quinta-feira, 15 de maio de 2008

Mito, filosofia e Religião

A transição de um saber (ou concepção) mitológico para um outro pretensamente mais rigoroso - o filosófico - costuma ser apresentado como uma ruptura. Contudo, acreditamos que as rupturas no âmbito do conhecimento não se esgotam completamente, ou seja, não eclodem abruptamente, mas se apresentam em vias de efetivação gradual ao longo do tempo. Ou seja, admitimos a idéia segundo a qual no campo do conhecimento não há rupturas, mas desdobramentos, isto é, processos que, ora mais lenta e ora mais rapidamente, engendram concepções mais elaboradas sobre os fenômenos cognoscíveis. Direcionaremos as nossas reflexões neste sentido para destacarmos o elo inquebrantável entre a filosofia e a ciência contemporânea.
Reconstituir em pormenores todo o trajeto pelo qual a razão se mostrou em sucessivas fases ao longo de nossa história é tarefa que escapa às nossas habilidades. Mesmo assim, é-nos lícito recompor, segundo a nossa concepção, as linhas gerais, dominantes, deste caminho tortuoso percorrido pela razão ocidental desde a mitologia grega até o aparecimento da ciência contemporânea.
Com efeito, julgamos que já há qualquer coisa no saber mitológico grego que, a despeito das inúmeras revoluções do saber, perpassam e, portanto, permanecem, mesmo que implicitamente, no modo de racionalizar dos cientistas e das pessoas em geral nos tempos hodiernos. Trata-se, em nosso entendimento, de um pensar metafísico. Naturalmente, o termo ‘metafísica’ encerra em si uma polissemia incrível. No caso específico ao qual nos referimos, isto é, num sentido muito estrito, cremos na existência de uma estrutura no pensamento humano que exige, por sua vez, a existência de um nexo causal a todo e qualquer fenômeno. Tal exigência da razão atravessa, ao que nos parece, toda a história do pensamento no ocidente. No entanto, por razões que extrapolam o nosso escopo, em algum momento as hipóteses usuais a partir das quais os fenômenos são compreendidos perdem o estatuto de aceitabilidade e, então, novas explicações passam a ser demandadas. A razão, todavia, jamais se exime de requerer fundamentos para os objetos do conhecimento.
É certamente esta a idéia de Aristóteles quanto à ubiqüidade de uma noção causal no pensamento. O estagirita tratou de sistematizar os modos pelos quais os seus predecessores inferiam a causalidade e, além disso, levou adiante a reflexão a este respeito ao sugerir uma idéia mais sofisticada no que tange às causas. Não é nosso propósito esboçar aqui um resumo desta teoria aristotélica, mas não titubeamos ao evocar o filósofo quando na Metafísica ele afirma que, em certo sentido, alguns dos poetas gregos também eram filósofos porquanto tenham esboçado reflexões a respeito das origens. De fato, podemos ler nos textos de Hesíodo e Homero, dentre outras tantas e fascinantes coisas, uma representação alegórica acerca da origem de todas as coisas. Ambos os poetas remetem os fundamentos da realidade aos deuses: lembremo-nos do título de uma das principais obras de Hesíodo – Teogonia. Toda a trama do nascimento e vida dos deuses servia-lhe de material para compreender as particularidades componentes do cosmos e do homem.
Um dos desdobramentos mais notáveis da noção de causa na história do pensamento se verificou na Grécia. Filósofos como Tales e Anaximandro não acharam suficientes as explicações alegóricas com relação às origens e à existência da realidade oferecidas pelos poetas gregos. Por esta razão, buscaram desenvolver reflexões mais sistemáticas e rigorosas sobre a gênese e as mudanças do universo. A senda pela qual se guiaram foi de outra natureza: tratava-se de uma forma de raciocínio que se esforçava por afugentar os resquícios mitológicos e, ao mesmo tempo, se orientava no terreno das observações da realidade e dos rigores da lógica (é fato que tanto o caráter empírico quanto o lógico eram ainda embrionários). Tales lobrigou na água o elemento primordial do cosmo, isto é, apercebeu-se de que este elemento era o sustentáculo de tudo que há. Não se conhece outro elemento, em sua opinião, mais universal do que a água e, além disso, tudo que é vivo dele depende diretamente. Estas e outras tantas reflexões – sempre subsidiadas por argumentos que não apelam para o fantástico, para o mitológico – foram sistematicamente erigidas pelo pensador de Mileto e o tornam, indubitavelmente, o primeiro físico, assim como o primeiro filósofo. Para se fazer justiça a Tales, temos de ressaltar, ainda, que, para alguns comentadores, sua concepção da causa primeva não era apenas material. A água da qual ele nos fala não era exatamente aquela que nos sacia a sede, mas um princípio, de certo modo, imaterial. Tales recorre ao mundo da matéria e dele retira um elemento que é, diríamos, transubstanciado para se tornar a fonte do ser, da realidade. O raciocínio incrivelmente sofisticado de Tales provoca os gregos, que assumem o seu legado e lhe continuam a obra. Os seus variados desdobramentos, no entanto, mantêm, por bastante tempo, a mesma estrutura.
Aludimos ao filósofo Tales para defender a tese segundo a qual há cadeias – elas não aprisionam, mas estabelecem a relação, o vínculo inescusável – entre as mais antigas narrações da mitologia grega, a filosofia e a ciência contemporânea. Tales é, em nossa opinião, devedor das fábulas alegóricas gregas: não é possível pensarmos na figura deste pensador sem pensarmos também na dos vates que propagavam pela Hélade as lendas e estórias concernentes aos deuses. Do mesmo modo, não conseguimos conceber o desenvolvimento das ciências moderna e contemporânea sem a existência da filosofia grega que lhe fornece um arcabouço conceitual e, por conseguinte, uma gama extensa de problemas. Tentaremos demonstrá-lo a seguir.
A ciência contemporânea é tão variegada que talvez devêssemos falar de ciências contemporâneas. Contudo, se mantivermos em mente toda esta heterogeneidade de objetos e de métodos que caracterizam os campos nos quais se desenvolvem as pesquisas científicas nos dias atuais, poderemos englobá-las sob uma designação única. Pedimos vênia para lançar mão de uma imagem alegórica para falarmos da ciência: consideremo-la, em geral, como uma árvore e cada ciência em particular como um ramo. Os ramos, por sua vez, se subdividem ou permitem o aparecimento de folhas, flores e frutos. Não obstante tamanha variedade, julgamos ver nisto tudo determinadas características em comum: qualquer que seja a ciência ela se assentará em concepções metafísicas. Demonstrar tal assertiva é tarefa hercúlea, mas nos ocuparemos, sinteticamente, de um dos ramos mais proeminentes do saber, a física.
Se recorrêssemos à física moderna teríamos exemplos numerosos para apresentarmos em favor da nossa tese que afirma a presença de um elemento metafísico no cerne da estrutura argumentativa de cientistas tais quais Copérnico e Galileu. Mas nos restringiremos à física contemporânea. Heisenberg, o cientista responsável pelo desenvolvimento da física quântica no começo do século XX admitia em seus livros uma relação entre o pensamento dos pré-socráticos e o dos físicos. Em ambos os casos os pensamentos operavam com a idéia de que há um substrato de toda a matéria, um elemento primordial no qual se ancoram todas as manifestações da realidade. Isto apenas já é suficiente para demonstrar o vinculo entre filosofia e ciência a que já tantas vezes temos nos referido. Portanto, se se estabelece a relação entre ciência e filosofia, estabelece-se, de pronto, a relação entre ciência e mitologia grega, já que esta é condição necessária para o surgimento da filosofia. Naturalmente, há outras relações e as apontaremos mais adiante.
As pesquisas na física quântica surpreendem-nos a todos. A cada dia apresentam um elemento mais profundo, ou originário, que sustenta a matéria. A tal ponto têm chegado estes estudos que a própria idéia de matéria é abalada. Partículas subatômicas que não são completamente compreendidas abrem terreno para um imenso campo de especulações metafísicas, ou seja, que levam para além da física.
Ademais, numa outra vertente da física contemporânea, temos como caso emblemático o do inglês Stephen Hawking. Na sua obra Uma Breve História do Tempo ele tenta reconstituir toda a trilha percorrida pela matéria para formar o universo tal qual ele se nos apresenta atualmente. Toda a cadeia argumentativa é norteada a partir da célebre teoria do Big Bang. A teoria afirma que toda a matéria do universo estava originalmente concentrada num único ponto menor que a cabeça de um alfinete. Após uma explosão o universo foi adquirindo as feições que nos são conhecidas. O autor, no entanto, admite a insuficiência da teoria para explicar como toda a matéria – e energia – pôde ser condensada neste ponto minúsculo (não seria este ponto o elemento originário, a arche?). Admite, inclusive, que a sua causa pode ter sido algo imaterial, quer dizer, Deus. Assim, de acordo com a teoria científica mais famosa do século XX a respeito da origem do universo, não se pode alijar completamente as hipóteses alegóricas e/ou metafísicas, já que nela há um limite explicativo acerca de um ponto crucial, a saber, a razão última, a causa eficiente de toda a realidade.
Boa parte da ciência contemporânea se eximiu da tarefa de procurar um sentido na realidade. Poucos cientistas contemporâneos têm tido tal preocupação – uma das exceções talvez seja a de Einstein, para quem Deus não joga dados com o universo. Tal assertiva do físico alemão parece querer dizer que as incertezas não são absolutas, mas que há possibilidade de conhecer a natureza da realidade, apreendendo-lhe o sentido. E outra não foi a ambição dos gregos que cogitavam sobre a raiz do cosmo, embora tenham se servido de outros instrumentos interpretativos: menos precisos, talvez, mas muito mais poéticos e belos que os gélidos cálculos matemáticos.

Um comentário:

Agnon Fabiano disse...

Achei interessante, Jefferson, algumas colocações que você fez, como, por exemplo, a questão de não haver ruptura do conhecimento, mas sim desdobramento. Isso é uma realidade inquestionável, pois esquecer tudo o que veio antes e passar a outro conhecimento não é progresso, mas simples mudança, de maneira que mudar não garante melhoria. No progresso, sempre temos que conservar algo anterior. [O progresso é caminhar para mais perto de um objetivo - e aí talvez você não concorde comigo, que, sendo a verdade relativa, o que seria esse objetivo? O que seria o melhor? Mas isso é outro assunto... ;), continuemos então...] É o que nós podemos ver na história da filosofia, desde de seu surgimento pós mitologia. Muito do saber mitológico foi "aproveitado" - se assim podemos dizer. Hesíodo, que você citou, criou, já na sua Teogonia, um pensamento dialético, pois sua descrição de criação trás um evolver de todas as formas, com suas distinções, oposições e contradições. Hesíodo, pois, é personagem da história da dialética.

O Stephen Hawking, também citado por você, é um grande exemplo de especulações metafísicas nas ciências contemporâneas. Te dou um exemplo: Na seu livro "O Universo em uma casca de noz", Hawking mostra figuras da criação do Universo e em alguns pontos das figuras tem escrito "Leis desconhecidas", ou seja, especulação (no bom sentido) filosófica na teoria.

A atitude de especulação nas ciências é natural e sadia, desde que se procure ter o máximo de imparcialidade, ou seja, de que não se tenha outro propósito ao escolher essa ou aquela figura reflexiva.

Mas é justamente o contrário disso que uma "ala" de cientistas modernos vêm fazendo. A verdade é que eles não raciocinam, mas racionalizam, pois eles já têm um fim desejado e iniciam a pequisa de maneira que o desenrolar dela chegue a tal fim. É como eu citei Francis Crick no meu blog: "os biólogos devem sempre manter em mente que o que vêem não foi projetado, e sim evoluiu."

Meu desejo é o mesmo de Phillip Johnson, ou seja, "não é que os milagres devam ser invocados arbitrariamente em lugar de se valer inferências lógicas provindas de evidências, mas que as evidências que apontam para causas inteligentes, quando presentes, não sejam descartadas devido a preconceitos".

Um abraço.