sábado, 12 de janeiro de 2008

Sentimentos Ambivalentes

Volvo ao tema da ambivalência dos sentimentos. Freud escreve páginas memoráveis acerca disso. Ele nos faz ver, por exemplo, a gênese do sentimento do luto a partir do conflito entre as pulsões de vida e de morte.
Quando morre um ente querido ficamos tristes, obviamente, mas em alguma parte do inconsciente há certa alegria, satisfação. Que loucura! O luto advém, então, da necessidade que temos de permanecer escondendo para nós mesmos e para os outros esse ligeiro júbilo que assoma em alguma parte recôndita da nossa psyché. É assim mesmo? Psicanalistas de plantão corrijam-me caso eu tenha dito besteira.
Mas mesmo que eu tenha escrito bobagem ao descrever a gênese do mecanismo de defesa conhecido como luto, o que importa aqui é que sentimentos ambivalentes são vivenciados por todos e por todas. E o que desejo mesmo com este textículo é partilhar com quem o lê uma divagação que me assaltou poucos dias atrás sobre a origem de um caso específico de sentimento ambivalente.
Nossos vizinhos têm um filhinho que acabou de completar um aninho. Eu e Sheila costumamos brincar com a criança todos os dias. Quando não é possível, por qualquer motivo, dedicar ao menininho uns 10 minutos ao menos, fico com a sensação de vazio antes de dormir. Brincar com Ernesto me faz, ao mesmo tempo, rir e querer chorar (estou confessando isto pela vez primeira!). Não sei por que motivo me derreto internamente (tenho de lutar para não verter lágrimas). Talvez porque a criança um dia se torne homem e eu não sei se isto será bom ou ruim; talvez ainda porque desejasse que ele fosse meu filho... Não sei, mas eis mais um exemplo de sentimentos ambivalentes.
Mas o caso específico de sentimento ambivalente que no parágrafo antecedente ao anterior eu havia prometido abordar o abordarei doravante. É o seguinte: Ernesto, às vezes, nos dá uns tapas na cara. Sei que o velho Freud também já convenceu meio mundo acerca da existência extremamente precoce da agressividade (ou pulsão de morte – Thanatos) entre as crianças. Seria tolo se o negasse. Contudo, arrisco-me a forjar uma outra teoria, teoria esta calcada na fumaça bruxuleante do cachimbo do pai da psicanálise.
Creio que quando o nenê nos dá os seus tapinhas, ele pode estar querendo nos acarinhar. Falta-lhe apenas coordenação motora e o movimento, portanto, mostra-se brusco, tosco. É evidente que às vezes ele quer é bater mesmo, quer protestar contra o preço do nosso hálito ou da nossa mão que o aperta sem muita delicadeza. Mas quase sempre o seu movimento intercala os carinhos que lhe dedicamos. Por esta razão, penso que seus tapinhas são, na verdade, o seu feedback. Por que não?
E onde haveria sentimentos ambivalentes por aqui? Lá vai minha teoria, completando-se. É mais ou menos assim: quando o bebê “bate”, brigam os pais. Sua intenção não era má, não era destrutiva. Mas ele acaba introjetando o sentimento de culpa. Desde esse momento a infância deixa de ser tenra e torna-se também espinhosa. Não seria este o pecado original que carregamos pelo resto da nossa vida?
Aí está como penso que a culpa, a má consciência, ficará indelével em nosso espírito. Nunca mais teremos sentimentos “puros”. Ambivalência. Ambivalência.


Voltarei a falar sobre isso. Mais tarde colocarei um outro texto.

2 comentários:

Sthefane disse...

olá
Estou fazendo um ensaio teórico a respeito da ambivalência de sentimentos, e gostei de sua teoria onde o bebê bate por não ter coordenação motora o suficiente. Porém venho a discordar de você em um ponto e concordar em um outro: quando o bebê bate ele quer realmente bater, mas isso não significa que é uma agreção, como você mesmo disse. Acredito sim, que seja uma demonstração de afeto, mas com tapas, pois como professora atuante na educação infantil, posso lhe afirmar que ele tem coordenação o suficiente para acarinhar, e também a têm para bater, morder, beliscar...
Enfim, espero que tenha colaborado alguma coisa. e como você me baseio em Freud.
Atenciosamente.
Pedagoga Sthefane Lupion

Gostaria que me respondesse
Sthefane_gatavirtual@hotmail.com

Miradouro Cinematográfico disse...

Deveras interessante esta sua teoria de que o tapa pode ser carinho, vindo da criança (e do adulto tbm, não achas?, embora aqui não se trate de limitação de coordenação motora); contudo,ponho uma questão: não poderia o tapa infantil ser já ambivalente? Vc, embora tenha defendido que o tapa infatil pode ser uma tentativa "desastrada" de carinho, não exclui a existência de tapas com intenção agressiva, de modo que não poderia um tapa conter ambas as intenções?

E se o tema é ambivalência, eis uma dúvida: é possível não detestar quem amamos? Igualmente, é possível não adorarmos quem odiamos?