terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Vida e Literatura

Há um abismo incrível entre vida e literatura, assim como entre aquela e a filosofia. Não sou o primeiro a dizê-lo e espero não ser o último. Necessário se faz repisar de vez em quando esta idéia para que os presunçosos literatos e filósofos não se arvorem como gênios.
É inegável que há gênios entre escritores e pensadores profissionais, mas na mesma medida em que há paz em Gaza. Inveja? Despeito? Talvez. Não vou negar que adoraria ver lançado sobre mim o epíteto de gênio. Afinal ser gênio abre os caminhos, desde que não seja uma genialidade reconhecida apenas postumamente.
Mas estava eu a falar a respeito da enorme distância entre literatura e vida. Ora, na Genealogia Nietzsche nos diz que Homero não escreveria a Ilíada nem Goethe nos presentearia com Fausto se as experiências relatadas em suas obras houvessem sido suas. Não discordo do bigodudo. Neste ponto ele parece extravagantemente sensato.
Se a vida de Homero não foi tão homérica assim e a de Goethe não foi marcada com pelejas contra um Mefistófeles, não é de se esperar que a de nossos mestres-escolas que vivem à sombra daqueles gênios seja menos prosaica. Ou será que me equivoco?
É possível que nossos professores de literatura – assim como os de filosofia – não tenham se tornado gênios porque suas vidas tão plenas de energia e experiências incomuns sejam incompatíveis com o ofício miserável de castigar o papel com belas palavras.
Não sei onde li, certa vez, que Hemingway libertava-se do álcool apenas quando se entregava aos caprichos da literatura. Lembro-me também que o autor ou a autora daquele texto disso concluiu que as paixões são ciumentas, são excludentes e coisas semelhantes. Eu, por minha conta, prefiro crer que não se pode servir a mais de um senhor.
Sim, creio não ser possível servir a mais de um senhor. Não queria conspurcar meu texto com obviedades – no fundo desejo ser um grande escritor – mas é evidente que os escritores todos escreveram em vida. Contudo, vida homérica e literatura, penso, não se conjugam e mesmo Hemingway não foi senão coadjuvante durante a Guerra Civil Espanhola. Do mesmo modo, sabemos perfeitamente que não respingou sequer uma gota de sangue ou de lágrima sobre o paletó de Churchill durante a Segunda Guerra.
Pode parecer estranho a alguns que eu esteja associando vida à tragicidade, a eventos grandiosos etc. Não sou tão estúpido que aprecie e louve apenas esse tipo de vida, mas me parece quase sempre belo quem se entrega aos ditames das suas paixões; parece-me encantador aquele que é todo ação no sentido de efetivar o que o desejo lhe impõe. Encanto-me porque sou fraco. Encanto-me porque sou afeito ao conforto, mas ele não é irmão da coragem.
Todavia, reconheço e me embriago com a beleza de outros modos de vida: a honesta simplicidade; a ambição veraz, mas não desmedida. Reconheço beleza na vida dos fracos, não na dos resignados. Reconheço beleza nos ingênuos, não nos imbecis. Reconheço beleza na vida de um mestre-escola, não na de um impostor que arrota bobagens. Reconheço beleza na literatura vulgar, não genial.
Reconheço beleza no meu desejo ingênuo e provavelmente fadado ao malogro de tornar-me romancista. Reconheço beleza em minha própria vida tão desprovida de realizações, tão pálida de inventividades. Consigo reconhecer beleza mesmo na minha vida sem literatura.

Jefferson Tadeu 08/01/2008

Um comentário:

sofrendo.do.cérebro disse...

Jefferson! Bem-vindo à vida blogueira, apesar de a minha estar deveras abandonada... Gostei da sua divagação sobre literatura e vida. Me fez pensar sob uma nova ótica essa relação. Eu sempre acreditei que para escrever coisas interessantes você deve vivenciar coisas interessantes. Mas nem sempre. Geralmente o escritor é muito mais o observador que ficou vivo pra contar a história né?


Sempre que puder, darei um pulinho aqui.


Beijo!