inegavelmente, conditio sine qua non do meu próprio eu. Cito, portanto, a frase lapidar de Lima Vaz que encerra em si, de modo sucinto, o que venho procurando apresentar: “não há subjetividade fora da intersubjetividade” [3].

Apresento ainda algumas palavras no tocante à insuficiência da subjetividade para fundamentar a reflexão filosófica. Insuficiência que se evidencia mais se a subjetividade se intensificar ao grau de tornar-se um solipsimo, risco mais que provável. Aludo, então, à Certeza Sensível (umas das primeiras figuras da consciência no caminho que ela percorre – a fenomenologia – experienciando-se a si mesma) para tentar provar a debilidade da subjetividade enquanto esteio do pensamento filosófico. Como Hegel o demonstra, a Certeza Sensível frustra-se ao perceber que outra Certeza Sensível também tem as suas verdades [4].

Penso que as implicações da reflexão hegeliana acerca da dificuldade da Certeza Sensível em lidar com o outro (com outra Certeza Sensível) vão bem mais além do mero âmbito epistemológico. Devemos pensar também a intersubjetividade a partir do viés ético. E é aqui precisamente que inicio o confronto entre o pensamento de Hegel com o de Nietzsche. Esboço, todavia, uma breve explanação da concepção nietzscheana de escravidão para, ao fim, abordar a dialética do senhor e do escravo de Hegel como contraponto a Nietzsche.

SENHORES E ESCRAVOS: A FILOSOFIA ARISTOCRÁTICA DE NIETZSCHE

Nietzsche notabiliza-se por suas teses, no mínimo, heterodoxas. Trata-se de podar alguns dos seus pensamentos e é justamente o que me proponho a fazer neste breve texto cujas idéias versam, como o título denuncia, sobre o conflito no campo da ética entre senhores e escravos [5], ou seja, no âmbito da intersubjetividade. [6]

É bem sabido por quem já se dedicou à leitura de alguma das obras de Nietzsche que ele tem uma grande simpatia pela organização aristocrática da sociedade. Senhores versus escravos: esta seria a divisão social perfeita. Ou seja, parece haver um telos em sua filosofia – inconfessável, é verdade – já que ela acena para o estabelecimento da referida dicotomia como meio eficaz contra o niilismo e em favor do fortalecimento da cultura. Deixo falar, portanto, o próprio Nietzsche:

Toda elevação do tipo ‘homem’ foi, até o momento, obra de uma sociedade aristocrática – e assim será sempre: de uma sociedade que acredita numa longa escala de hierarquias e diferenças de valor entre um e outro homem, e que necessita da escravidão em algum sentido. [7]

Não há qualquer possibilidade de equívoco: essas palavras não se contradizem em nenhum outro lugar da sua obra (contradição que é, aliás, muito comum quando Nietzsche aborda outros temas). Não há perspectivismo com relação à escravidão. Ela sempre aparece como indispensável para que a cultura adquira todo o seu vigor. Mais uma vez transcrevo as palavras do próprio Nietzsche a respeito desta questão:

[...] Nesse primeiro estágio, justiça é a boa vontade entre os homens de poder aproximadamente igual, de acomodar-se entre si, de ‘entender-se’ mediante um compromisso – e, com relação aos de menos poder, forçá-los a um compromisso entre si. [8]

No excerto acima citado, embora se refira especificamente à leitura que Nietzsche realizou da história, é possível perceber mais uma vez o seu claro posicionamento com relação à estruturação da sociedade, tanto é que – de um modo que poderia muito bem ser enunciado pela boca de Trasímaco – ele compreende a justiça como possuidora de “dois pesos e duas medidas”, a dependerem daqueles contra ou a favor de quem ela se dirige.

Entre os filósofos da modernidade o pensamento de Nietzsche com relação à escravidão é peculiar: ele lamenta o seu fim e preconiza o seu retorno. É bem verdade que Nietzsche não se refere à dominação econômica ou à dominação baseada em raças. No entanto, fica evidente que é absolutamente distinto o seu pensamento daquele que foi anteriormente desenvolvido por Hegel e isto o explicitaremos um pouco mais adiante.

Para tornar ainda mais clara a idéia de Nietzsche acerca da escravidão como característica crucial que a humanidade deve cultivar, remeto-a ao seu contexto original dentro da sua filosofia, qual seja, a vontade de poder.

A vontade de poder aparece na filosofia de Nietzsche como o fulcro de toda a realidade. Para ele, qualquer ente – orgânico ou não – é constituído por forças que querem expandir-se e assenhorear-se daquilo que as cerca. O caráter mais importante, por conseguinte, de tudo aquilo que é vivo é desejar a dominação. Entretanto, no entender de Nietzsche, alguns seres perdem as suas capacidades ativas, dominadoras, e deixam-se subsumir temporariamente por outros. É exatamente aqui que aparecem os antípodas senhores e escravos.

Conforme as extensas explanações realizadas por Nietzsche em Além do bem e do mal e na Genealogia da moral, senhores e escravos têm moralidades contrastantes, ou melhor, antagônicas. Em linhas gerais, os senhores são os criadores de valores; vêem-se como bons, fortes, livres e belos e chamam de maus àqueles que, na luta, contra eles não se lançam. Estes são fracos, os desprezíveis... Nietzsche diria, em uma palavra – escravos.

Os escravos – aqueles que abdicam do embate, da emulação direta – não agem, mas reagem: antes de intitularem-se a si mesmos de bons, atribuem o valor mal aos seus senhores, porquanto estes inflijam-lhes dores e sofrimentos. A reação dos escravos ocorre não no franco enfrentamento, no vis-à-vis, mas por meio de uma inversão dos valores nobres originais. Reação sutil, intelectualizada, que incute a culpa no espírito nobre para em seguida derrotá-lo. Reação astuciosa, capaz de soçobrar o ethos dos senhores ao criar uma realidade supra-sensível, o inferno, reservada aos seus “melhores” indivíduos.

Assim sendo, julgo ter apresentado, sucintamente, o pensamento de Nietzsche relativo à escravidão. Sigo adiante, portanto, de acordo com o plano previamente traçado: apresentarei, em suma, a dialética do senhor e do escravo de Hegel como contraponto à concepção nietzscheana da escravidão.

SENHORES E ESCRAVOS: UMA DIALÉTICA

Hegel observa a escravidão em toda a história da humanidade, mas observa também o seu paulatino esvaecimento: a história é a efetivação da idéia de liberdade. Liberdade que não pode ser abdicada.

É espantosamente belo o pensamento dialético: apreende o negativo como necessário. Neste sentido, escreve Kojève com respeito à dialética do senhor e do escravo:
O homem só atinge a autonomia verdadeira, a liberdade autêntica, depois de ter passado pela sujeição, depois de haver superado a angústia de morte pelo trabalho efetuado a serviço de outrem (que, para ele, encarna essa angústia). O trabalho libertador é pois necessariamente, à primeira vista, o trabalho forçado de um escravo que serve um senhor todo-poderoso, detentor de todo o poder real. [9]

O escravo reconhece-se a si mesmo como escravo porque na luta contra o seu adversário eximiu-se de ir até o fim: matar ou morrer. Preferiu preservar a sua vida, mas perdeu a sua liberdade devido à angústia da morte iminente em combate. Uma vez derrotado, percebe que deve servir ao vencedor, ao seu senhor. Os desejos deste tornam-se seus motivos de ocupação. Age em conformidade com o apetite do senhor. Contudo, um dia, o escravo tornar-se-á livre graças ao trabalho que o agrilhoa.

O escravo – reduzido à condição de besta por não ser reconhecido como homem pelo senhor – passa a perceber-se de um outro modo quando transforma a natureza por meio do trabalho. O trabalho devolve-lhe a possibilidade de fazer-se reconhecer enquanto homem, pois

Só depois de haver produzido um objeto artificial é que o homem é real e objetivamente algo mais e diferente de um Ser natural; e é apenas nesse produto real e objetivo que ele toma de fato consciência de sua realidade humana subjetiva. Portanto, é pelo trabalho que o homem é um Ser sobre-natural real e consciente de sua realidade; ao trabalhar ele é Espírito encarnado, é mundo histórico, é História objetivada. [10]

A relevância do trabalho como via pela qual a consciência escrava pode ascender de coisa ao patamar de humano é atestada também por Paulo Meneses: “Portanto, é no Trabalho, precisamente onde parecia exterior a si, que se descobre a si mesma e atinge sua verdade de ser-para-si”. [11] Isto quer dizer que o trabalho é suprassumido pelo escravo, que lhe dá um outro significado.

Desta suprassunção do e pelo trabalho emerge a humanidade do escravo, antes mero ser natural, coisa. Todavia, e, por incrível que pareça, o senhor é desmascarado pela dialética hegeliana. O que parecia incontestável é escrutinado inteligentemente e revela a verdade: o senhor tem consciência escrava. Conforme comenta, num outro texto, Paulo Meneses:
O senhor é uma potência destrutiva, porque pelo desejo consome o que o escravo produz e assim vive dependente dele. E como só chega à certeza de si mesmo através de uma consciência dependente, sua verdade é a consciência escrava, na medida em que vive no trabalho um processo de formação (Bildung): os papéis se invertem, possibilitando o reconhecimento mútuo. [12]

Reconhecimento mútuo, imagino eu, que faz avançar na sua efetivação a idéia de liberdade ao longo da história. Reconhecimento mútuo que foi bela e acertadamente batizado por Suzano de Aquino Guimarães como um segundo nascimento. [13]


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Se a questão for escolher o pensamento de um dos filósofos no tocante à escravidão, opto, sem titubeios, por Hegel, pois ele não apenas se indigna contra a escravidão como ainda propõe a sua própria filosofia como meio de luta contra a escravidão e em favor da efetivação da idéia de liberdade.






[1] Cf. COSTA, Danilo Vaz-Curado Ribeiro de Menezes. Revista Eletrônica Estudos Hegelianos, ano 1, nº. 01. http://www.hegelbrasil.org/rev01f.htm
[2] O neologismo ‘suprassumir’ foi elaborado por Paulo Meneses, tradutor e um dos maiores especialistas em Hegel no Brasil. Suprassumir pretende verter para o nosso idioma a palavra alemã Aufhebung, a qual pode significar, a depender do contexto, três coisas distintas, a saber: negar, conservar ou elevar (qualitativamente). O filósofo alemão, no entanto, utiliza-a, de quando em vez, com as três acepções concomitantemente. Um dos exemplos que ele mesmo apresenta é o da flor: o botão é negado na flor, embora não completamente, porquanto algo dele se conserve na flor, a qual não é, todavia, apenas o que já estava no botão (já que há, inegavelmente, qualquer coisa nela de diferente com relação ao botão, novas qualidades emergiram). Quer dizer: o botão permanece e não permanece na flor, a flor é e não é o botão.
[3] Retirei esta frase de Lima Vaz do texto de Suzano de Aquino Guimarães intitulado Desejo e Liberdade: considerações sobre a Dialética do Reconhecimento na Fenomenologia do Espírito de Hegel. In Revista Eletrônica de Estudos Hegelianos, ano 2, nº. 03. http://www.hegelbrasil.org/rev03v.htm
[4] Cf . HEGEL, G.W.F. Fenomenologia do Espírito. RJ: Vozes, 1997.
[5] Na verdade, tentarei podar não alguns dos pensamentos de Nietzsche. Tal tarefa exigiria de mim muito mais do que, por ora, posso dar. Consagrarei, portanto, o meu texto à crítica do pensamento aristocrático nietzscheano e, para tanto, recorrerei à filosofia hegeliana.
[6] De fato, as críticas de Nieztsche ao cogito cartesiano não se aproximam da crítica dialética (que nega, conserva e eleva) de Hegel a Descartes. Mesmo assim, julguei pertinente começar este trabalho abordando este tema porque quis ressaltar o movimento que perfaz o pensamento hegeliano, cujo ponto de partida é o cogito que se transmudará em, conforme o professor Alfredo Moraes, cogitamus.
[7] NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 153.
[8] NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral: uma polêmica. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 60.
[9] KOJÈVE, Alexandre. Introdução à leitura de Hegel. Rio de Janeiro: Contraponto: EDUERJ, 2002, p. 29.
[10] Idem, 2002, p. 28.
[11] MENESES, Paulo. Para ler a fenomenologia do espírito. São Paulo: Edições Loyola, 2002, p. 63.
[12] MENESES, Paulo. Hegel e a fenomenologia do espírito. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, pp. 30 e 31.
[13] Cf. GUIMARÃES, Suzano de Aquino. Desejo e Liberdade: considerações sobre a Dialética do Reconhecimento na Fenomenologia do Espírito de Hegel. In Revista Eletrônica de Estudos Hegelianos, ano 2, nº. 03. http://www.hegelbrasil.org/rev03v.htm

Um comentário:

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