terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Piscar de Olhos


Ressalto, de antemão, que não falo alemão: “ainda estou nas aulinhas de inglês”. Contudo, conheço umas palavrinhas da língua teutônica (que, aliás, sempre parecem palavrões). É o caso de Augenblick, a qual, vertida para o nosso vernáculo, quer dizer “instante”.
Não sei por que motivo nem com que argumentos Heidegger afirmou em algum lugar que só é possível filosofar em alemão. Por arranhar o inglês, respondo a esta idéia com uma palavra apenas: bullshit! Assim, muito embora discorde da tese heideggeriana, tenho de reconhecer a riqueza da língua alemã no que se refere, sobretudo, à vasta gama de sentidos que perpassam as suas palavras. Como exemplo desta abastança semântica cito, mais uma vez, Augenblick. Ela é uma aglutinação, isto é, uma palavra composta. Literalmente significa “piscar de olhos”.
Resumindo: no alemão “piscar de olhos” e “instante” se dizem da mesma forma. E, a respeito do instante, Heidegger teceu considerações interessantíssimas. Em sua obra capital, Ser e Tempo, ele defende que o tempo não é uma sucessão de “agoras” isolados. Em cada instante, somos nosso tempo totalmente: as três dimensões do tempo se interpenetram. O que foi ainda vigora no agora que é, por sua vez, pura possibilidade, ou seja, abertura para o porvir. Bem, foi mais ou menos assim que entendi.
Mas mesmo que eu tenha cagado o pau na compreensão do hermético texto de Heidegger, o que importa é a imagem que se me assomou à mente. Envergonho-me da sua obviedade, mas que posso fazer se não a havia visto assim antes? Piscar os olhos não é apenas cerrá-los (como quase sempre pensei). Qualquer piscar de olhos é formado por dois instantes – um em que os olhos vão se fechando e outro no qual vão se abrindo. Fiz questão de usar o gerúndio para enfatizar o jogo ligeiro e contínuo entre o movimento e o contramovimento das pálpebras. Enquanto vão se fechando, parece que os olhos nos dizem que algo está passando. Mas, ao se abrirem, eles nos dizem que há qualquer coisa que se aproxima.
E o presente, onde fica? Creio que ele fica no entre. Ali, meio esmagadinho pelo passado e na esteira do futuro. Ele é a percepção da memória e da expectativa; é o desejo que se projeta tanto para o já conhecido como para o desconhecido; é a consciência de que o já ido não se vai completamente e de que o ainda não vindo em parte já chegou. Mas o presente é efêmero. Ele é, tal qual o instante, fugidio, irrefreável e inapreensível. Esvai-se assim como quase todos os piscares de olhos: imperceptivelmente.

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