sábado, 15 de março de 2008

As vias duma vida

Além do cajado, carregava uma trouxa de sentimentos. Olhava as pedras no caminho e não sabia se indicavam esperança ou desespero. Caminhava para longe, para qualquer lugar, e a poeira que subia até as suas narinas era ainda mais sufocante que o ar quente e seco de sempre das suas noites solitárias. Caminhava como quem se arrasta e, ao cair da noite, tinha como testemunha apenas as estrelas e a lua.
De repente percebeu bem diante de si uma explosão silenciosa cuja luminosidade deixou-o por um instante cego e também receoso. Não fugiu, todavia. Não havia naquela caatinga lugar para onde pudesse correr para se guardar do perigo ao qual, em princípio, presumiu estivesse exposto.
Não lhe restando muito o que fazer, resolveu fitar, então, a luz que àquela ocasião já minguara consideravelmente. Seus olhos se postaram fixamente num ponto pequenino como uma bola de gude. Como a luzinha não se movimentava resolveu entao tê-la entre os dedos.
Um ar leve como o da infância envolveu todo o seu corpo; um perfume de todas e de especificamente nenhuma das rosas inebriou a sua mente; o som dos mais belos aboios entrecortados pelo barulho das ondas que jamais vira e ladainhas de procissão conduziram seu corpo calejado por alamedas de eucaliptos. Caminhava ainda, portanto. Mas caminhava como quem baila, como quem vive.
Acordou. Sede, fome, cansaço. Calor, seca, lágrimas. Mais uma jornada: novos passos pelos mesmos espaços.

Um comentário:

Rachel Prochoroff disse...

Lindíssimo!!!
De arrepiar.
Português belíssimo pintando o quadro que toca a alma.
Obrigada por esse momento!